50 Anos de BASIC
Wanderley Caloni, 2014-05-13: devaneando

Introdução Ilustrada à Computação

Minha primeira linguagem de programação foi o BASIC. Aprendi durante minhas frequentes visitas à biblioteca lendo livros dos anos 80. Na verdade, eu não me lembro muito bem por que diabos resolvi aprender a programar, já que eu estava mais interessado em entender como um computador funciona. Por que? Não sei bem ao certo, parece que já nasci com um chip embutido que foi ativado quando comecei a tender muito para o lado de humanas ao iniciar a faculdade de Letras… um chip salvador!

Enfim, um dos melhores livros que já li na minha vida não foi um cheio de letras, mas muito mais figuras: a Introdução Ilustrada à Computação, de Larry Gonick. Ele foi traduzido e publicado no Brasil pela Itautec e é um clássico absoluto sobre a história da computação, explicada de uma maneira que até um leigo completo conseguiria entender. E quando eu digo “computação” não estou me referindo a noções vagas sobre como o computador processa a entrada e gera saída. O ilustrador Larry Gonick fez um excelente trabalho em capturar a essência de cada inventor da história ¿ como Alan Turing, John Von Newmann, Charles Babbage e Ada Lovelace ¿ e cada conceito básico aplicado à invenção do computador, desde saldos condicionais (Lovelace), lógica booleana (George Boole), codificação binária e, pasmem… flip-flops!

Enfim, depois de explicar tudo isso e mais um pouco, no seu último capítulo ainda há uma pequena introdução ao BASIC que vinha instalado nas máquinas daquela época. Bem rústico, mas capaz de enviar comandos para a máquina e executá-los. Não aprendi todos os comandos nesse livro, mas ele foi minha porta de entrada para leituras mais “densas”, que me fizeram evoluir de uma calculadora capenga (meu primeiro programa!) para um emulador do jogo Genius, com direito a efeitos sonoros, cores configuráveis e gravação de recordes, tudo no próprio executável (na época um .COM, onde isso era possível). Esse foi meu primeiro programa com mais de 1000 linhas que eu me lembro (e com mais de 10 GOTOs e GOSUBs, também).

A modalidade mais popular do BASIC quando me interessei pelo assunto rodava no Windows 95 e se chamada QuickBASIC, ou QBasic, já em sua clássica versão 4.5. Passei longas horas com aquela tela de fundo azul na madrugada corrigindo erros, anotando detalhes no papel, refazendo a lógica mentalmente, até conseguir resolver o problema. Podia ser qualquer problema, pois ele viraria inevitavelmente a diversão da noite. Podia até ser um detalhe de implementação de uma função específica embutida: o F1 funcionava e era bem rápido.

QuickBASIC

O BASIC é uma linguagem fácil de aprender, não tem muitos limites e seria a minha escolha para ensinar programação para crianças caso ainda não tivessem inventado Python. Ela tem o tipo de sintaxe que você pode literalmente sair programando. Uma linha de código já imprime alguma coisa na tela. A lógica do fluxo de execução é simples, e os GOTOs ajudam a ilustrar como funciona. A depuração é sem frescuras, e os erros de tantos saltos sem nó, para variar, é do programador. Se vira, agora, com tanta SUB!

Os puristas irão dizer que o aprendiz precisa ser educado de acordo com as novas tendências de programação estruturada, orientada a objetos, ou 100% funcional. Porém, eles esquecem que a programação aprendida por autodidatas como eu não era algo que podia-se chamar trabalho. Ninguém imaginava naquela época, naquela idade, fazer algo tão divertido e ser pago para isso. Exatamente, divertido. Uma linguagem precisa ser divertida para que o programador se interesse em conversar através dela com a máquina. É óbvio que, quando amadurecer, enxergará as óbvias limitações de uma linguagem imperativa como BASIC e irá passar para algo mais elaborado, seja Pascal, Java, C, C++. Não importa. A ambição técnica e perfeccionista do programador, enquanto não o engole, torna qualquer linguagem divertida. E no começo, onde erros de compilação e a falta de ponto-e-vírgula pode desanimar qualquer um, BASIC tinha esse espírito selvagem de “faço tudo o que quiser nessa linguagem até virar homem e programar em C” (ou Assembly).

Por tudo isso, e por muito mais, parabéns pelos seus 50 anos de vida, minha linguagem favorita para me fazer lembrar que programar pode ser divertido e despretensioso. BASIC, você é um amigão!