A Caminho de Kandahar

2020-03-17 · 523 · 3

Crianças, a maioria meninas, estão prestes a deixar o Irã e se mudar para o Afeganistão, em um ambiente controlado por forças extremistas, tradicionalistas e desumanas. Apesar de terem cerca de cinco a seis anos, um adulto as adverte para a falta de escolas como algo ruim, uma opinião que eu duvido que crianças dessa idade compartilhariam. Ele também dá um conselho: para momentos difíceis imaginem que são formigas. Dessa forma, por pior que seja o aperto, o ambiente onde estarão será amplo e grandioso.

Curiosamente um dos filmes que o cineasta Mohsen Makhmalbaf fará após Kandahar se chama “Scream of the Ants” (grito das formigas), uma análise sobre crenças e rituais. Mas é a cultura que está sendo escrutinada em A Caminho de Kandahar, em particular a cultura que oprime as mulheres. Uma jornalista feminista tenta a todo custo entrar na região para falar com sua irmã, que pretende se suicidar no último eclipse do século. São tantos elementos fantásticos em jogo que nos esquecemos de acreditar em tudo isso, mesmo que saibamos através de noticiários e documentários que tudo o que vemos no filme acontece de fato.

Esse contraste entre o que é real e o que é acreditável acontece o tempo todo nesse filme, que mistura teatro e drama com um realismo pesado. A mistura de cores e movimentos deixa uma impressão de exagero nas cenas. Os personagens nesta história não agem como personagens da História afegã, mas como atores em um palco montado para exemplificar como seria se eles estivessem realmente filmando no deserto. Para aumentar o desconforto, há belíssimas paisagens enquadradas pelo diretor Mohsen Makhmalbaf e fotografadas por Ebrahim Ghafori (do ótimo Osama). A luzes capturadas no Oriente Médio costumam gerar esse contraste entre o horror e a poesia, mas neste filme o que está em jogo são as pretensões do cineasta, que manipula a natureza humana de maneira desajeitada, apressada e, portanto, relapsa.

A narração em inglês da jornalista canadense, a beleza de seus olhos e a brancura de sua pele ocidentalizam uma experiência exótica. Makhmalbaf fala com propriedade e experiência quando monta situações da história, como o garoto que tenta insistentemente vender um anel tirado de um cadáver para a mulher, mas sua forma de filmar corrompe a pureza dos causos, pois o cadáver é uma caveira meticulosamente arranjado para um corte rápido no filme. Enquanto conseguimos ver quem da produção arranjou esta caveira não conseguimos adentrar na história de fato, por mais real e imediata que ela nos pareça.

O roteiro mantém este único fio de tensão através das inúmeras experiências da forasteira nesta terra inóspita. Ela precisa encontrar a irmã, mas o tempo é curto. Isso gera uma urgência que faz com que o espectador preste muita atenção em por quê essas pessoas que ela encontra pelo caminho não a ajudam. Percebemos, então, que cada uma delas está imersa no inferno e vive como pode. Há um mercado paralelo de pernas postiças para os que a perderam pisando em minas pelo caminho. Esse é o nível do drama da região que as lentes ocidentalizadas de Makhmalbaf não conseguiram capturar com a pureza que merecem.

"Safar e Ghandehar (aka The Sun Behind the Moon)" (Irã e França, 2001), escrito por Mohsen Makhmalbaf, dirigido por Mohsen Makhmalbaf, com Ike Ogut, Nelofer Pazira e Hassan Tantai. Da série dos DVDs da Augusta. 3/5 · movie · 2020-03-17
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