A Dark Song

2019-11-11, 728 words, 4 minutes

A Dark Song é um filme de terror minimalista, onde seu poder é construído pelas circunstâncias criadas em seu início e truques baratos de som e iluminação que funcionam justamente por causa do seu começo. Do jeito que eu descrevo parece o guia padrão para qualquer filme do gênero que se preze, mas infelizmente a grande maioria peca pelo excesso.

Aqui não. Este é um filme que desde o começo estabelece sua seriedade pela obstinada protagonista que encontra a ajuda que precisa e que não mede esforços nem dinheiro para realizar um ritual em que consiga evocar seres sobrenaturais que a ajudem a realizar um desejo. Sophia Horward é uma mãe em luto pelo filho e que fará de tudo em vida por um momento de paz.

Toda a atmosfera do filme é criada principalmente pelos diálogos entre ela e seu auxiliar, que é um babaca desde o início para não termos dúvida de que ele deve morrer no final. Mas de qualquer forma, a energia e o respeito pelos rituais de Joseph Solomon é o que nos mantém seríssimos a respeito desses dois, que irão se isolar em uma casa no campo por meses a fio na esperança de contato com o além-vida.

Essa dedicação e seriedade é o que não vemos em outros filmes, que inventam mitologias mirabolantes seguidas de imagens que impressionam pela falta de criatividade e de coerência estética. São sempre criaturas medonhas que habitam as mentes dos diretores de arte medíocres de Hollywood. Deve ser muito entediante a mente de um roteirista que vive em Los Angeles e que nunca teve contato com qualquer conhecimento ocultista.

A Dark Song é justamente o oposto: referenciando tudo e mais um pouco do que o homem já se utilizou para acessar algo além do que a ciência tornou enfadonho, os rituais deste filme estão sempre envoltos de um ar de respeito pela tradição. Não é que seus participantes precisem acreditar em algo. Eles apenas não têm alternativa a não ser seguir o que vários já tentaram e fizeram.

A dinâmica do casal enfraquece conforme o tempo passa, pois não acreditamos de fato que tantos meses se passaram. A relação e a aproximação entre eles pouco muda, e o que conversam sempre é em um tom informativo para o espectador, que é lembrado a todo momento de o quão sério e irreversível mexer com este mundo pode ser.

A loucura dos homens coincide com a loucura além-vida. No filme não há como saber se o que vemos aconteceu fisicamente ou na mente de Sophia. Exatamente como na vida real. Diferente dos filmes clichês, ninguém em sã consciência sai acreditando em tudo que vê e ouve, salvo se a pessoa já for uma crente (nunca é) ou, nesse caso, uma mãe desesperada, que aceita o salto de fé mais pela experiência de redenção do que para provar algo. É uma sinceridade inatacável, à prova de críticas dos mais céticos. Nesse sentido o filme é mais um drama intimista sobre os universos dentro de nossas mentes do que um parque de horrores que adolescentes querem ver na matinê.

A trilha sonora de Ray Harman nos introduz a cada novo momento da história reforçando o quão tudo aquilo é estranho. São notas dissonantes, feitas com instrumentos não feitos para serem tocados juntos. Não há rima, não há descanso nem harmonia. A música nos lembra para não relaxarmos, caso o dueto incansável de desentendimentos entre Sophia e Joseph não tenha sido muito enfático.

Este é um filme de terror sem sustos fáceis que se faz aumentando o som de repente. É antes uma viagem metafísica pelos nossos pesadelos de mesmo depois de mortos não haver descanso. Os efeitos e maquiagens são eficientes por nos lembrar que muito provavelmente o além-vida irá ficar devendo monstros horrendos demais, já que seres humanos em decadência, físico ou comportamental, já são esses monstros no dia-a-dia.

Por fim, A Dark Song pode ser acusado de desonesto em querer usar uma última reviravolta de uma jornada emocional insatisfatória. Isso acontece porque Sophia não é uma personagem complexa o suficiente para entendermos seus desejos. Ela se mantém apenas como um símbolo humano genérico e portanto incompleta para saciar nossos desejos de que pelo menos no fim um ser humano consiga a paz que tanto buscamos em vida. É frustrante, mas qual filme de terror bem sucedido não é?

A Dark Song. "A Dark Song" (Irlanda e Reino Unido, 2016), escrito por Liam Gavin, dirigido por Liam Gavin, com Steve Oram, Catherine Walker e Susan Loughnane. Assisti depois de baixar pela dica do @colemaker. Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-11-11. Quer colaborar?