A Mula

2019-12-26, 591 words, 3 minutes

Todos estão compenetrados em seus celulares, mas Earl Stone continua vivendo sem o uso de aparelhos. A triste história é que o último filme de Eastwood é o clichê do pai ausente, mas a boa notícia é que ele tira sarro de justiceiros sociais com certa sutileza, ou às vezes não, como quando um latino está sendo enquadrado pela polícia e fica repetindo como aqueles cinco minutos são os mais perigosos de sua vida, sendo latino e tudo mais. Ele teme por sua vida baseado em estatísticas que nem ele sabe direito traduzir, em uma tradução simples e eficiente de como o pensamento liberal americano está corrompido por uma lógica vazia que tenta sustentar sentimentos contraditórios com a realidade. Enfim, é sempre bom poder ver um novo filme do velho Clint.

Aqui ele não inventa muito. Baseado em um roteiro simples, embora eficiente, de Nick Schenk, que se inspirou em um artigo do New York Times escrito por Sam Dolnick sobre um caso real, Clint Eastwood faz um noventão que ignorou sua família a vida inteira para se dedicar a suas flores, pois lhe davam notoriedade entre os colegas. “Elas apenas florescem uma vez”, ele diz sobre suas flores, e tem que ouvir um “e a sua família não?” de sua ex-esposa. Eastwood parece um pouco mais sentimental aqui, embora nunca sentimentalóide como a geração atual, o que garante ao seu personagem, Earl Stone, o mínimo de dignidade necessária para viver.

Convenhamos que o ator/diretor é a melhor coisa em A Mula, e isso sendo à frente ou atrás das câmeras. Ele dá conselhos sobre como levar a vida para Bradley Cooper, e os significados se multiplicam mesmo que a história seja simples e direta: após ter que fechar sua floricultura, Earl recebe uma proposta para digirir da sua maneira extremamente segura e carregar quilos e mais quilos de cocaína entre fronteiras. Enquanto isso acompanhamos uma história mal desenvolvida que envolve um investigador da narcóticos (Cooper) vindo de outro estado e que pretende retomar sua carreira descobrindo um grande caso como esse.

Sempre em defesa da liberdade individual acima de tudo, mas deixando claro que o respeito mútuo é a máxima desse princípio, seja você negro, branco, pobre ou rico, A Mula é um colírio para qualquer olho cansado de ver o mesmo lenga-lenga vitimista nos cinemas da última década, acostumado preguiçosamente a criar narrativas de opressão como se ela fosse a regra vigente. Aqui Earl é o dono do próprio destino, ainda que velho, acabado e errado. Impotente no que diz respeito à força física, seu espírito continua intacto, e quando ele decide visitar sua ex-esposa enferma não é porque ele foi acometido por uma crise de consciência. Não há mudanças nos personagens deste filme. Ele apenas decidiu que agora era o momento de revê-la, e não é difícil perceber que este é um filme que enaltece as pessoas que criam seus próprios caminhos em vez de ficar reclamando o que a vida lhe tem feito passar.

O humor está presente no filme através do quão ridículo é um cartel de drogas ficar à mercê de um senhorzinho à beira da morte. Ele é um ótimo motorista, não há dúvidas sobre isso, e os capangas em torno da briga de chefões são seres humanos que aos poucos se entregam à humanidade do sujeito. Há muitas lindas mensagens sobre relacionamento entre humanos neste filme, e todos eles criticam duramente como o papel de vítima é uma praga que deve ser extirpada. Como é bom ver um novo filme do velho Clint.

A Mula. "The Mule" (EUA, 2018), escrito por Nick Schenk baseado em artigo de jornal de Sam Dolnick, dirigido por Clint Eastwood, com Clint Eastwood, Patrick L. Reyes e Cesar De León. Na minha corrida para assistir os filmes do ano. Nota: 4/5. Tags: movies. IMDB: 7959026. Publicado em 2019-12-26. Quer colaborar?