As Portas da Percepção

Jun 25, 2018

As Portas da Percepção é um (ou dois) ensaio do escritor Aldous Huxley que descreve com uma precisão poética os efeitos do uso da droga conhecida como mescalina, e se você tem vergonha na cara já deve ter se lembrado desse nome citado nas inúmeras vezes que assistir ao filme The Matrix. Quando Neo recebe uma visita que o acorda (“the white rabbit”) ele ainda parece estar dormindo. Sua visita e cliente conhece esse efeito: “mescalina! A melhor maneira de voar”. Aparentemente o Sr. Huxley voou bem alto em certo momento da vida.

O livro é curto, mas possui muitas distrações e comparações pela história da humanidade, que tentam de maneira completamente aleatória ligar o uso de drogas que ampliam a consciência do mundo com rituais das mais diferentes tribos pelo mundo e pelo resultado dos mais diferentes artistas, sobretudo os pintores. Por ser unicamente em modo texto o leitor precisa ter um conhecimento invejável da História da Arte ou merecíamos uma edição ilustrada para entender melhor o que o Sr. Huxley quer nos dizer.

De qualquer forma a parte mais útil se encontra no começo, onde ele estabelece algumas distinções vitais entre o uso de alucinógenos e o álcool ou o tabaco. Enquanto esses últimos, apesar de legalizados, possuem altas taxas de dependência e insalubridade ao organismo humano, alucinógenos como mescalina ou ácido não apenas não possuem efeitos colaterais permanentes, como sequer viciam seus usuários.

Mas a defesa de Huxley vai além, pois todo o ensaio tem por objetivo defender uma expansão de nossa realidade, sobretudo enxergamos o universo não mais do ponto de vista do “eu”, mas do não-eu, uma nova forma de interagir com o universo que revela o que muitos filósofos já desconfiavam: que somos parte de um todo.

Cada indivíduo é a um só tempo o beneficiário e a vítima da tradição linguística no seio da qual nasceu ¿ é seu beneficiário na medida em que a língua lhe dá acesso aos registros acumulados das experiências de outras pessoas, e é sua vítima na medida em que a mesma língua confirma, no indivíduo, a crença de que a consciência reduzida é a única consciência, assombrando o seu senso de realidade e criando nele a tendência quase inevitável de substituir os dados pelos conceitos, as coisas reais pelas palavras.

O cérebro contém vários sistemas enzimáticos que servem para coordenar suas operações. Algumas dessas enzimas controlam o fornecimento de glicose para as células cerebrais. A mescalina inibe a produção dessas enzimas e, assim, diminui a quantidade de glicose disponibilizada a um órgão que necessita constantemente de açúcar. O que acontece quando a mescalina reduz a ração normal de açúcar fornecida ao cérebro? Uma vez que os casos observados foram poucos, ainda não podemos dar uma resposta completa a essa pergunta. Mas podemos resumir a seguir o que aconteceu com a maior parte dos poucos que tomaram mescalina sob supervisão. A memória e a capacidade de ¿pensar direito¿ pouco ou nada se reduzem. (Ouvindo as gravações das minhas conversas sob a influência da droga, não constato que eu estivesse então mais obtuso do que sou normalmente.) As impressões visuais se intensificam e o olhar recupera parte da inocência perceptiva da infância, quando as sensações não se subordinavam imediata e automaticamente aos conceitos. O interesse pelo espaço diminui e o interesse pelo tempo quase se anula.

E, de qualquer modo, o corpo parecia perfeitamente capaz de cuidar de si próprio. Na realidade, ele cuida de si próprio o tempo inteiro. Tudo o que o ego consciente pode fazer é formular desejos, que são então executados por forças que ele controla muito pouco e não compreende em absoluto. Quando faz qualquer coisa a mais ¿ quando se esforça demais, por exemplo, quando se preocupa, quando fica apreensivo quanto ao futuro ¿, ele diminui a eficácia dessas forças e pode até causar doenças no corpo desvitalizado.

Se a mescalina fosse tóxica como as outras drogas de poder comparável ao seu, o simples fato de tomá-la seria suficiente para causar ansiedade. Mas a pessoa razoavelmente saudável sabe de antemão que, no que lhe diz respeito, a mescalina é completamente inócua, que seus efeitos passarão ao cabo de oito ou dez horas sem deixá-la de ressaca e sem, portanto, produzir nela a ânsia por uma nova dose.

O esquizofrênico, além de ser uma alma não regenerada, é também desesperadamente doente. Sua doença consiste na incapacidade de se refugiar da realidade interior e exterior (como faz habitualmente a pessoa sã) no universo prosaico do senso comum ¿ no mundo estritamente humano das noções úteis, dos símbolos compartilhados e das convenções socialmente aceitas.

Parece muito improvável que a humanidade em geral seja capaz de dispensar um dia os Paraísos Artificiais. A vida da maioria dos homens e mulheres é, na pior das hipóteses, tão dolorosa, e, na melhor, tão monótona, pobre e limitada, que a vontade de escapar, o anseio de transcender a si mesmo, por poucos momentos que seja, é e sempre foi um dos principais apetites da alma.

Para uma pessoa em quem ¿a vela da visão¿ nunca queima espontaneamente, a experiência com a mescalina é sem dúvida iluminadora. Joga luz sobre as até então desconhecidas regiões de sua própria mente; e ao mesmo tempo joga luz, indiretamente, sobre outras mentes, mais privilegiadas do que a sua no que diz respeito à visão. Ao refletir sobre essas experiências, essa pessoa pode chegar a uma nova e melhor compreensão das maneiras pelas quais outras mentes percebem, sentem e pensam, das noções cosmológicas que lhes parecem autoevidentes e das obras de arte às quais se sentem impelidas a nelas se expressarem.

Uma pessoa sob o efeito de mescalina ou ácido lisérgico vai parar de ter visões depois de uma grande dose de ácido nicotínico. Isso ajuda a explicar a eficácia do jejum como um indutor de experiência visionária. Ao reduzir a quantidade de açúcar disponível, jejuar diminui a eficiência biológica do cérebro e assim torna possível o acesso à consciência de um material que não tem nenhum valor para a sobrevivência. Ademais, ao causar uma deficiência vitamínica, remove do sangue o inibidor das visões, o ácido nicotínico. A psicologia experimental descobriu que, se um homem for confinado em um ¿ambiente restrito¿, sem nenhuma luz, som ou odor, e mergulhado em um banho morno com algo quase imperceptível ao toque, ele logo começará a ¿ver coisas¿, ¿ouvir coisas¿ e a sentir estranhas sensações em seu corpo.

¿Estava sentado na praia, ouvindo sem prestar muita atenção um amigo que argumentava violentamente sobre algo que me causava apenas tédio. Inconsciente de mim mesmo, olhei para um filamento de areia que eu pegara na mão e de repente vi a requintada beleza de cada grão; em vez de algo desinteressante e sem forma definida, vi que cada partícula era feita de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, e de cada uma delas refletia um intenso feixe de luz enquanto todos os cristaizinhos brilhavam como um arco-íris [¿] Os raios cruzavam e recruzavam, criando padrões de uma beleza tão fantástica que me deixou sem ar [¿] Foi quando, subitamente, minha consciência foi iluminada a partir de dentro e eu vi de um modo bem claro como todo o universo era feito de partículas de um material que, não importa o quão superficial ou sem vida pudesse parecer, era preenchido com essa beleza intensa e vital. Por um segundo ou dois o mundo inteiro apareceu-me como um resplendor de glória. Quando passou, me deixou com algo que nunca mais pude esquecer e que me faz lembrar constantemente da beleza encerrada em cada partícula mínima de matéria em torno de nós.¿

As imagens que aparecem nos limites mais próximos do subconsciente coletivo têm um significado em relação aos fatores básicos da experiência humana, mas, nos limites desse mundo visionário, somos confrontados por fatores que, como os de natureza externa, são independentes do homem, tanto individual como coletivamente, e existem sob seus próprios direitos. E seu significado consiste precisamente nisto: são intensamente eles mesmos e, assim sendo, são manifestações do caráter essencial ¿do que é dado¿, da alteridade não humana do universo.

¿o trabalho de um compartimento mental altamente diferenciado, sem nenhuma conexão aparente, emocional ou volitiva, com os objetivos, interesses ou sentimentos da pessoa¿.

PS: há um segundo relato que ele comenta também sobre a versão infernal do uso da droga. Começa interessante, mas cai em muito mais devaneios. Não terminei. Preferi entrar novamente no mundo ordenado de Aristóteles.

We had perhaps better consider the universal good and discuss thoroughly what is meant by it, although such an inquiry is made an uphill one by the fact that the Forms have been introduced by friends of our own. Yet it would perhaps be thought to be better, indeed to be our duty, for the sake of maintaining the truth even to destroy what touches us closely, especially as we are philosophers or lovers of wisdom; for, while both are dear, piety requires us to honour truth above our friends.

Wanderley Caloni, 2018-06-25