Bacurau

2019-10-09

Terceiro filme de Kleber Mendonça Filho, que começou com o ótimo O Som Ao Redor seguido do excelente Aquarius, Bacurau demonstra que o diretor não tem o mínimo jeito para lidar com personagens humanos nem com filmes tensos de ação. Todas suas reviravoltas são previsíveis e não sentimos por nenhuma das mortes. Se trata de uma análise de natureza morta, a intelectualização da condição humana sob o prisma pseudo-humanista de um historiador pensando em Brasil sem olhar diretamente para os brasileiros.

As pessoas do filme, devidamente divididas pelo DNA, feição e cultura, existem nos livros de história e nos estereótipos de uma esquerda à beira de um colapso nervoso. Não os culpo, dados os eventos recentes é compreensível (e risível) tamanha preocupação, mas considerando que nem um ano da derrota nas urnas se passou e sua arte já vocifera discursos de ódio mais abjetos que os lançados pelo inimigo, confesso que estou é esperando por mais.

Agora, se você não se importa com toda essa politicada, é capaz que ache o filme pelo menos angustiante, do começo ao fim. É o sentimento de não saber para onde ele vai, ainda que tenhamos em nosso instinto que ele não pode ir para lugar algum senão uma chuva de clichês, envolvendo futuro pós-apocalíptico realista com referências divertidas à sétima arte (o drone é a melhor parte) e aquela farofa do povo se armando contra os bandidos de fora.

Mas apesar dos clichês e da forma preguiçosa de apresentá-los, Mendonça (auxiliado por Dornelles na direção e roteiro) também exibe o que o torna um cineasta que se deve prestar atenção: suas ideias, visuais ou temáticas. Minha preferida é a de um caminhão trazido pelo prefeito da cidade que despeja centenas de livros, muitos já maltratados, no chão de terra batida. Em sua visita o prefeito também doa alimentos vencidos. Fazia tempo que não via uma imagem tão rica ideologicamente no cinema nacional, e esse momento rivaliza com vários do igualmente ideológico – esse sim, visionário – Arábia.

Mas a comédia acaba nessa cena. Mendonça quer sangue. E primeiro entrega parte do sangue do “seu povo” para depois retomar com juros, na melhor forma de referenciar seus filmes anteriores. Bacurau é uma cidade perdida no meio do nada, e em um futuro próximo está prestes a ser riscada do mapa. Literalmente. A região foi vendida para os gringos via negociação estatal com capangas do Sudeste. Eu me divertiria muito mais se esse pano de fundo fosse engraçado.

Mas, infelizmente, a comédia mesmo acabou. E essa alegoria de como a esquerda enxerga política não pode receber sua dose de humor. O que é uma pena, pois humor é a forma mais eficaz de fazer pensar. Elevando a tensão rapidamente a partir do momento que dois motoqueiros de capacetes invadem a cidade, “Bacurau” não nos faz mais refletir; apenas acompanhar uma história com tons de faroeste e com personagens nada interessantes (detalhe para Sônia Braga totalmente perdida sem ter o que fazer com sua personagem e Udo Kier criando um personagem para outro filme, um enlatado americano).

Bacurau. "Bacurau" (Brasil, França, 2019), escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, com Barbara Colen, Thomas Aquino e Silvero Pereira. Vi no Itaú da Augusta; a Sônia Braga agora tá bem velha e Mendonça com a faca entre os dentes. Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-10-09. Quer colaborar?