Barata Elétrica e o hacker de antigamente
Wanderley Caloni, 2007-08-31: devaneando

Barata ElétricaNa época em que eu entrei na rede, não sabia nada, mas queria saber muito. Cada vez mais era fissurado nesse negócio de computador, o que me fez ler sem parar por noites a fios assuntos informáticos. Meu primeiro contato com a cultura na internet foi lendo zines eletrônicos, os chamados e-zines. Dentre eles, o que mais me chamava a atenção pelos artigos bem escritos e pela busca incessante de informação foi o (finado?) Barata Elétrica, um e-zine hacker nacional. Escrita por um estudante de alemão da saudosa FFLCH (“Fefeléche”) que já participei um dia, a revista eletrônica zelava pela privacidade, conhecimento e liberdade de expressão.

Os artigos escritos por ele estavam em português, mas sempre em suas edições ele disponibilizava artigos de outras partes do mundo em inglês. Praticamente li todos eles, e muitos fiz questão de ler mais de uma vez. A maioria falava de um mundo que existia antes de eu ter um computador, onde existiam vírus e pirataria de programas em disquetes, BBSs e a tal reserva de mercado. Além, é claro, de dicas de como ser um nerd e não perder a sociabilidade (se é que isso é possível quando se é um nerd adolescente). Existe uma página no zine onde estão listados os melhores artigos de todos os tempos da revista.

O mundo underground de antigamente

Além do Barata Elétrica existiam outras revistas internacionais “bem conceituadas” na época, como a CCC (Chaos Computer Club), uma comunidade de hackers _e _crackers (o início do Astalavista!) fundada na Alemanha, e a 2600 Quarterly, constantemente perseguida pela polícia dos Estados Unidos depois das aprontadas do Mitnick. Como ainda eu ainda engatinhava no inglês, tive que me virar com o que tinha, um dicionário na mão e muita vontade de aprender. Não entendia muito, é verdade, mas minha atitude fez com que o inglês aprendido me valesse até hoje.

Naquela época, além de computadores, programação, muito café e coca-cola, meus interesses estavam bem mais voltados em entender como a sociedade progrediria diante dessa revolução tecnológica que estava acontecendo naquele momento. Como ficariam nossos direitos civis dentro da rede? Quem seria julgado por um crime digital e, talvez mais importante, quem seria o executor desse julgamento? O que seria direito digital? Como fica nossa privacidade? Todas essas questões me levaram a ler livros que recomendo fortemente, como 1984, Revolução dos Bichos e Admirável Mundo Novo. Todos falam de sociedades fictícias, mas cujas características estão muito mais presentes entre nós do que os estereótipos das novelas televisivas. Eles não falam muito sobre computadores nem programação, mas são muito bons para a formação crítica de um indivíduo sobre a sociedade em que ele vive.

Enfim, acho que já deu pra perceber que esse artigo não é sobre C++, Windows, Engenharia Reversa ou computadores. É muito mais um lapso nostálgico que me ocorreu sobre o que era ser um hacker naquela época: ansiar avidamente por conhecimento, mas não um conhecimento qualquer, que termina nele mesmo, ingurgitado junto das milhares de notícias diárias. É um conhecimento sadio, apreciado e mastigado lentamente, com consciência, com perseverança. Não havia aquele desânimo por falta de tempo em aprender todas as coisas, mas o contrário: o ânimo por existir mais e mais conhecimento a ser apreciado, discutido e refletido. A troca de informações entre as pessoas era muito importante. O adjetivo hacker da época não estava na capacidade em invadir sistemas, mas em sua atitude em aprender coisas novas, ampliar sua visão do mundo e ter humildade o suficiente para concluir que nessa vida só se aprende um grão de areia de uma praia gigantesca. Bons tempos em que não saber não era vergonha de nada, mas uma oportunidade a mais.

… e a internet de hoje

O tempo passa, o mundo gira, e aqui estamos nós: orkut, msn, youtube, blogues, flogues e outros *gues inventados a cada dia. As pessoas estão conectadas, e cada vez mais estarão. E para quê? Para trocar mensagens, emoticons, fotos, vídeos, informação. Sobre elas mesmas, sobre onde vivem, sobre onde moram. A tal da privacidade foi por água abaixo. Poucos possuem o discernimento do que podem e não podem fazer sem sofrer as conseqüências de ter sua vida inteira exposta através dos bits e bytes que nunca param de trafegar. A popularidade da rede transformou-a em um second life, literalmente. Para alguns, é até o first life mesmo. Isso é a escolha de cada um.