Better Call Saul (S05 E01)

2020-03-02 · 368 · 2

Avançando no futuro e no passado, eis que chegamos ao momento que Jimmy se torna Saul. E não é nada glamoroso. Causa uma estranheza um advogado com ternos coloridos de tamanhos inadequados aparecer de repente, como uma borboleta defeituosa, com uma asa faltando, que surge do casulo.

Mas a vida real é assim, e Better Call Saul eventualmente nos esfrega mais realidade do que a série de onde ele surgiu, Breaking Bad. Em meio à estética criada pela equipe do criador Vince Gilligan, a história se desenvolve aos poucos o que soa diferente, menos glamoroso, do que um homem comum se tornar um gênio do crime. É depressivo, melancólico. E humano.

Ver que Kim Wexler quer seguir o caminho correto da justiça ao mesmo tempo que percebe que seus clientes são tão imorais quanto seu namorado é de cortar o coração. Onde reside essa justiça senão no senso que as pessoas possuem dela? Qual a verdade? Estará ela confinada nas mentes geniais de pessoas problemáticas, incapazes de um ato de compaixão por retitude de caráter (ou de ciúmes), como seu irmão, que terminou com uma fobia completamente irracional?

E a dor de Mike e o garoto latino, que seguiram a carreira do crime e são obrigados a olhar para o espelho do passado a todo momento? Better Call Saul aborda diferentes personagens com receio de seus passados, que os condenam e os transformaram para sempre.

Não é nem na estética impecável da série que a originou que reside a beleza deste spin-off, mas do arcabouço místico desses personagens, que existem acima dos rótulos convencionais de heróis e bandidos, vilões e mocinhos. São personagens fortes demais para conseguirmos categorizá-los em esquemas teóricos de narrativa. Sempre há algo novo que emerge no universo de Breaking Bad. Pode soar mais do mesmo, mas sua hipnose continua funcionando tão bem quanto o primeiro episódio quando somos apresentados a um pacato professor de química que desejava algo além do que morrer de uma doença terminal e ter sua mente esquecida pelos outros mortais. Saul Goodman não é tão épico, mas é isso o que nos aproxima mais ainda dele, nesta epopeia do homem comum que desejava ser algo além do que estava condenado.

"Better Call Saul" (United States, 2015), escrito por Vince Gilligan, Peter Gould e Gordon Smith, com Bob Odenkirk, Jonathan Banks e Rhea Seehorn. 5/5 · tv · 2020-03-02
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