Como o Sistema de Estrelas como Nota Funciona

Caloni, December 15, 2018

Não é a primeira vez que me questionam que apesar de ter escrito no meu blogue muito mal sobre um filme eu tenha dado três estrelas como nota, como se três estrelas fosse admissível apenas para trabalhos minimamente positivos. Bom, é uma questão complicada. Imagine você compactar todo o texto analisando uma obra em apenas um número entre 1 e 5.

Um pouco de história

A história das estrelas, ou ranking de filmes, começa em 1928 quando a crítica Irene Thirer decide colocar uma escala de zero a três estrelas na sua coluna sobre filmes do New York Daily News. O primeiro filme que se tem registro de ter sido rankeado dessa forma foi A Entrevista das Cinco (1928).

De acordo com a própria Thirer, três estrelas significavam “excelente”, duas estrelas “bom” e uma estrela “medíocre”. Quando não havia nenhuma estrela isso significada que o filme é bem ruim. Caso esteja se perguntando, A Entrevista das Cinco recebeu uma estrela. =)

Mas esse foi apenas o início, que só se popularizou nos anos 50 quando a famosa revista francesa Cahiers du cinéma começa a fazer o mesmo, agora com uma escala de cinco estrelas no máximo e um ponto para acentuar nenhuma estrela. Esse negócio de não atribuir nenhuma nota, zerar mesmo, é um detalhe que a Wikipedia ressalta exageradamente, pois cada crítico parece ter uma opinião bem diversa do que seja um filme muito ruim.

A eliminação da diversidade

A própria questão de rankear filmes já dividiu e divide críticos e jornais, pois o argumento dos que são contra é no mínimo louvável: não se resume uma análise em um sistema de notas. O que acontece na prática, ainda mais na correria do dia-a-dia, é que as pessoas frequentemente olham mais a nota e se esquecem de ler o texto na hora de contra-argumentar, o que resume toda a questão em uma guerrinha de estrelas, que, vale lembrar, não diz absolutamente nada sobre o filme em si.

Eu tendo a concordar com isso não apenas em relação a filmes, mas a vinhos também. Talvez vinhos até mais. Construído em uma junção de tempo, sorte, terreno, clima e um controle não-tão absoluto do enólogo, as vinícolas estão sempre tentando criar diferentes formas de expressar a arte de fazer vinhos. Os sistemas de ranking ignoram a diversidade de aromas e sabores e categoriza tudo através de um número de 0 a 100, fazendo com que todo o mercado de vinhos se concentre mais em atender o sistema (para vender mais) e menos o consumidor final (que pode muito bem gostar de vinhos com pontuação baixa por alguma particularidade não capturada por um número).

O Pequeno Homem vai ao cinema

Mas voltando aos filmes. O melhor artigo que conheço sobre rankings é do Roger Ebert (“You Give Out Too Many Stars”), onde ele cita o Pequeno Homem do San Francisco Chronicle como o melhor sistema de ranking já criado. Vamos dar uma olhada:

O que interessa-nos aqui é a posição do meio, as “três estrelas”, que é um homenzinho sentado e prestando atenção no filme. Como nesse sistema de rankings eles também não tinham meia-estrelas, o homenzinho prestando atenção é um range, que vai desde quase-OK-mas-nem-tanto até quase-não-OK-mas-nem-tanto. Ou seja, pode ser tanto um filme que é quase ruim ou um que é quase bom. O que importa é que é possível que muitos gostem dele e muitos desgostem, o que é perfeitamente possível, pois gosto é subjetivo. E as estrelas, assim como o texto, vale lembrar, é a visão subjetiva de apenas uma pessoa. A explicação do Pequeno Homem também leva em conta que se uma pessoa gosta do gênero de um filme três estrelas ela possivelmente vai gostar desse filme; já alguém que não gosta do gênero não vai ver nada de mais.

Ao finalizar o texto Ebert se lembra de um fato importantíssimo sobre a nota do meio: as pessoas não gostam. Elas precisam que o polegar esteja virado para cima ou para baixo, mas nunca para o lado. Essa indecisão denota que o objetivo da estrela é basicamente como guia de consumo ou como uma forma não-racional de se conectar com a opinião do crítico. Bom, a resposta para isso é simples: cada pessoas terá seu sistema de notas, e as notas vão refletir esse sistema e não o dos outros. Por isso uma estrela pairando abaixo do título de um filme será sempre, na melhor das hipóteses, apenas um chute educado sobre o valor do tempo para se ver um filme.

Como o Sistema de Estrelas como Nota Funciona ● Como o Sistema de Estrelas como Nota Funciona (ou como ele não funciona) ● Categoria: blog. Publicado em 2018-12-15. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?