Dogville Teatro

Caloni, February 18, 2019

Eu não me lembro direito do filme de Lars von Trier, mas eu sei que ele foi impactante quando o vi, provavelmente em 2005. Estupro, escravidão, tiros. Quando você vai assistir a um filme do diretor dinamarquês é necessário que você esteja preparado para o pior. A peça dirigida por Zé Henrique de Paula talvez se prepare demais.

O minimalismo de Von Trier em seu filme, com casas pintadas representando a pequena cidade de Dogville onde se passa a hitória, na época se explicava por algumas das regras ainda seguidas pelo diretor do Manifesto Dogma 95. Esse manifesto criado por ele e Thomas Vinterberg visavam o foco na história, tema e atuações, excluindo usos elaborados de efeitos especiais e tecnologia. Como uma tentativa de retomar o poder para o criador do conteúdo em vez dos estúdios, o projeto foi aos poucos afrouxando no decorrer dos seus filmes até culminar em Dogville, que mantinha o foco nas atuações e direção, mas que já se dava ao luxo de projeções e efeitos de luz. Mas de qualquer forma a história toda se passava em um cenário que lembra um grande palco de teatro.

Dessa forma, Zé Henrique de Paula foi mais ousado em sua adaptação para um teatro de verdade ao utilizar elementos mais primitivos ainda: cadeiras. Cada habitante da cidadela dispunha de uma, e elas representavam em suas diferentes posições o que seus habitantes estavam fazendo. Cadeiras eram basicamente os únicos apetrechos à disposição dos atores para recriar a história.

Isso, duas cordas e uma roda.

Se por um lado Zé Henrique está charmosamente seguindo as premissas do filme original, e aos poucos nós, espectadores, entramos no jogo, o uso das atuais projeções quebra o encanto. Feitos em telas suspensas no meio do palco para realizar diferentes formas de montagem sem precisar inserir elementos reais em cena, essas projeções ajudam espectadores mais distantes dos atores e criam uma espécie de montagem de quadros bem rústica em comparação com Cinema. Aliás, o que mais há de rústico no teatro que o Cinema não seja o perfeito exemplo de um tempo que já se foi? Perdoem-me os fãs do vintage grego.

Além disso, o narrador da história nos conta os capítulos um a um; interpretado por Eric Lenate com uma dicção, vestimenta e postura que possibilitam que ele faça um outro personagem na peça, é a atuação mais forte em palco, pois nos mantém envolvidos mesmo que seu texto seja complicado e nos convide a ignorá-lo. Mas mesmo ignorando as elucubrações intelectualoides de uma aventura macabra envolendo uma jovem fugitiva que se esconde na cidade, não é possível ignorar a manipulação que o narrador vai criando a respeito dos habitantes da cidade, pois as informações mastigadas por ele são descritivas demais. Acabamos entendendo praticamente toda a história apenas ouvindo o narrador, o que acabaria sendo uma falha no cinema, mas que no teatro é o esperado para temas mais complexos. Quer dizer, não estou habituado ao teatro, mas imagino que seja comum, apesar de ter achado esse recurso bem preguiçoso.

De qualquer forma, a história de “Dogville: O Filme” está completa e possui um diálogo inestimável entre dois personagens no seu final. Um verdadeiro julgamento ao ar livre. Não apenas da cidade, mas de toda moral humana. Uma lição que irá ecoar pelas nossas cabeças vez ou outra quando pensarmos sobre a humanidade como uma espécie dotada de moral. Ou como coitados vivendo às sombras dos predadores. “Dogville: A Peça”, não cometeu a insensatez de tentar responder essa questão.

Dogville Teatro ● Dogville Teatro. Peça organizada pelo Teatro Porto Seguro a partir do texto de Lars Von Trier com direção de Zé Henrique de Paula. Com Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Rodrigo Caetano (Tom Edison). ● Nota: 4/5. Categoria: blog. Publicado em 2019-02-18. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?