Café
Wanderley Caloni, 2016-11-25: devaneios, pessoal, ferramentas

Vamos falar, então, de café? O café tem feito parte da minha vida em diferentes fases. Já o havia conhecido desde criança, pois diferente de hoje em dia, crianças podiam tomar o tradicional café da manhã com café e leite e ninguém ligava muito. Eu até participei do ritual infantil de molhar o pão com margarina na minha combinação perfeita entre café e leite quentinhos feitos pela mamãe. Talvez por isso a minha próxima fase com a bebida, como programador, tenha sido tão agradável e natural.

A primeira função do café na vida profissional é te manter acordado. Meus primeiros dias como programador profissional, trabalhando oito, nova horas todos os dias olhando para uma tela do computador tentando resolver problemas exigia que eu ingerisse cafeína para não cair com a cabeça no teclado. Havia, também, o ritual de socialização: o famoso cantinho do café. Em algum(ns) momento(s) do dia havia um sincronismo de threads entre alguns colegas e todos iam à mesinha com os copos descartáveis, um copo de vidro com colherzinhas, o açucareiro e aquela garrafa térmica com o tamanho proporcional ao tamanho da equipe. Os assuntos giravam em torno de travamentos, telas azuis, erros na instalação/desinstalação, criptografia de HD. O café regava assuntos difíceis para forjar programadores que se tornariam a base de conhecimento de muitos projetos e empresas.

Para o cantinho do café não havia nada muito rebuscado. Era o café de mercado, de indústria, com o custo/benefício adequado para manter programadores programando. O que, se falarmos de Brasil, já se traduz em um café de muita boa qualidade. No entanto, de vez em quando, sempre aparecia aquela empresa mesquinha que até nisso tentava economizar, comprando aquele pó com serragem da promoção em pacotes de 50kg. Isso se refletia em economia contábil de alguns reais todo mês para a empresa e um bando de programadores descontentes, conversando a respeito horas por dia, em vez de serem produtivos enquanto satisfeitos com a qualidade do seu café diário. Alguns mais revoltados até partiam para a ação, se dispondo a comprar café do próprio bolso caso a empresa não corrigisse essa falha catastrófica.

E por falar em catastrófico, aquela velha lenda de que a cafeína dá um boost na produtividade só é verdade enquanto bebemos cada vez mais café. Isso porque, como todo sistema biológico, ele tende a se auto-regular com o passar do tempo. Bioquimicamente falando, a presença de cafeína no organismo inibe a ação de neurotransmissores que avisam determinados órgãos que é hora de relaxar um pouco, o que evita, por exemplo, forçar demais o coração, a pressão arterial e até regular a temperatura do corpo! Os detalhes dos efeitos você pode encontrar neste artigo, mas a questão da auto-regulagem de nosso organismo você encontra no Life Hacker. Resumidadmente, o corpo produz cada vez mais neurotransmissores para compensar a presença de cafeína, e por isso, ao pararmos de tomar café, o efeito geralmente é o contrário: ficamos mais cansados e com sono rapidamente.

O café não costuma me fazer muitos efeitos – talvez porque eu tome quase todos os dias – mas para efeitos de teste, resolvi parar de ingerir cafeína – seja em café ou chá – por um mês. Ao passar da primeira semana, sua vida praticamente volta ao normal. Porém, depois desse período de abstenção, ao tomar a primeira caneca de café, posso confirmar: a sensação é dos deuses.

O que me leva ao segundo prazer em tomar café: seu próprio gosto. Porém, para adentrarmos nessa qualidade ignorada pela maioria dos consumidores, você precisará tomar uma atitude radical: cortar o açúcar/adoçante completamente!

Apesar de parecer muito difícil de fazer isso, segue a dica: faça aos poucos. Diminua aos poucos a quantidade de açúcar no seu café diário, na medida que não o incomode (muito). O que vai acontecer é que quando você chegar ao nível zero vai conseguir notar algo impressionante: o café é doce! Sim, ele possui, junto de seu amargor, uma sensação de doce, ainda que não tão explosiva quanto o açúcar industrial (que a ciência considera um veneno para o organismo, pelos seus efeitos). A partir desse momento você terá várias vantagens. Entre elas conseguirá sentir melhor o gosto do café que está tomando (e poder avaliá-lo de acordo) e evitar algumas calorias industriais. E, só para lembrar, o café em si (sem adoçantes) praticamente não tem calorias.

E por falar em sentir o gosto do café, é importante lembrar que ele não se resume apenas em coado no filtro de papel ou espresso. Há diferentes formar de fazer, com diferentes resultados no paladar. Você pode coar o café em filtros de pano (meu preferido), usar uma prensa francesa, uma prensa italiana, e até a sensação no canal do Reddit sobre café: o Aeropress. Não há uma forma certa ou melhor de se fazer café, mas é importante que você experimente todas as variedades ao seu alcance para saber qual delas lhe apetece mais. Você pode estar perdendo um pouco de prazer a cada caneca diária e não sabe disso.

Então, um brinde a todos os programadores! Lembrando que nem todos os programadores bebem café. Apenas os BONS programadores bebem café ;)