Comunicação em Prosa Moderna

2020-03-15 · 2916 · 14

“Comunicação em Prosa Moderna”, escrito por Othon M. Garcia em 1967, foi um dos livros de referência de quando iniciei a faculdade de Letras na FFLCH da USP. Adquiri uma cópia velha em um sebo com uma diagramação absurda, sem margens e com cheiro de mofado. Li de cabo a rabo. Atualmente eu encontrei a versão digital graças à comunidade do LeLivros, totalmente reformada para o formato digital após várias edições. A versão Kindle dá até gosto de ver, com suas inúmeras e famosas referências bibliográfica com que foi escrito, que ocupam pelo menos a quinta parte do livro, junto dos inúmeros exercícios no final.

O livro é dividido em dez partes, mas podemos dividir essas partes em dois montantes. No primeiro montante temos o conteúdo sobre a escrita de fato: a frase, o vocabulário, o parágrafo, a argumentação, a ordenação. O montante final se concentra nos formalismos e disciplina para trabalhos mais densos: pesquisa, planejamento, redação técnica, preparação e exercícios. Vou falar brevemente sobre as quatro primeiras partes, que considero as mais importantes, e as que sempre me foco na hora de elogiar este livro atemporal.

Primeira Parte: A Frase

Frase é todo enunciado suficiente por si mesmo para estabelecer comunicação.

A parte dedicada à frase nos dá o sabor da língua portuguesa, através de algumas categorizações e exemplos que permeiam o caminho entre a gramática formal (e sisuda) e as descobertas linguísticas sobre a comunicação de fato. Desde o uso da língua escrita ou falada em diferentes âmbitos até a análise de textos, nesta parte há um pouco de sintaxe e de reflexão, mas a sintaxe vira ferramenta para a busca semântica, que é o tema constante do livro, e a reflexão incita o leitor a manter em sua cabeça o questionamento: qual a melhor forma de se expressar uma ideia?

Cada qual é livre para dizer o que quer, mas sob a condição de ser compreendido por aquele a quem se dirija.

Muito se frisa a respeito do ensino formal nas escolas, e como o principal problema dos alunos não é fazer a análise de uma frase ou parágrafo, mas a falta do pensar claro sobre o que se quer expressar na hora de colocar esses pensamentos em palavras escritas. E na hora de ler, este mesmos alunos terão dificuldade de entender a mensagem nos textos, mesmo que consigam eventualmente analisá-los sintaticamente, sabendo qual o sujeito, o predicado, etc.

Essa questão é a das mais atuais no livro, pois mesmo décadas depois não apenas os alunos são incapazes de entender a dinâmica da língua como já formadas, mas pessoas sofrem para conseguir expressar suas opiniões na internet. Falhas de comunicação se reproduzem como pragas, gerando discussões infrutíferas e descabidas. A democratização do acesso à informação gerou através das massas a impressão de que hoje em dia há mais desinformação do que conteúdo, o que reflete como a má qualidade do pensamento da sociedade como um todo.

Para combater esse mal Othon M. Garcia usa lógica argumentativa básica, fundamental, e bate nessa mesma tecla em todas as quatro primeiras partes do livro. É através do pensar que ele esmiuça os exemplos. A análise sintática também é feita, mas fica em segundo plano e esvanece conforme vamos aprendendo o raciocínio através do estilo.

A análise lógica pode ser de muito préstimo, se a praticarmos como aprendizado da estilística (Barreto, 1954:61)

O autor vai aos poucos destrinchando as diferentes formas de estruturar uma ou mais frases, merecendo destaque os exemplos e as explicações sobre os processos de subordinação e paralelismo. É com esses dois elementos que praticamente toda essa parte do livro ganha vida. Graças, claro, à dedicação do autor em encontrar exemplos dignos de cada uso, em meio a centenas de obras literárias de todas as épocas.

Na subordinação (também chamada hipotaxe), não há paralelismo, mas desigualdade de funções e de valores sintáticos. É um processo de hierarquização (…) O princípio do paralelismo tem, como se vê, implicações não apenas gramaticais mas também estilísticas e — como se mostrará mais adiante — igualmente semânticas.

Exemplos, para quê os quero

Eu preciso frisar essa busca do autor pelos exemplos, pois eles são a melhor forma do leitor aprender de maneira definitiva o que se quer dizer com processos estilísticos com nomes obscuros. Sobre paralelismo, por exemplo, há diferentes maneiras de se expressar, e o autor vai buscar inspiração, mesmo em prosa, até mesmo na métrica das sílabas usadas. Essa fascinação pelo estilo é contagiosa, e logo nos acostumamos a apreciar o uso de contraste do Padre Vieira, de quem o autor extrai muitos ótimos exemplos. Ao mesmo tempo, ele não se esquece dos clássicos mais populares, como ao mostrar a deliciosa ruptura de paralelismo semântico de Machado de Assis. E, por fim, incapaz de dar por encerrada a questão, até seus devaneios em busca das imprecisões da comunicação, como no exemplo de ruptura semântica que “não soa certo”, mesmo sem saber por quê, o autor nos conquista por sua humildade e pela busca das respostas como mais importante do que tê-las para nos satisfazer por completo, demonstrando com isso que a língua é muito mais um processo do que um projeto finalizado.

  • "… quando pensava em ti, via-te delicada como todas as flores, (sete sílabas) voluptuosa como todas as pombas (sete sílabas) luminosa como todas as estrelas (oito sílabas) (Eça de Queirós, Prosas bárbaras apud Cal, 1954:277)"
  • “Se os olhos veem com amor, o corvo é branco; se com ódio, o cisne é negro; se com amor, o demônio é formoso; se com ódio, o anjo é feio; se com amor, o pigmeu é gigante. (Vieira, “Sermão da quinta quarta-feira”, Sermões e lugares seletos apud Viana, 1945:214)"
  • “Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela. (…) Marcela amou-me durante quinze dias e onze contos de réis."
  • "… encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu."

Mas, às vezes, a falta de paralelismo semântico configura-se como incongruência de tal ordem, que a frase se revela agramatical (ou, pelo menos, de gramaticalidade discutível). É o caso, por exemplo, de frases do tipo da seguinte: “Fulano é cordial e alfaiate.” Não é fácil explicar por que ela é inaceitável. Mas é certo que o “sentimento linguístico” — a “competência” do falante ou ouvinte — rejeita essa coordenação entre “cordial” (adj.) e “alfaiate” (subst.).

A gramática gerativa transformacional (GGT) diria (ou dirá): a coordenação está bloqueada porque “cordial” e “alfaiate” (i.e., X e Y) não têm a mesma estrutura interna, não são constituintes do mesmo tipo (X = adj., Y = subst.). Explica? Explica satisfatoriamente? E a elipse (essa panaceia retórico-gramatical, que, com frequência, escamoteia dificuldades mas nem sempre resolve todas) de “é também” — “Fulano é cordial e é também alfaiate” — explicaria? Também não, a nosso ver. Trata-se de questão relativa à lógica e à linguística, cuja discussão este tópico não comporta.

Note que o autor critica duramente os mecanismos de análise gramatical que são estéreis no âmbito da reflexão e raciocínio. Pertencem apenas a um segmento dos estudiosos da língua em se apoderar de um conhecimento inútil e com ele defender o monopólio do esclarecimento erudito, inalcançável para a grande maioria. Há um bom motivo pelo qual ele é inalcançável: ele é inútil.

Outro aspecto admirável dessa primeira parte do livro são os exemplos em que o mesmo conteúdo de uma frase pode ser reestruturado para dar mais ênfase a determinados elementos. O livro possui muitas páginas a respeito desse exercício, e todos eles serão úteis para escritores que estão em busca de maneiras de afiar suas habilidades estilísticas.

Uma dessas normas – a que já nos referimos de passagem – recomenda que se coloque, sempre que possível, nas extremidades do período, os termos ou orações a que se queira dar maior relevo.

Segunda Parte: O Vocabulário

A própria clareza das ideias (se é que as temos sem palavras) está intimamente relacionada com a clareza e a precisão das expressões que as traduzem. (…) Isoladas do seu contexto ou situação, as palavras quase nada significam de maneira precisa, inequívoca.

Misturado com os aspectos finais da frase, como os tipos de discurso, mas ao mesmo tempo dando ênfase necessária à busca incessante das melhores palavras para ser usado no texto, a segunda parte do livro já parte para explicar as melhores formas de se manter uma árvore etimológica rica em nossas mentes na hora de escrever. Nessas horas, e apenas nessas, é que nos sentimos agraciados pela origem latina de nossa língua, pois esta possui através dos radicais e flexões um campo vasto de possibilidades de descobrirmos ou até mesmo criarmos palavras através da lógica de sua construção que remonta aos romanos.

Chama-se circunstância (do lat. circum, em redor; stare, estar, o que está em redor ou em torno) a condição particular que acompanha um fato, o acidente que o atenua ou agrava. Em retórica, entende-se por circunstância a própria ação (o quê? lat. quid?), a pessoa (quem? lat. quis?), o lugar (onde? lat. ubi?), o tempo (quando? lat. quando?), a causa (por quê? lat. cur?), o modo (como? lat. quomodo?) e os meios (com quê? lat. quibus auxiliis?).

Além disso, o autor dá dicas de onde encontrar sinônimos, antônimos e palavras associadas às que se pretende usar em um texto. Não é apenas no dicionário usual que se encontram palavras. Existe um risco arcabouço de ferramentas que estão escondidas do público que hoje em dia, mais do que nunca, estão disponíveis ao clique de um botão. Mais do que a busca denotativa, no entanto, há uma necessidade quase obsessiva dele se debruçar sobre as figuras de linguagem, e através delas conseguirmos escapar da vulgarização do mundo objetivo. Algo louvável nos anos 60, mas primordial hoje em dia, em que a ciência é cada vez mais ferramenta opressora da narrativa, do humano, dos valores.

A existência de similitudes no mundo objetivo, a incapacidade de abstração, a pobreza relativa do vocabulário disponível em contraste com a riqueza e a numerosidade das ideias a transmitir e, ainda, o prazer estético da caracterização pitoresca constituem as motivações da metáfora.

Indo mais além dos elogios pela metáfora e outras figuras por sua expressividade, M. Garcia traz à tona, dentro do mesmo tema, um assunto de vida ou morte, sobre a diferença entre os valores denotativo e conotativo e como essa diferença se reflete em conflitos no mundo real. Nas palavras de Hayakawa, que os chama de sentido extensional e sentido intensional (com s, mesmo), respectivamente, a questão é como os esforços em se defender argumentos oriundos de sentido intensional (conotativos) levam a desentendimentos eternos entre pessoas, grupos, nações, que confundem como uma discussão a respeito do sentido extensional (denotativo). Merece destaque a citação abaixo, que diz tudo o que precisamos saber sobre os conflitos atuais de ideias.

A polarização e o sentido intensional tornam a linguagem ainda mais polissêmica, agravando os conflitos e os desentendimentos. Que se entende exatamente por nacionalista, por entreguista, por reacionário, por democrata, por imperialista, por comunista, ou socialista ou subversivo? Há 30 anos ou menos, nazistas e fascistas, que se opunham, e ainda se opõem, a comunistas, diziam-se, e ainda se dizem, nacionalistas; hoje os nacionalistas são com frequência tachados de comunistas, e aqueles outros, de reacionários. Os partidários da estatização eram antes fascistas, hoje são comunistas, mas eles mesmos se dizem nacionalistas. Quem defende a iniciativa privada é anticomunista para uns, reacionário para outros, embora se considere democrata e progressista. Para muitos, nacionalismo é amor à pátria, para outros, xenofobia… Polarização e polissemia de mãos dadas.

É inegável que Comunicação em Prosa Moderna é um compêndio estilístico não apenas imprescindível nos dias de hoje, como revelador de como a comunicação infelizmente não melhorou deste então, apesar de um mundo cada vez mais conectado. E as razões parecem mais filosóficas do que linguísticas.

É inútil ou, pelo menos, improfícuo tentarmos traduzir impressões ou juízos que a experiência, lato sensu, não nos proporcionou.

Terceira Parte: O Parágrafo

O parágrafo é uma unidade de composição constituída por um ou mais de um período, em que se desenvolve determinada ideia central, ou nuclear, a que se agregam outras, secundárias, intimamente relacionadas pelo sentido e logicamente decorrentes dela.

Elogiada pela maioria dos críticos e resenhistas, a parte dedicada ao parágrafo é a que consegue reunir todas as virtudes de Comunicação em Prosa Moderna de uma só vez: os exemplos literários, a busca pela melhor forma, o estudo estruturado e o pragmatismo de quem precisa urgentemente começar a escrever.

Dividindo a análise do parágrafo entre dissertação, argumentação, narração e descrição, o autor vai unindo os conceitos usando analogias e dividindo os elementos que cada tipo de escrita usa na questão de estruturar um ou mais parágrafos. Ele vai além da mera divisão categórica e faz um retorno para os princípios linguísticos pelos quais a forma que nós, ocidentais, organizamos nosso pensamento.

É provável que tal estrutura, predominante também em muitas línguas modernas, todas indo-europeias, todas marcadas pela herança greco-latina, decorra de um processo de raciocínio dedutivo.

As especulações históricas e filosóficas do autor visam apenas dar uma introdução fundamental ao que logo assume um formato mais pragmático e didático, permitindo que o leitor consiga ao mesmo tempo adquirir conhecimento sobre as bases linguísticas de como as coisas são e já parta para a ação, pronto para criar seus próprios parágrafos. Do lado pragmático da coisa, as dicas de composição são fundamentais. Eu mesmo as utilizei em alguns momentos nos meus textos durante a leitura e entendi que não apenas funciona, mas funciona sem exigir muita energia e tempo de quem as utiliza.

Quarta Parte: Eficácia e falácias da comunicação

Aprender a escrever é, em grande parte, se não principalmente, aprender a pensar, aprender a encontrar ideias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprovisionou. (…) Nem sempre (…) temos consciência de se estar elaborando em nós mesmos um silogismo completo.

A quarta parte foi sendo anunciada nas três partes anteriores. Tem relação íntima com a lógica argumentativa. Aqui o livro parte para o desafio mais difícil: ensinar o leitor que aprender a escrever é aprender a pensar. Porém, M. Garcia está munido de ferramentas teóricas para explicar como funciona o raciocínio humano, e como deveríamos pensar para conseguir extrair nossas opiniões, impressões e experiências.

Distinguem-se primordialmente dois tipos de operações mentais na busca da verdade, vale dizer, dois métodos fundamentais de raciocínio: a indução (que vai do particular para o geral) e a dedução (que parte do geral para o particular).

Esta parte, como o autor próprio anuncia, não é um tratado de lógica nem de argumentação, mas apenas uma pincelada básica sobre algo que todo ser humano desde os gregos deveriam saber. A lógica, mesmo a mais básica, contida neste momento do livro, é o que menos se ensina nas escolas, e é fruto de todos os problemas citados quando se diz que alunos mal sabem escrever uma frase. Mais importante do que ensinar como se deve pensar, contudo, é como não se deve pensar. Os erros de raciocínio são muitos hoje em dia, e é fácil se deparar com a maioria deles em discussões pela internet ou até mesmo na imprensa, infectada pelo vírus da ignorância sistematizada.

Ainda que cometamos um número infinito de erros, só há, na verdade, do ponto de vista lógico, duas maneiras de errar: erramos raciocinando mal com dados corretos ou raciocinando bem com dados falsos.

Analogias, hipóteses, silogismos, definições. Todo esse arcabouço básico para quem está acostumado a discutir é explicado em detalhes, para que o leitor saiba utilizar cada ferramenta no momento certo. Um pouco de filosofia também é usado, quase que como um convite à reflexão.

A legítima argumentação, tal como deve ser entendida, não se confunde com o “bate-boca” estéril ou carregado de animosidade. Ela deve ser, ao contrário, “construtiva na sua finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil.

Conclusão

Comunicação em Prosa Moderna possui em seu núcleo as próprias ferramentas para refutá-lo como livro contemporâneo. Contudo, a maioria dos seus detratores são incapazes de explicar por que este é um livro ruim sobre comunicação em língua portuguesa, sendo a única constante nas críticas é a falta de uma didática em compasso com o ensino escolar. Oras, mas se é justamente a qualidade desse ensino que é atacado no livro, e sabe-se que a maioria das críticas provém do corpo docente do mesmo ensino, a ironia torna-se completa.

Deixo-os com o guia de Whitaker Penteado, citado por M. Garcia, de como refutar ideias ou argumentos.

  1. Procure refutar o argumento que lhe pareça mais forte. Comece por ele.
  2. Procure atacar os pontos fracos da argumentação contrária.
  3. Utilize a técnica de “redução às últimas consequências”, levando os argumentos contrários ao máximo de sua extensão.
  4. Veja se o opositor apresentou uma evidência adequada ao argumento empregado.
  5. Escolha uma autoridade que tenha dito exatamente o contrário do que afirma o seu opositor.
  6. Aceite os fatos, mas demonstre que foram mal-empregados.
  7. Ataque a fonte na qual se basearam os argumentos do seu opositor.
  8. Cite outros exemplos semelhantes, que provem exatamente o contrário dos argumentos que lhe são apresentados pelo opositor.
  9. Demonstre que a citação feita pelo opositor foi deturpada, com a omissão de palavras ou de toda a sentença que diria o contrário do que quis dizer o opositor.
  10. Analise cuidadosamente os argumentos contrários, dissecando-os para revelar as falsidades que contêm.

Boa sorte.

Escrito por Othon M. Garcia nos anos 60, este guia de estilo na arte de escrever se tornou atual até hoje. reading · 2020-03-15
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