Por que esses Coringa e Pantera se tornaram fenômenos de bilheteria?

2019-11-16, 867 words, 5 minutes

Muitos dizem que Coringa e Pantera Afro-Descendente se tornaram fenômenos de bilheteria por causa da identificação do público com esses dois personagens ou universos, mas se esquecem que muitos outros filmes campeões de bilheteria surgiram nas últimas décadas e que há uma correlação muito mais forte do que a mera identificação com protagonistas: são os filmes com o maior número de fundo verde da história do cinema.

O público de hoje em dia quer estar cada vez mais longe da realidade que o cerca. Vemos isso já nos smartphones. A massa de alienados percorrendo megalópoles grudados no celular e evitando pensar muito a respeito do verdadeiro caos, solidão, impessoalidade que a cidade grande gera. O mundo reluzente e piscante que nos mostra uma vida perfeita e inalcançável é mil vezes melhor do que pensar em procurar um emprego melhor, ou melhor, procurar um emprego.

No cinema não é diferente. Anualmente são lançados inúmeros dramas, norte-americanos ou não, intimistas, potentes, que nos fazem repensar nossa própria existência ou as nossas relações muito reais que nos cercam. E eles não são campeões de bilheteria. O motivo mais óbvio é que ingressos de cinema custam dinheiro demais para todos assistirem todos os filmes que estreiam, então há de haver um critério. E entre assistir uma reflexão sobre a própria vida real que compartilhamos todos os dias do ano (exceto férias), a imensa massa que só irá poder ver um ou dois filmes por ano na telona irá escolher o escapismo mais glorioso que ela já ouviu falar.

Isso explica porque as maiores bilheterias deste século são filmes de super-heróis, de viagens no espaço ou qualquer variante que envolva cada vez menos filmagens fora de estúdio. Avatar, Star Wars, Vingadores, Harry Potter e até Velozes e Furiosos 7, que deixou de ser sobre carros potentes e passou a ser uma versão medíocre de espionagem e conspiração, constam na lista de maiores bilheterias.

E se ainda resta dúvida sobre o que move o grande público para as salas, repousa atualmente em sétimo lugar O Rei Leão em sua versão live action, apontado por vários críticos como uma adaptação estranha da animação por conter animais “reais demais”. Paradoxalmente, reais demais é o maior atrativo para alguém que deseja escapar da realidade do mundo cruel, pois por mais real que seja, esta é uma animação feita totalmente em estúdios, utilizando zero animais reais, e o espectador sabe disso, e ele quer visitar este mundo.

E aí entra Wakanda, a terra dos contos de fadas que todo afro-descendente quis que em algum momento da história fosse verdade. Isso é motivo de sobra para o inesperado sucesso de bilheteria deste filme da Marvel, e não podemos reduzir a explicação com identificação nem representatividade. O morador do gueto quer sonhar pelo menos uma vez na vida com um mundo onde ele e seus vizinhos detém a substância mais rica e poderosa do universo, e se sentir o povo escolhido.

Mas voltando ao Coringa, é óbvio que Gothan City/Nova York da década de 70 e 80 não é um ambiente irreal. Ela realmente existiu e é em uma versão Scorsese light para o cinema que o filme de Todd Phillips se passa. Porém, essa Nova York não existe mais, e nem Taxi Driver nem O Rei da Comédia são versões fantasiosas da cidade vindas da mente de um psicopata. As versões de Scorsese são reais demais, porque para um católico como Martin o drama (e a culpa) deve ser bem real.

Realidade não é o forte na mente de Todd Phillips, a quem foi dada liberdade criativa o suficiente para que o universo do seu filme e o seu “herói” tivessem os desvios morais tão conhecidos dos fãs do diretor de Se Beber Não Case e Um Parto de Viagem. Esse desvio moral pode não harmonizar muito bem com o resto dos filmes citados neste texto que elencam o top 20 de maiores vendas, mas é um escapismo de qualquer forma. Todo cidadão de bem já se cansou alguma vez de ouvir as reportagens do Datena e quis dar um tiro na cabeça do sujeito responsável por trazer sempre desgraças para seu lar. E eventualmente também já se sentiu na necessidade de questionar o que ocorre com o mundo onde tantos pobres engraçados pagam o pato e humoristas medíocres, de Jô Soares a Danilo Gentili, ganham milhões por fazer piadas de tio em rede nacional. E pensou em dar um tiro na cabeça de ambos, também, claro.

De qualquer forma, ninguém se identifica com o Coringa, pois isso é simplista demais até para a grande massa. O que todos compartilham é essa incompreensão do mundo em que vivemos, um mundo que acelerou demais sua tecnologia, onde as crianças que já nasceram com internet são versão diferentes demais da geração anterior. Esse gap crescente entre gerações causa um desconforto e uma alienação com a vida real que as opressora mentes de primatas com quem somos obrigados a fazer as pazes precisamos de um escap… ismo.

Se você quer chamar isso de identificação ou representatividade, vá em frente. Reciclar nomes para significarem o que bem quisermos também é um traço do novo século. Portanto, se empodere, e tente ser feliz.

Por que esses Coringa e Pantera se tornaram fenômenos de bilheteria?. Resposta compilada para o @xvjau (Telegram) a respeito da identificação do público com esses dois protagonistas. Categoria: blog. Publicado em 2019-11-16. Quer colaborar?