Coringa

2019-10-06

Coringa começa já em seu título a pretensão de determinar um início definitivo do icônico personagem dos quadrinhos revisitado em sua terceira encarnação (Jared Leto não conta) nos cinemas. Em um mundo onde truques narrativos, como narração em off, flashbacks e tempo não-linear substituem qualidade, o filme dirigido por Todd Phillips (Um Parto de Viagem) e escrito por ele e Scott Silver (O Vencedor) ignora tudo isso e segue o formato mais convencional possível para contar a história de um doente mental: começa no começo, termina no fim. Apenas essa decisão já constitui declaração de guerra à tão megalomaníaca quanto convencional Hollywood, disposta a sempre mutilar roteiros, além de abusar de efeitos e explosões para acobertar sua mediocridade.

Agora contrariando o próprio roteiro deste Coringa, vou eu mesmo seguir a cartilha de reviravoltas de Los Angeles e voltar no tempo. Surge um marco na transposição entre quadrinhos e cinema chamado Batman: O Cavaleiro das Trevas. Nele somos apresentados à performance definitiva, na arte e na vida, do que constitui esse personagem de palhaço psicopata realista. Heath Ledger em seu papel de 2008 consegue roubar ao mesmo tempo o filme do meio da trilogia do diretor Christopher Nolan, o protagonismo do ator Christian Bale e, por fim, uma insanidade cuidadosamente planejada nesta adaptação livre e realista do vilão de A Piada Mortal, a graphic novel de Alan Moore. Como se não bastasse, em um ato que torna a vida maior que a própria arte, Ledger morre de overdose seis meses antes da estreia, fincando o pé por definitivo no hall da fama. Oito meses após a estreia é condecorado por um Oscar póstumo, em um dos dois sinais de como se faz para ganhar um Oscar em filme de super-herói: morrendo ou sendo negro.

O monumento tragicamente erguido por Ledger ergueu um muro para a continuidade do personagem (vamos nos esquecer novamente por completo de uma coisa chamada Esquadrão Suicida), e apenas um ator com desenvoltura superior em retratar semi-caricaturas fragilizadas como Joaquin Phoenix poderia assumir este fardo sem ele próprio erguer seu monumento. Joaquin galgou este posto aos poucos em sua carreira, arriscando no início personagens repulsivos que dependiam da empatia do espectador para funcionarem (O Mestre) e finalizando com homens de caráter duvidoso que agiam conforme nossas necessidades de reação mais primitivas (Você Nunca Esteve Realmente Aqui). Não foi uma escolha difícil para os chefões da Warner autorizar Phoenix a entreter os fãs mais adultos da DC Comics. Difícil foi decidir mostrar violência nua e crua que elevou a censura do filme para 16 anos na maioria dos países.

Mas tanto o nível de censura nos filmes de fantasia quanto a persona de Phoenix representar o homem comum viraram traços do nosso tempo. Com a crise de 2008 (ano de estreia de Dark Knight) se arrastando indefinidamente, a população que foi convencida que os ricos são a causa de todos os males e agora culpam o sistema por trás de tudo isso. É a sensação de esgotamento mental que todos estavam esperando ver nos cinemas, e para isso o roteiro de Phillips e Silver mais uma vez deturpa as expectativas, retratando não uma Ghotam City/Nova York pós-Dark Knight, mas a imortalizada pelo diretor de filmes de máfia Martin Scorsese. Uma Gothan para fumantes, para psicopatas e para sequências cartunescas que flutuam livremente entre um trem em movimento ou um delírio de fama na mente de seu protagonista.

Joaquin Phoenix é Arthur Fleck, um homem perturbado por problemas psicológicos que desenvolve um distúrbio que o faz rir mesmo que não esteja achando graça de nada. Trabalhando como palhaço eventual para segurar cartazes nas ruas ou entreter crianças em hospitais, Fleck é o que podemos chamar de fim da linha, exceto por ainda conseguir um teto sob sua cabeça e de sua adoecida mãe Penny (Frances Conroy) e por se manter sob controle de medicamentos cedidos pelo programa social do governo, desde que participe de sessões de entrevista com uma subalterna alienada cujo escritório bagunçado parece o repouso de todas as insanidades dos pacientes que é obrigada a receber.

Em uma história que se move através da doença alucinógena de Fleck e como ela vai retomando o controle de suas ações conforme as circunstâncias entregam cada vez mais poder a quem não deveria ser permitido sequer ter uma vida social, “Coringa” é um filme de história simples que prefere investir nas suas ideias de entrelinhas, cuja função é alimentar a mensagem anárquica essencial para o personagem. Muitas pessoas são grosseiras, desonestas e se aproveitam deste homem doente até o momento em que ele descobre que não se sente mal por violar princípios morais e descarrega a sua arma demonstrando o novo princípio que irá reger sua nova persona. A escalada da loucura é milimetricamente conduzida de forma que o espectador não sinta em nenhum momento que houve um salto no comportamento do personagem. Fleck sempre foi assim, estava apenas anestesiado temporariamente.

Com a narrativa convencional sob controle, o diretor Todd Phillips passa a investir no design de produção de sua equipe. Dessa forma, o teto do andar onde Fleck mora surge levemente torto em relação ao chão, horizontal (o mundo continua com os pés no chão, mas a cabeça humana transforma tudo). A trilha sonora de Hildur Guðnadóttir (A Chegada) mantém tons fortes, altos e dissonantes, com uso de instrumentos que não combinam, criando uma orquestra inexistente para a mente de um lunático em funcionamento numa cidade que perdeu sua humanidade. A fotografia de Lawrence Sher não quer harmonizar as cores de um palhaço em uma cidade fria que vive nas sombras do que um dia foi, mas ao mesmo tempo suas roupas e maquiagem, apesar de coloridas, vão sempre nos lembrar da origem humilde e suja de sua personalidade.

Este é um filme político, ideológico e sob forte pressão comercial. Ele depende de suas referências para ganhar importância, e por isso ele assume a responsabilidade de resgatar um pouco da história do cinema americano das últimas décadas e de fazer uma leve homenagem a Chaplin (Tempos Modernos), que já espalhava essa mensagem há 100 anos. Além das obrigatórias passagens por The Dark Knight (Coringa olhando pela janela de um veículo) as referências vão mais longe, com um flerte sutil sobre o estudo de personagem em Taxi Driver e sobre a loucura da mídia de Rede de Intrigas. Às margens de interpretação também nos lembramos da co-dependência doentia entre marketing e drogas (Requiém Para um Sonho) e a face menos desejada do humor (O Rei da Comédia). Sim, o filme mira alto, como para trabalhos de Martin Scorsese com participações de Robert de Niro. E seu clímax, transmitido ao vivo pela TV, ainda realiza uma ação que reforça o status quo desses filmes, brincando com seus símbolos.

Quem conhece a história de Batman e Coringa nos quadrinhos e as adaptações do cinema não deveria ficar surpreso com a óbvia tentativa de ventilar novas ideias dentro desse universo, sendo a maior delas transformar o personagem Thomas Wayne, pai do futuro Batman e que tradicionalmente após sua morte era visto como um mártir da cidade. Bilionário e com conexões políticas, Wayne utiliza a mídia para propagar a imagem de salvador e conseguir apoio dos cidadãos alienados. O pai do Cavaleiro das Trevas nunca foi visto dessa forma em nenhuma história antes, mas seria uma surpresa se não houvesse neste filme carregado ideologicamente a representação do alvo mais visado da esquerda política, e que em um cenário político pós-Trump é o vilão da vez para as artes: um homem duro, cruel, que muito provavelmente (mas nada provado) usa de artifícios repulsivos para ganhar notoriedade e mais poder.

Essa nova visão do universo de Ghotam City, enquanto reinterpreta Batman, pode ser interpretado por nós, também, como um mero artifício narrativo de adentrar na mente doentia de Arthur Fleck e enxergar a realidade através de sua máscara de palhaço. Apenas dessa forma conseguiríamos entender por que há tantos movimentos de revolta usando como símbolo um lunático, já que do outro lado do ringue há também de certa forma um maluco, cuja única diferença é ter mais dinheiro e vociferar palavras de ordem, desde que ele e sua trupe tenha o controle das armas.

No epicentro desse furacão social construído sob os fortes alicerces das obras já referenciadas e do momento político e social do século surge a interpretação mais do que adequada de Phoenix, que reconstrói a lenda sob os holofotes atuais sem diminuir seu predecessor e sem destruir o monumento de quem, podemos dizer, se sacrificou pela arte e pela imaginação humanas. Arthur Fleck possui o senso de humor completamente deturpado na mesma medida em que ele ri nos momentos mais impróprios de sua vida. Ele consegue entender a graça de humoristas bem-sucedidos como Murray Franklin (de Niro) mas é incapaz dele próprio fazer parte deste show de horrores. Ele é o homem comum que ri das desgraças do cotidiano e sequer sabe do quê está rindo. Ele não acredita em nada. E ri sem nenhum motivo.

As expressões de Joaquin Phoenix mantém o mistério do personagem ao mesmo tempo que constroem uma nova lenda. Não podemos dizer que foi uma entrega completa do ator, pois entregas completas trairiam a leve ambiguidade do vilão, que pode ser reinterpretado a cada geração. O diretor Todd Phillips auxilia Phoenix nessa função, evitando mostrar o significado do seu olhar, usando e abusando de perfis em ângulo discreto. Phoenix, por sua vez, se mantém cabisbaixo, mas não com uma postura derrotista, mas como uma forma diferente de enxergar a vida: levemente na diagonal. Torta, violenta e sem sentido. Ele dança não como resposta emocional, mas como o rolar dos dados. Às vezes ele dá risada, às vezes ele esmaga uma cabeça na parede. É a personificação do caos, quando apenas o caos geraria tédio. O maior trabalho de Phoenix é trazer personalidade ao filme, enquanto cabe aos tempos atuais colaborar com o caos de onde ele surgiu.

Coringa. "Joker" (EUA, Canadá, 2019), escrito por Todd Phillips e Scott Silver, dirigido por Todd Phillips, com Joaquin Phoenix, Robert De Niro e Zazie Beetz. Visto no IMAX, bem de pertinho. Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-10-06. Quer colaborar?