Deep Work

2020-03-15 · 1407 · 7

“Let your mind become a lens, thanks to the converging rays of attention; let your soul be all intent on whatever it is that is established in your mind as a dominant, wholly absorbing idea.” - Antonin-Dalmace Sertillanges

Cal Newport é um professor universitário que, junto de outras pessoas, aprendeu que em épocas de distrações o trabalho profundo é o que merece toda nossa atenção. Em “Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World” ele defende a tese de que a capacidade de realizar trabalho valioso se torna cada vez mais valioso em uma época em que somos levados a estar sempre interrompidos e vivendo de afazeres menores. O livro nos dá primeiro o argumento econômico; depois como podemos nós mesmos surfar a onda do trabalho totalmente focado e que renda frutos e realização.

Primeiro, as definições

Deep Work: Professional activities performed in a state of distraction-free concentration that push your cognitive capabilities to their limit. These efforts create new value, improve your skill, and are hard to replicate.

Shallow Work: Noncognitively demanding, logistical-style tasks, often performed while distracted. These efforts tend to not create much new value in the world and are easy to replicate.

  • The Deep Work Hypothesis: The ability to perform deep work is becoming increasingly rare at exactly the same time it is becoming increasingly valuable in our economy. As a consequence, the few who cultivate this skill, and then make it the core of their working life, will thrive.

Newport nos dá motivos econômicos no começo do seu livro de por quê seria interessante para o leitor se dedicar a deep work, já que ele será cada vez mais bem remunerado em um mundo de distrações. Porém, ele também nos dá um alerta para a época em que vivemos, sugerindo através de algumas evidências científicas de que viver sob distrações todos os dias pode danificar de maneira permanente de nos concentrarmos por longos períodos.

Agora um pouco de ciência

Ele cita uma substância rica em gordura que envolve fibras nervosas entre os neurônios chamada mielina. O motivo de sua existência em alguns neurônios é facilitar e agilizar a condução de impulsos nervosos. Fibras nervosas sem mielina possuem uma condução de impulsos mais lenta. O racional por trás dessa informação científica sobre neurologia e seu papel na melhora contínua é que habilidades, sejam intelectuais ou físicas, irão eventualmente ser explicadas ou reduzidas em funções do circuito neural.

Na prática o que isso quer dizer é que ao forçarmos circuitos relevantes do nosso cérebro a ser usados continuamente, eles desenvolverão uma capacidade maior de condução. O uso repetido aciona circuitos de células chamadas oligodendrocytes, que começa a formar camadas de mielina (myelin no inglês) em volta dos neurônios, o que na prática “coloca cimento” na habilidade sendo treinada. O motivo científico, portanto, pelo qual é importante se focar intensamente em uma dada tarefa, evitando distrações, é porque essa é a única maneira de isolar de com mielina suficiente os circuitos neurais relevantes. Por contraste, imagine que você está aprendendo algo que exija concentração e deixa o Facebook aberto, por exemplo, você está disparando muitos circuitos em paralelo, minimizando a capacidade de fortalecer e agilizar o grupo de neurônios que lhe interessa no momento (no caso, aprender essa habilidade nova).

Fora isso, também existem dados sobre a ineficiência do multitasking. Pesquisadores descobriram que a estratégia de trabalhar em uma tarefa A por um tempo e depois trocar para a tarefa B, sua atenção não troca totalmente para a tarefa A. Existe um resíduo de atenção que fica preso na tarefa A, pensando na tarefa original. E quanto menor a intensidade de concentração da tarefa A, mais atenção residual ela exige. É preciso frisar que mesmo que você termine a tarefa A há efeitos colaterais: sua atenção permanece dividida ainda por um tempo (o que exigiria um tempo de descanso entre tarefas).

Estudo de caso: câncer pode ser agradável

“Who you are, what you think, feel, and do, what you love – is the sum of what you focus on.” - Winifred Gallagher

Ainda no campo das virtudes de controlarmos nossa atenção, temos o exemplo da cientista Winifred Gallagher, cujo livro Rapt descreve como ao passar por um tratamento de câncer em estado avançado ela tem o seguinte insight: essa doença quer monopolizar minha atenção, mas irei focar na minha vida sempre que possível. Foi dessa forma que, apesar de passar por períodos exaustivos e terríveis, Gallagher não pôde evitar observar que seu foco no que era bom em sua vida – “filmes, caminhadas e um martini às 18:30” – funcionou surpreendentemente bem. Sua vida naquele momento, que poderia ser pautada em medo e piedade, foi de certa forma agradável em vários momentos.

As informações subjetivas obtidas pela cientista nesse período de sua vida culminaram em uma conclusão que a humanidade já sabia desde o princípio, mas que precisa ser enfatizada hoje mais do que tudo: os melhores momentos usualmente ocorrem quando o corpo ou a mente de uma pessoa está sendo colocado no limite, em um esforço voluntário para atingir algo muito difícil e que vale a pena. Podemos colocar como a recompensa evolutiva pela sobrevivência.

Portanto, construir sua vida de trabalho em volta do fluxo produzido pelo deep work é um caminho comprovado de satisfação profunda e duradoura.

Artesanato em programação de computadores

“I was less stressed about not knowing new things; I felt that I still existed despite not having shared documentary evidence of said existence on the Internet.”

No livro The Pragmatic Programmer, de David Thomas e Andrew Hunt, os autores fazem uma correlação entre o artesão dos tempos medievais e a arte, ou a parte que compete à criatividade, criada por desenvolvedores de software. Há uma frase marcante de um grupo de trabalhadores daquela época: “nós que cortamos pedras devemos sempre visualizar catedrais”. Daqui a cem anos nossos engenheiros serão vistos como tão arcaicos quanto as técnicas antigas usadas para se construir catedrais. Porém, nossos artesões serão sempre honrados.

Apesar de trabalhos artesanais não terem nunca sido valorizados, como a profissão de ferreiro ou fazedor de rodas, não é o trabalho em si que é relevante, mas o significado que surge dos esforços da habilidade e da apreciação do resultado de um artesão. Ou seja, não é a roda de madeira que é nobre, mas o formato que ela pode ter. O mesmo se diz hoje em dia de trabalhos intelectuais: não é a raridade do seu trabalho, mas uma abordagem que seja única.

Depois de uns meses usando essa estratégia ou modo de pensar, seu entendimento sobre o que significa focar irá se transformar conforme os níveis de intensidade alcançarem limites nunca vividos antes.

Agora a prática

Newport desenvolve várias técnicas ao longo da segunda metade do livro que organizam sua vida em torno do deep work que ele realiza. O mais importante aqui é que existem resposta para praticamente todo tipo de atividade. Portanto, não há desculpas para quem lê o livro de que seu caso é especial.

Desde agendar todos os minutos do seu dia (e reagendar conforme ele avança) até abandonar as redes sociais e apenas voltar a usá-las depois que decidir que ela melhora sua vida, Deep Work é pragmático e previsível, e talvez seja esse um dos seus pontos mais decepcionantes: não há nenhuma novidade. Todos nós sabemos o que deve ser feito, sendo que a única coisa que resta ao leitor é colocar a mão na massa.

Até medidas objetivas do que é shallow e o que é deep o livro fornece. Ele faz uma pergunta muito sagaz para responder a essa questão: quanto tempo demoraria para treinar um colega graduado sem nenhuma especialização na minha área para completar esta tarefa? Se não for muito, é shallow. E é possível ter esse valor quantificado em meses. Genial, não?

Próximo do final há dicas valiosas sobre como responder emails que a maioria das pessoas provavelmente nunca se deu ao trabalho, tão alheias que estão hoje em dia com essa ferramenta que acaba sendo nociva no quesito consumo de tempo. O sistema de centralizar em processos de Newport é uma obra de arte. Alguns como eu já chegaram em algo próximo do que ele descreve no livro, mas o resultado descrito por ele serve para qualquer pessoa, famosa ou não.

“Develop the habit of letting small bad things happen. If you don’t, you’ll never find time for the life-changing big things.” - Tim Ferriss

Livro escrito por Cal Newport. reading · 2020-03-15
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