El Camino: A Breaking Bad Film

2019-10-26, 604 words, 3 minutes

Aaron Paul é um ótimo ator, mas isso podemos dizer de qualquer um do elenco de personagens de Breaking Bad, a série mais relevante da última década da TV americana. Através da escolha de elenco e da direção coletiva de uma equipe coesa e competente em manter o design de produção da série em evidência, ainda que deixando escapar seus estilos pessoais, nós nos acostumamos a esperar nada menos do que o estado da arte em narrativas que falam de assuntos mais profundos que sua superfície pop.

Dessa forma, ainda que Paul não fosse capaz de segurar o protagonismo de seu personagem em seu episódio especial de duas horas (aka filme), a atmosfera idealizada e implementada por Vince Gilligan e sua equipe daria conta sozinho disso. E essa foi a estratégia de Gilligan em dirigir mais este episódio após o último, também dirigido por ele. Ciente de que os fãs esperam por um retorno ao que tornou Paul o Jesse Pinkman que aprendemos a amar, desde seu ar malando e sarcástico até sua ingenuidade de “ele ainda é um garoto”, Gilligan é o especialista definitivo da série e também entende que são as interações com determinadas pessoas que moldaram quem Pinkman se tornou no último episódio, e com isso o autor da série consegue dizer para onde esse agora homem irá a seguir.

E como apenas contar o final estendido desse personagem seria tarefa para um curta de quinze minutos, o que Gilligan faz é unir os conceitos que moldaram Pinkman em uma revisita aos momentos de interação do ainda garoto com quem o ajudou a se tornar um homem e uma trama a la Breaking Bad, com obstáculos para que o herói da vez conseguisse se livrar dos ecos de Helsenberg, em uma trama pra lá de convencional, mas que conquista pela maneira inteligente de conduzi-la, indo ao passado resgatar os detalhes não vistos que serão importantes para a história do presente.

Há saltos temporais admiráveis em El Camino por explicar visualmente o contexto das ações presentes de Jesse sem precisar de diálogos expositivos. Sabendo que nunca poderá viver sem a referência da série, mas ciente da inteligência do seu espectador, o filme abraça sua dependência sem apelar para o fácil caminho de reverência, mas mais do que abraçar, ele expande o universo da série na medida em que precisa, sem mudar mais nada para trás.

É instrumental, por exemplo, o momento que Jesse precisa entrar em um apartamento obstruído para investigação. Não sabemos o que esse lugar significa, mas assim que ele entra há um corte no passado para o exato momento que ele o conhece, junto do mesmo elemento de perigo (o vizinho enxerido), e a visita de dois policiais nos faz lembrar em como são importantes as pequenas pistas colocadas no início de uma cena para identificarmos em seu final que não fomos enganados, apenas levados pelo momento (pista e recompensa).

O filme entrega alguns easter eggs divertidos para os fãs da série (meu favorito é a Bola de Cristal com Todd e sua “amada”), mas seu maior presente são as interações com os personagens do passado. Em particular com uma cena inusitada, quase descartável, mas ainda cabível, com Walter White. Nesse flashback eles estão no início de sua aventura de cinco temporadas, mas a cena foi filmada para o filme. A maior surpresa e satisfação nem é vê-los juntos mais uma vez, mas constatar através das diferenças de seus personagens no início da história em como Bryan Cranston e Aaron Paul são de fato ótimos atores, que se transformaram pelo bem da série, e essencialmente, pelo bem da arte.

El Camino: A Breaking Bad Film. "El Camino: A Breaking Bad Movie" (EUA, 2019), escrito por Vince Gilligan, dirigido por Vince Gilligan, com Aaron Paul, Jonathan Banks, Matt Jones, Charles Baker, Todd Terry, Julie Pearl, Gregory Steven Soliz, Larry Hankin, Jesse Plemons e Tom Bower. Assisti na Netflix, mas um dia espero assistir toda a série nos cinemas. Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-10-26. Quer colaborar?