Estranho

2008/03/06

Bom, é hora de dizer tchau. Essa é minha última semana escovando bits na empresa onde estava por três anos. É estranho, e esquisito, dizer isso, mas me sinto um tanto aliviado. Nessa empreitada, porém, aprendi algumas coisas que valem a pena colocar na bagagem. Sempre é melhor entender do que criticar.

Por exemplo, vejamos a palavra estranho: quantas vezes você já pronunciou essa palavra quando estava diante de um problema daqueles esotéricos? Muitas vezes, não foi? E os problemas não-esotéricos?

Quando nos acostumamos a usar uma palavra para aliviar a dor de não entendermos o que está acontecendo diante de nós, visto pelos nossos próprios olhos, estamos nos condicionando a parar de cutucar nosso cérebro para encontrar uma resposta rápida e racional para o que está acontecendo. Em suma: nos fechamos ao mundo falando “estranho”.

Não por esse motivo, mas por estarmos cansados de tanto ouvir falar essa palavra, eu e meu amigo Thiago começamos a instituir uma “taxa simbólica” de 1 (um) real para os que proferirem a dita cuja, e passamos a usar o dinheiro arrecadado para o bem da comunidade, comprando o que nós, programadores, mais veneramos nos momentos de debugging: bolachas!

Essa “medida provisória” aos poucos foi se alastrando pelas mesas do departamento, ao ponto máximo de todos da área técnica, além do diretor comercial, colaborar para a nossa “caixinha de um real”.

Criamos um ambiente livre de estranhos. E criamos um trauma em nossas cabeças. A partir das primeiras semanas, toda vez que estávamos em algum lugar em que uma pessoa desconhecida (um estranho) dizia a palavra, soava um sino em nossas cabeças, quase fazendo com que nossa mão acusadoramente se erguesse e fizesse o gesto com o dedo indicando que a pessoa, a partir daquele momento, estava devendo um real para nossa caixinha comunitária.

E assim fomos indo, meses a fio, sem falar essa palavra na presença dos fiscais do um real, que éramos todos nós. A proibição foi linear e englobou todas as situações de vida social em que poderíamos nos expressar: no trabalho, no almoço, por mensagem instantânea, por e-mail, pelo celular, fora do trabalho, nos artigos do blogue…

Pois é, caro leitor, nos artigos do blogue. Se você procurar, até aqui, qualquer menção à palavra “estranho” em meu blogue, com certeza não irá encontrar.

Até agora, quando finalmente foi quebrado o encanto. Quer dizer, oficialmente a cobrança está extinta, mas nossas mentes sempre irão conter esse sino acusador tocando no ônibus, nas ruas, no cinema, no shopping, em casa. Enfim, nos códigos estranhos de nossa vida.

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