Jojo Rabbit

2020-02-27 · 1211 · 6

Hitler está de volta. E está com tudo. Ele dança, voa pela janela e recruta um garoto de 10 anos em pleno final da segunda guerra mundial. Seu nome é Jojo Rabbit, e ele é um covarde. Filho de pai e mãe liberais no sentido progressista, é um mistério como ele chegou a idolatrar a suástica em uma família como essa. E por falar em mistérios, Taika Waititi, o diretor e roteirista do filme, foi criado com leite com pera e acha que nazismo é sinônimo de malvadões patéticos.

Mas estamos no século 21, em plena ascenção do fascismo e de golpes de Estado pelo mundo (como aprendemos na escola). Trump e Bolsonaro dividem o posto de anti-cristo para ateus aqui na América do Sul, enquanto nos EUA e na Europa é Trump e Brexit (seus ingleses malvadões traíras, quem pensam que são rompendo o movimento e querendo ser livres?). A geração nascida nos anos 90 e 2000 possuem a noção martelada por gerações de que qualquer coisa que seus pais e educadores não gostem é de extrema direita (e de extremo mal gosto, diga-se de passagem). Ironicamente utilizando o mesmo exemplo das proféticas palavras de George Orwell sobre o declínio da língua inglesa através da política, vivemos uma época em que a palavra “fascismo” vira sinônimo de tudo o que o outro lado não gosta. Ou seja, brócolis e jiló possuem tendências claramente fascistas.

Jojo Rabbit é fruto da imaginação dessa galera, que passou empinando pipa no carpete da sala. Não que a autora do livro adaptado por Waititi, Christine Leunens, fosse uma deles. As ideias do livro por trás do filme podem ser vistos na abertura e fechamento do longa-metragem, momentos que deixarão o espectador extasiado e compenetrado pelas poderosas mensagens sobre a vida e ideologia, sobre como combater as adversidades que passamos, ainda crianças, como lidar com a perda e todo o roteiro humanista admirável. É o recheio o problema fundamental de um filme que não sabe o que fazer para chamar a atenção do público.

Ele quer falar mal do nazismo, isso ficou bem claro no começo. O Hitler caracterizado pelo próprio diretor é risível, embora não cause risadas literais, já que é uma tentativa patética de descaracterização, que não admite nos causar a mínima empatia. Waititi até hoje deve molhar a cama tendo pesadelos com nazistas/fascistas vindo roubar o seu leite. É como se de fato um garoto de 10 anos que quisesse falar mal do adulto de bigodinho ridículo usasse tudo que ele tem em mãos para ridicularizá-lo. Ou seja, historicamente nada. Para um adulto assistir a Jojo Rabbit é um exercício de futilidade muito próximo de ouvir meninos do ensino fundamental xingando um a mãe do outro.

A coisa é pior do que isso, aliás, já que o Hitler amigo imaginário de Jojo quase não aparece. As figuras proeminentes, elencadas como verdadeiros heróis do filme, como não poderia deixar de ser, é uma mãe solteira (pois o pai militante não volta mais) e um capitão com tendências homossexuais (apenas Sam Rockwell sabe que este é um filme em que os personagens precisam chamar atenção para si mesmos). Nada contra mães solteiras e homossexuais serem heróis de um filme, mas a falta de sutileza é tamanha que chegamos a pensar que Roberto Benigni conseguiu fazer os dois personagens em um só sem precisar ser mulher nem homossexual. E o filme inteiro de A Vida é Bela é uma mensagem humanista, diferente de “Jojo”, onde apenas as mensagens insinuadas o são. E pelo menos no filme de Benigni, que se passa na Itália fascista, as pessoas falam italiano. Aqui o modelo comercial do filme exige um inglês europeu tacanho, o que já diminuiu em 50% o interesse por esse filme por pessoas dotadas de bom gosto.

Mas não basta que a heroína seja uma mulher independente. Ela precisa ser feia. Mas temos um problema: Scarlett Johansson é estonteante de bonita. Então a solução é torná-la feia, com roupas coloridas mas bregas, cabelos nunca penteados, tendências alcoólicas e uma interpretação vazia de Johansson que por comparação torna sua Viúva Negra dos Vingadores quase uma personagem shakesperiana. Nem a voz de Johansson é atraente neste filme. Ela sabe do seu destino e entrega ao espectador em vez de uma figura memorável uma mártir esquecível. Sua cena-Oscar, tão patética quanto todo o filme A Forma da Água (também oscarizado), envolve ela sujando sua face com carvão para imitar seu marido e dançando com seu filho enquanto bebe mais vinho. Johansson mudou muito desde seus momentos inesquecíveis ao lado de Bill Murray. E não foi para melhor.

Melhor se sai novamente Sam Rockwell, que com seu Capitão Klenzendorf acaba sendo a melhor coisa do filme, mesmo que apareça por alguns minutos. Rockwell está à vontade em um filme cheio de contornos politicamente corretos. Ele traz uma persona com traços do pirata Jack Sparrow de Johnny Depp (porque Depp está banido de Hollywood por denúncias de ameaças de violência), o que é interessante, mas mesmo Rockwell se mantém no palco de um teatro. Ninguém do elenco está verdadeiramente no filme. São sombras de algo maior que evita aparecer para não jogar muita luz dos holofotes dos heróis em cima do canto escuro que queremos manter sobre o que é o nazismo.

Este é um filme infantil? Infanto-juvenil? A indicação diz 14 anos. Levei minhas sobrinhas de 12 e elas acharam OK (menos os trailers, um pouco pesados demais). A sala cheia de adultos. Alguns murmurando detalhes históricos do nazismo. Provavelmente eles sabem muito mais que o diretor do filme. Então me pergunto: para quem é esse filme? Adultos com a mente de uma criança de 10 anos? Progressistas, então. É um filme de auto-tapinhas nas costas. “Vencemos o nazismo, quer dizer, nós não, nossos bisavôs, mas vamos manter a propaganda sempre viva para que não se repita; sem dizer uma palavra sobre o que é nazismo; somos muito heroicos, não?” Agora entendi.

Para ter uma ideia de como Taika Waititi desperdiça seu elenco, nem a gloriosa Rebel Wilson, que foi a única coisa boa no fatídico Cats, consegue um momento engraçado sequer em suas pontas. Wilson é uma pérola de inventividade e espontaneidade, mas Waititi está tão compenetrado em seu roteiro e nas questões do politicamente correto que ele não consegue sair dos trilhos uma vez sequer, e nunca a comédia surge deste drama. As pessoas que participam dele não estão à vontade. Este é um projeto que já nasceu morto, mesmo que as diferentes cores quentes usadas pelo fotógrafo Mihai Malaimare Jr. indiquem o contrário.

O próprio Michael Giacchino, responsável pela trilha sonora, é sabotado. Sua música comenta momentos que não existem no filme. Fora isso, a escolha de duas músicas americanas traduzidas para a abertura e o fechamento do filme são boas ideias, e seria de muito bom gosto se nos lembrássemos do meio como um momento de transição. Começamos o filme com “I Wanna Hold Your Hand”, ou “She Loves You”, não me lembro mais, dos Beatles, que fez tanto sucesso em Munique que eles gravaram uma versão alemã. E terminamos da mesma maneira que começamos: sem ter uma pista sequer de por que entramos nessa sessão. Acho que para falar mal do nazismo, talvez. Uau, que revolucionário.

"Jojo Rabbit" (Nova Zelândia, República Tcheca e EUA, 2019), escrito por Taika Waititi e Christine Leunens, dirigido por Taika Waititi, com Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie e Scarlett Johansson. Que sessãozinha, hein? 2/5 · movie · 2020-02-27
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