A Revolta de Atlas e a Moralidade do Egoísmo de Ayn Rand -- Parte I

Craig Biddle

2016/10/17

Em razão da sua aparente natureza profética em relação aos eventos atuais, o romance A Revolta de Atlas de Ayn Rand, publicado em 1957, está recebendo mais atenção e vendendo em maior volume hoje do que quando foi publicado pela primeira vez há cinquenta e cinco anos [O texto original foi escrito em 2012 (n.t.)]. Isso é uma coisa boa porque as ideias estabelecidas em Atlas são cruciais para a felicidade pessoal, a harmonia social e a liberdade política.

Nota do autor: Esta é uma versão estendida de uma palestra que apresentei em diversas universidades ao longo dos últimos anos.

A Revolta de Atlas é antes de tudo uma brilhante história de suspense sobre um homem que disse que iria parar o motor do mundo e o fez. Mas o livro é muito mais que uma grande novela. Integrado à história está uma filosofia revolucionária - uma filosofia voltada não para debates vazios, afastados da realidade, ou para jogos de palavras acadêmicos ou à preparação de um “pós-vida”, mas para entender a realidade, conquistar valores e viver na terra.

A filosofia de Rand, nomeada por ela de Objetivismo, inclui uma visão da natureza da realidade, dos meios de conhecimento do homem, da natureza e meios de sobrevivência do homem, de uma correta moralidade, de um correto sistema social e da natureza e valor da arte. Trata-se de uma filosofia abrangente que, após escrever A Revolta de Atlas, Rand elaborou em diversos livros de não ficção. Mas tudo isso estava contido inicialmente em Atlas, no qual Rand dramatizou sua filosofia - juntamente com as ideias que se opõem a ela.

Enquanto escrevia Atlas, Rand fez uma anotação em seu diário na qual ela dizia, “Meu mais importante trabalho é a formulação de uma moralidade racional de e para o homem, de e para a sua vida, de e para esta terra”.1 Ela continuou a formular exatamente tal moralidade, e a mostrar o que ela significa na prática.

Esta noite, iremos focar na moralidade apresentada em A Revolta de Atlas, mas eu quero fazer isso sem revelar o romance para aqueles de vocês que ainda não o leram. E já que é impossível dizer muito da substância de Atlas sem entregar elementos chave do enredo e do mistério do romance, eu vou limitar minha discussão sobre o livro a uma breve indicação do seu enredo - sem revelar nada de essencial - após isso eu discutirei a moralidade do egoísmo de Ayn Rand diretamente.

A Revolta de Atlas é uma história sobre um mundo futuro no qual todo o planeta, com exceção dos Estados Unidos, caiu sobre o domínio de vários “Estados Populares” ou ditaduras. Os Estados Unidos, o único país que ainda não está totalmente socializado, está deslizando rapidamente nessa direção, já que cada vez mais aceita ideias que levam à ditadura, ideias tais como o autossacrifício é nobre, o autointeresse é maléfico, e produtores e empresários gananciosos têm a obrigação moral de servir ao “bem maior” da sociedade.

Dado esse clima cultural, a economia se torna cada vez mais controlada pelo governo, e o país desliza mais e mais para o caos econômico: Fábricas são paralisadas, trens param de circular, negócios fecham suas portas, pessoas passam fome - justamente o que você esperaria se o governo dos EUA começasse a agir como o governo da URSS.

Mas então algo estranho começa a acontecer. Os maiores produtores dos Estados Unidos - vários cientistas, inventores, empresários e artistas - começam a desaparecer. Um por um, eles simplesmente somem. E ninguém sabe aonde eles foram ou por quê.

Consequentemente, a oferta de bens e serviços - de descobertas científicas ao cobre, ao trigo, aos automóveis, ao petróleo, à medicina, ao entretenimento - é reduzida a quase nada e eventualmente começa a cessar. A vida como os americanos uma vez conheceram deixa de existir. O país está em ruínas.

Para onde foram os produtores e por quê? Eles foram mortos? Foram sequestrados? Eles irão voltar? Como isso será resolvido?

Leiam o livro. Vocês ficarão fissurados.

Como havia dito, eu não pretendo revelar a história, mas eu vou mencionar o seu tema. O tema de A Revolta de Atlas é o papel da mente na existência do homem. O romance dramatiza o fato de que a mente racional é a fonte básica dos valores que a vida humana depende. E isso não é apenas o tema de Atlas; é também a essência da filosofia do Objetivismo de Rand: A razão - a faculdade que opera por meio de observação, conceitos e lógica - é a fonte de todo o conhecimento, valores e prosperidade.

Nesse mesmo sentido, o tema da minha conversa hoje à noite é o papel da mente - especificamente da sua mente - em entender, avaliar e adotar um código moral.

Suponha que lhe são oferecidos dois códigos morais para a sua escolha - e seja qual for a sua escolha, você terá que viver por ela pelo resto da sua vida. O primeiro código moral diz que sua vida é extremamente importante - que ela é corretamente aquilo de mais importante no mundo para você. Esse código diz que você deve viver uma vida maravilhosa, cheia de alegria, e fornece uma grande quantidade de orientação sobre como agir assim: como tornar ótima a sua vida; como escolher seus objetivos, organizar seus valores e priorizar as coisas que são importantes para você; como ter sucesso na escola, nas amizades e no romance; como escolher uma carreira que você amará e como ter sucesso nela. E assim por diante. Em suma, o primeiro código moral lhe fornece orientação para realizar uma vida de felicidade e prosperidade.

O segundo código moral oferece um tipo totalmente diferente de orientação. Ele diz que você não deve viver uma vida maravilhosa, que não deve perseguir e realizar seus objetivos e valores - mas, em vez disso, que sua vida é sem importância, que você deve sacrificar seus valores, que deve desistir deles pelo “bem” dos outros, que você deve abandonar a busca da felicidade pessoal e aceitar o tipo de “vida” que resulta ao agir assim. É isso. Essa é a orientação fornecida pelo segundo código.

Tudo mais sendo igual, qual código moral você escolheria - e por quê?

Eu suspeito que, através de séria reflexão, você escolheria o primeiro código. Eu suspeito mais ainda que o seu raciocínio seria algo semelhante a: “Nós estamos falando sobre minha vida aqui. Se é verdade que adotar o primeiro código tornará minha vida maravilhosa, e adotar o segundo código vai torná-la infeliz, então a escolha é óbvia”.

Eu acho que é um bom raciocínio. Vamos ver se isso se mantém à medida que nós nos aprofundemos nas respectivas naturezas e implicações desses dois códigos.

O primeiro código é a moralidade do egoísmo racional de Ayn Rand, que se encontra no coração de A Revolta de Atlas e é a peça central do Objetivismo. O segundo código é a tradicional ética do altruísmo - que é a causa de todos os problemas em A Revolta de Atlas e é a ética sob a qual todos nós fomos criados. A fim de ser claro sobre o que é o egoísmo de Rand, eu quero compará-lo e pô-lo em contraste com o altruísmo. Isso servirá para destacar o valor das ideias de Rand e ajudará a dissipar potenciais más concepções sobre a sua visão. Também demonstrará o quanto o altruísmo é destrutivo e porque nós desesperadamente precisamos substituí-lo pelo egoísmo racional - tanto pessoalmente quanto culturalmente. (Eu usarei os termos “egoísmo” e “egoísmo racional” intercambiavelmente por razões que se tornarão claras à medida que nós prosseguirmos).

Deixem-me enfatizar que eu não posso apresentar toda a moralidade de Rand em apenas uma noite - isso seria impossível. O que vou fazer é apenas indicar a sua essência, pela discussão de alguns dos seus princípios fundamentais. Meu objetivo é mostrar a vocês que há algo extremamente importante aqui - algo importante para as suas vidas e felicidade - e lhes inspirar a pesquisar mais sobre o assunto por própria conta.

Para começar, observem que cada um de vocês trouxe uma moralidade consigo esta noite. Ela está bem aí em sua cabeça - quer você esteja consciente disso ou não. Cada um de vocês tem um conjunto de ideias sobre o que é bom e ruim, certo e errado - sobre o que você deve e não deve fazer. E vocês se referem a essas ideias, implicitamente ou explicitamente, quando fazem escolhas e desempenham ações em suas vidas diárias. Será que devo estudar para prova, ou colar, ou não me preocupar com isso? Qual carreira eu devo escolher - e como eu devo escolhê-la? O ambientalismo é um movimento bom ou ruim? O que eu devo fazer neste final de semana? Como eu devo passar meu tempo? De quem eu devo ser amigo? Em quem eu posso confiar? O homossexualismo é errado? Um feto possui direitos? Qual é o modo correto de lidar com terroristas?

As respostas que damos a tais questões dependem da nossa moralidade. É isto o que é uma moralidade: um conjunto de ideias e princípios para guiar nossas escolhas, avaliações e ações.

Pois enquanto seres humanos nós temos que fazer escolhas - pois nós temos livre arbítrio - uma moralidade de algum tipo é inevitável para nós. A moralidade é realmente inevitável. A nossa única escolha a respeito é se adquirimos nossa moralidade através de deliberação consciente - ou por omissão, através da osmose social.

Se nós adquirirmos nossa moralidade por omissão, nós provavelmente aceitaremos a moralidade dominante na cultura de hoje: o altruísmo - a ideia de que ser moral consiste em ser abnegado. “Não seja egoísta!” - “Ponha os outros em primeiro lugar!” - “É mais abençoado dar do que receber.” - “Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país” - “Voluntarie-se para servir a sua comunidade” - “Sacrifique-se pelo bem maior”. Assim por diante.

Essa é a moralidade que cercou todos nós enquanto crescíamos - e que ainda nos cerca hoje. É a moralidade ensinada na igreja, na sinagoga e na escola - oferecida em livros, filmes e na TV - e encorajada pela maioria dos pais.

Curiosamente, no entanto, embora nossa cultura esteja imersa nessa moral, o significado real de altruísmo, na mente da maioria das pessoas, é bastante vago. Um médico está sendo altruísta quando cuida de seus pacientes? Ou ele está buscando um ganho com isso? Os pais estão sendo altruístas quando pagam pela educação dos seus filhos? Ou é do seu maior interesse fazer isso? Os soldados americanos estão sendo altruístas quando defendem nossa liberdade? Ou estão defendendo nossa liberdade pelo autointeresse deles? Você está sendo altruísta quando dá uma festa de aniversário para o seu melhor amigo? Ou você faz isso porque ele ou ela é um grande valor para você - e sendo assim, não há algo nisso para você?

Qual é exatamente a diferença entre ação abnegada e ação autointeressada? Qual é a diferença entre altruísmo e egoísmo?

Para entender como cada um se difere do outro, nós precisamos entender a teoria básica de cada código e o que cada um exige na prática. Para esclarecer essa questão, vamos examinar primeiro o altruísmo.

O altruísmo é a moralidade que defende a disposição autossacrificial como o padrão de valor moral e como a única justificação da existência de alguém. Aqui, nas palavras do filósofo altruísta W.G. Maclagen, está o princípio básico: De acordo com o altruísmo, “a importância moral de se estar vivo encontra-se no fato de que isso estabelece a condição para a nossa capacidade de servir a fins que não são redutíveis às nossas satisfações pessoais”. 2 Isso significa que a importância moral da sua vida corresponde aos seus atos de abnegação - atos que não satisfazem suas necessidades pessoais. À medida que você não age abnegadamente, sua vida não tem significação moral. Citando Maclagan novamente, o altruísmo sustenta que nós temos “o dever de aliviar as aflições e promover a felicidade de nossos semelhantes… [Nós] devemos ignorar totalmente o [nosso] próprio prazer ou felicidade enquanto tais ao… decidirmos qual curso de ação perseguir… A [nossa] própria felicidade é, em si, de nenhuma importância moral para [nós] qualquer que seja”. 3

Ayn Rand não estava exagerando quando disse, “O princípio básico do altruísmo é que o homem não tem o direito de existir para o seu próprio benefício, que servir aos outros é a única justificação da sua existência, e que o autossacrifício é o seu maior dever, virtude e valor morais”. 4 Esse é o significado teórico do altruísmo. E os filósofos altruístas sabem disso - e afirmam isso expressamente. (Nós vamos ouvir mais deles um pouco depois,)

Agora, o que significa o altruísmo na prática? Suponha que uma pessoa aceite o altruísmo como verdadeiro e se esforça para praticá-lo consistentemente. O que será da sua vida?

Em livro de filosofia universitário amplamente utilizado nos dá um bom indício. Enquanto eu leio esta passagem, mantenham em mente que não se trata de alguém falando a favor ou contra o altruísmo. Isto é apenas a descrição do escritor da obra do que o altruísmo significa na prática.

“Uma pessoa puramente altruísta não considera o seu próprio bem estar de maneira alguma apenas o dos outros. Se ela tem de escolher entre uma ação que produziria um grande benefício para si mesma (tal como habilitá-la a entrar na faculdade) e uma ação que produziria nenhum benefício para si mesma, mas um pequeno benefício para alguém mais (tal como conseguir que a outra vá a um concerto esta noite), ela deve escolher a segunda. Ela deve ser abnegada, absolutamente não considerar a si mesma: ela deve encarar a morte em vez de sujeitar outra pessoa ao menor desconforto. Ela está comprometida apenas em servir aos outros e a deixar passar qualquer benefício para si mesma.” 5

Isso ilustra o significado prático do altruísmo - e indica porque ninguém o pratica consistentemente.

Observe, entretanto, que seja praticado de forma consistente ou inconsistente, o princípio básico do altruísmo continua o mesmo: A única justificação moral da sua existência é o serviço autossacrificial para os outros. Que algumas pessoas subscrevam ao altruísmo mas falhem em promovê-lo consistentemente não torna o seu código moral de uma espécie diferente daquele de uma pessoa que o pratica consistentemente; a diferença é apenas de grau. O altruísta consistente está agindo com uma forma bizarra de “integridade” - o tipo de integridade que leva ao seu sofrimento e morte. O altruísta inconsistente está agindo com típica hipocrisia - embora uma hipocrisia necessária dado o seu código moral.

E não apenas a moralidade do altruísta é a mesma em espécie; as consequências de aceitá-la são as mesmas em espécie, também. À medida que uma pessoa age de forma abnegada, ela prejudica assim sua vida e felicidade. Ela pode não morrer por causa disso, mas ela certamente não viverá plenamente; ela não conseguirá obter o máximo da sua vida; ela não realizará o tipo de felicidade que lhe seria possível.

Você aceitou o princípio do altruísmo? Se sim, como isso está afetando a sua vida?

Você já fez algo para o bem dos outros - ao custo do que você realmente pensava que era o melhor para sua própria vida? Por exemplo: Você já aceitou um convite para jantar com alguém de cuja companhia você não gostava - porque você não queria ferir os sentimentos dele ou dela? Você já deixou de ir a um evento - tal como esquiar ou um fim de semana na praia com os seus amigos - a fim de passar tempo com membros da família que você realmente prefiriria não ver? Vocâ já manteve um relacionamento que você sabe que não é do seu maior interesse - porque você imaginava que ele ou ela não conseguiria lidar com o término?

Por outro lado, você já se sentiu culpado por não se sacrificar para os outros? Você já se sentiu envergonhado por fazer algo que era do seu próprio interesse? Por exemplo, você já se sentiu culpado por não dar esmola a um mendigo na esquina de uma rua? Ou culpado por perseguir um diploma no campo, ou na arte ou em algo que você ama - ao invés de fazer algo considerado “nobre”, tal como se alistar ao Corpo de Paz?

Essas são apenas algumas das consequências de aceitar a moralidade do altruísmo.

O altruísmo não é bom para a sua vida: Se você praticá-lo consistentemente, ele leva à morte. Isso foi o que Jesus fez. Se você aceitá-lo e praticá-lo inconsistentemente, ele atrasa a sua vida e leva à culpa. Isso é o que a maioria dos altruístas faz.

O egoísmo racional, como o nome sugere, e como veremos, é bom para a sua vida. Ele diz que você deve perseguir os valores que servem à sua vida e que você não deve se sacrificar para o bem dos outros. Praticado de forma consistente, ele leva a uma vida de felicidade. Praticada inconsistentemente - bem, por que ser inconsistente aqui? Por que não viver uma vida de felicidade? Por que se sacrificar? Que razão há para fazer isso? (Iremos abordar a profunda falta de resposta a essa questão mais tarde.)

Neste ponto, podemos começar a entender por que Rand chamava o altruísmo de “A Moralidade da Morte”. Para compreender plenamente por que ele é a moralidade da morte, no entanto, devemos entender que a essência do altruísmo não é “servir aos outros”, mas o autossacrifício. Então eu quero reiterar esse ponto com ênfase.

O altruísmo não conclama meramente a “servir aos outros”; ele conclama a se sacrificar servindo aos outros. Caso contrário, Michael Dell teria que ser considerado mais altruísta do que Madre Teresa. Por quê? Porque Michael Dell serve milhões de pessoas a mais do que Madre Teresa jamais serviu.

Há uma diferença, é claro, na modo que ele serve as pessoas. Ao passo que Madre Teresa “servia” as pessoas através da troca de seu tempo e esforço por nada, Michael Dell serve as pessoas comerciando com elas - através da troca de valor por valor para vantagem mútua - um troca em que ambos os lados ganham.

Intercambiar valor por valor não é a mesma coisa que abrir mão de valores em troca de nada. Há uma clara diferença entre perseguir valores e desistir deles - entre conquistar valores e abandoná-los - entre trocar um valor menor por um maior - e vice-versa.

Em um esforço para fazer seu credo parecer mais palatável, defensores do altruísmo tentarão turvar essa distinção em sua mente. É importante não deixá-los conseguir fazer isso. Não seja enganado!

Altruístas afirmam, por exemplo, que os pais se “sacrificam” quando eles pagam para os seus filhos frequentar a faculdade. Mas isso é ridículo: Presumivelmente, os pais valorizam a educação dos seus filhos mais do que eles valorizam o dinheiro que eles gastam com ela. Sendo assim, sacrifício seria então se eles renunciassem à educação dos seus filhos e gastassem o dinheiro com um valor menor - tal como uma Ferrari.

Altruístas também afirmam que o amor romântico exige “sacrifícios”. Mas isso é ridículo também: “Amor, eu realmente prefiria estar com outra mulher, mas eu estou aqui de forma autossacrificial gastando o meu tempo com você”. Ou: “Eu realmente preferia ter gasto esse dinheiro em um novo conjunto de tacos de golfe, mas em vez disso de forma autossacrificial comprei este colar para o seu aniversário”. Ou “É o nosso aniversário - por isso eu estou preparando o seu prato favorito para um jantar à luz de velas - mesmo se eu preferia estar jogando poker com os amigos.”

Isso é amor? Só se o amor for sacrificial.

Altruístas também afirmam que os soldados americanos se sacrificam ao servir as forças armadas. Realmente não. Nossos soldados voluntários servem a uma série de razões do próprio interesse deles. Aqui vão três: (1) Eles servem à mesma razão pela qual os fundadores da América formaram este país - pois eles valorizam a liberdade - eles percebem que a liberdade é um requerimento da vida humana, que é a razão pela qual Patrick Henry terminou seu famoso discurso com “Dê-me a liberdade ou dê-me a Morte!” Isso não foi uma ode ao sacrifício; foi uma ode à vida, à liberdade e à busca da felicidade. (2) Nossos soldados servem em troca de pagamento e educação - que são claramente do seu próprio interesse. (3) Eles servem porque são fascinados pela ciência militar e querem fazer uma carreira nela - outro motivo egoísta.

Alguns desses soldados morrem em batalha? Infelizmente, sim. O trabalho deles é perigoso. Mas soldados Americanos não desistem voluntariamente de suas vidas: Eles não andam pelo campo de batalha dizendo “Atirem em mim”! Nem amarram bombas aos seus corpos e explodem a si mesmos em campos inimigos. Pelo contrário, eles fazem tudo que podem fazer para vencer o inimigo, ganhar a guerra, e permanecer vivos, mesmo quando os governos Bush e Obama amarram as suas mãos com restrições altruístas sobre como eles devem lutar.

O ponto é que um sacrifício não é “qualquer escolha ou ação que impede alguma outra escolha ou ação”. Um sacrifício não é uma “troca qualquer”. Um sacrifício é, como Rand afirmou, “o abandono de um valor maior em prol de um valor menor ou de um não valor”. 6

Se alguém está cometendo um sacrifício ou não depende do que é mais importante e do que é menos importante para a sua vida. A fim de fazer essa determinação, naturalmente, é preciso saber a importância relativa dos seus valores em relação à própria vida. Mas se alguém realmente estabelecer essa hierarquia, esse alguém poderá agir de forma não sacrificial - e de maneira consistente.

Por exemplo, se você sabe que a sua educação é mais importante para sua vida do que é, digamos, uma noite de diversão com seus amigos, então se você ficar em casa a fim de estudar para uma prova crucial - em vez de sair com seus amigos - isso não é um sacrifício. Sacrifício seria sair para se divertir e ir mal na prova.

A vida requer que nós constantemente abandonemos valores menores em prol de outros maiores. Mas estes são ganhos, não sacrifícios. Um sacrifício consiste em desistir de algo que é mais importante em prol de algo que é menos importante; o que resulta, assim, em uma perda líquida.

O altruísmo, a moralidade do autossacrifício, é a moralidade da perda pessoal - ela não permite o ganho pessoal. Isso não é uma caricatura do altruísmo; é a essência da moralidade. Como o arquialtruísta Peter Singer (o famoso filósofo utilitarista da Universidade de Princeton) explica, “à medida que [as pessoas] são motivadas pelo prospecto de obter uma recompensa ou evitar uma punição, eles não estão agindo de forma altruísta…” 7 O arquialtruísta Thomas Nagel (um professor de filosofia da Universidade de Nova York) concorda: O altruísmo implica em “uma disposição de agir em consideração aos interesses das outras pessoas, sem a necessidade de motivos ulteriores” - “motivos ulteriores” significando, é claro, ganhos pessoais. 8

A fim de entender a diferença entre ação egoista e ação altruísta, nós devemos compreender a diferença entre uma troca e um sacrifício - entre um ganho e uma perda - e nós não devemos permitir que altruístas turvem essa distinção em nossa mente. O egoísmo, como nós veremos, clama por ganhos pessoais. O altruísmo, como vimos, clama por perdas pessoais.

Agora, a despeito da sua natureza destrutiva, o altruísmo é aceito em alguma medida por quase todas as pessoas hoje. Obviamente, ninguém o pratica consistentemente - pelo menos não por muito tempo. Em vez disso, a maioria das pessoas aceita-o como verdadeiro - para traí-lo em seguida.

Leia a Parte II.


Sobre o autor: Craig Biddle é editor de The Objective Standard e autor de Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, uma introdução sistemática e altamente concretizada à ética de Ayn Rand. Sua próxima obra, Thinking in Principles: The Science of Selfishness, é sobre como utilizar a mente da forma mais efetiva a serviço da própria vida, liberdade e felicidade. Além de escrever, ele é palestrante e apresenta seminários sobre questões éticas e epistemológicas a partir de uma perspectiva Objetivista. Biddle apresentou seminários em universidades pelos Estados Unidos , incluindo Stanford, Duke, Tufts, UVA, UCLA, e NYU. O seu website é www.CraigBiddle.com.

Link para o original: https://www.theobjectivestandard.com/issues/2012-summer/atlas-shrugged-ayn-rand-morality-egoism/

Obs: O texto original está protegido por direitos autorais. A sua tradução e publicação nesta página foi expressamente permitida pelo autor.


  1. Ayn Rand, Journals of Ayn Rand, editado por David Harriman (New York: Dutton, 1997), p. 610. ?
  2. W. G. Maclagan, “Self and Others: A Defense of Altruism,” The Philosophical Quarterly, vol. 4, nº 15 (Abril 1954): p. 122. Maclagan foi um filósofo escocês do início do século XX que ensinava na Universidade de Glasgow e era um defensor ardente do altruísmo. ?
  3. Maclagan, “Self and Others,” pp. 109-11. ?
  4. Ayn Rand, Philosophy: Who Needs It (New York: Penguin, 1984), p. 61. ?
  5. John Hospers, Philosophical Analysis (Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall, 1997), p. 259. ?
  6. Ayn Rand, The Virtue of Selfishness (New York: Signet, 1962), p. 50. ?
  7. Peter Singer, A Darwinian Left (New Haven, CT: Yale University Press, 1999), p. 56. ?
  8. Thomas Nagel, The Possibility of Altruism (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1978), p. 79. ?