A Revolta de Atlas e a Moralidade do Egoísmo de Ayn Rand -- Parte II

Craig Biddle

2016/10/17

Todas as grandes religiões – Cristianismo, Judaísmo, Islamismo – defendem o altruísmo; os seus livros sagrados exigem isso. Todas as chamadas filosofias “humanistas seculares” – utilitarismo, pós-modernisno, igualitarismo – pedem pelo altruísmo também. (Notem que “humanistas seculares” não chamam a si mesmos de “egoístas seculares” ou “individualistas seculares”.)

Nota do autor: Esta é uma versão estendida de uma palestra que apresentei em diversas universidades ao longo dos últimos anos.

“Alter” é o Latim para “outro”; altruísmo significa “outro-ísmo”; ele sustenta que você deve se sacrificar para os outros. Dos pontos de vista Cristão, Judaico e Muçulmano, os “outros” significantes são “Deus” e “os pobres”; no Velho Testamento, por exemplo, Deus ordena: “Livremente abrirás tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra” (Deuteronômio 15:11). Do ponto de vista utilitário, o “outro” são “todos em geral”; o princípio utilitário é “o maior bem para o maior número”. Do ponto de vista pós-moderno e igualitário, o “outro” é qualquer um com menos riqueza ou oportunidades do que você; em outras palavras, quanto melhor você estiver, mais você deve se sacrificar para os outros – quanto pior você estiver, mais os outros devem se sacrificar para você.

Sacrifique-se. Sacrifique-se. Sacrifique-se. Todo mundo acredita que essa é a coisa moral a ser feita. E nenhum filósofo esteve disposto a desafiar essa ideia.

Exceto Ayn Rand:

“Existem duas palavras – duas únicas palavras – que podem aniquilar a moralidade do altruísmo da existência e as quais o altruísmo não consegue enfrentar – as palavras “por quê-” Por que o homem deve viver para o proveito dos outros- Por que ele deve ser um animal sacrificial- Por que isso é o bem- Não há razão terrena para isso – e, senhoras e senhores, em toda a história da filosofia nenhuma razão terrena foi dada.” 1

Pelo exame constatamos que isso é verdade. Nenhuma razão jamais foi dada quanto a por que as pessoas devem se sacrificar para as outras. É claro que alegadas razões foram dadas, mas não razões legítimas. Assim, vamos considerar as alegadas razões – da quais há aproximadamente seis – cada uma delas envolve uma falácia lógica.

“Você deve se sacrificar porque Deus (ou alguma outra voz de outra dimensão) disse isso”. Isso não é uma razão – certamente não uma razão terrena. Na melhor das hipóteses, é um apelo à autoridade – isto é, às “autoridades” que alegam falar por Deus. Só porque um pregador ou um livro faz uma afirmação não significa que a afirmação é verdadeira. A Bíblia afirma, entre outras coisas, que um arbusto falou. Mais fundamentalmente, essa falta de razão é um alegação arbitrária pois não há evidência para a existência de um deus. Mas mesmo aqueles que acreditam em algum deus podem reconhecer a falácia do apelo à autoridade. “Você deve se sacrificar porque isso é um consenso geral.” Isso também não é uma razão mas um apelo às massas. Questões de verdade e moralidade não são determinadas por consenso. Que a escravidão deve ser legal costumava ser o consenso geral nos Estados Unidos, e ainda é um consenso em partes da África. Isso não a fazia e nem a faz assim. E nenhum consenso legitimará a noção de que você ou qualquer pessoa deve se sacrificar ou ser sacrificado. “Você deve se sacrificar porque outras pessoas necessitam dos benefícios do seu sacrifício”. Isso é um apelo à piedade. Mesmo se outras pessoas realmente necessitassem do seu sacrifício, não seguiria que essa é uma razão para você se sacrificar. Mais importante, a noção de que pessoas necessitam do benefício do seu sacrifício é falsa. O que as pessoas necessitam é produzir valores e comercializá-los com outras pessoas que produzem valores. E, para fazer isso, elas e as outras devem ser livres para produzir e fazer comércio de acordo com seu próprio julgamento. Isso, não o sacrifício humano, é o que a vida humama requer. (Eu abordarei o relacionamento entre liberdade e egoísmo um pouco mais tarde). “Você deve se sacrificar porque se você não fizer isso, você será agredido, ou será multado, ou jogado na prisão, ou atingido fisicamente de alguma outra maneira”. A ameaça de força não é uma razão; é o oposto de uma razão. Se os que empregam a força pudessem oferecer uma razão para você se sacrificar, eles não teriam que usar a força; eles poderiam usar a persuasão ao invés da coerção. “Você deve se sacrificar porque, bem, quando você amadurecer ou adquirir sabedoria você entenderá que isso é o que deve ser feito”. Isso não é uma razão, mas um ataque pessoal e um insulto. O que se diz, efetivamente, é “se você não entende a virtude do sacrifício, então você é infantil ou estúpido” – como se exigir uma razão em apoio a uma convicção moral pudesse indicar falta de maturidade ou inteligência. “Você deve se sacrificar porque apenas uma pessoa ruim ou um mau caráter poderiam contestar esse fato estabelecido”. Esse tipo de afirmação pressupõe que você considera as opiniões que os outros têm sobre você mais importantes do que o seu próprio julgamento da verdade. É também um exemplo do que Ayn Rand chamava “O Argumento da Intimidação”: a tentativa de colocar pressão psicológica no lugar da argumentação racional. Tal como o ataque pessoal, é uma tentativa de que se evite a apresentação de uma defesa racional a favor de uma posição para a qual nenhuma defesa racional pode ser feita. É isso. Tais são as “razões” oferecidas em apoio da alegação de que você deve se sacrificar. Não tome a minha palavra como final; questione em outros lugares. Pergunte aos seus professores de filosofia. Pergunte a um padre ou a um rabino. Você descobrirá que todas as “razões” oferecidas são variantes dessas – cada uma das quais, longe de ser uma “razão”, é uma falácia encontrada nos livros-texto de lógica. (A maioria delas até mesmo possui nomes de fantasia latinos).

Ayn Rand exigia razões para as suas convicções. Assim como nós devemos exigir.

Ela buscou descobrir uma moralidade racional – que fosse baseada nos fatos observáveis –e na lógica. Em vez de começar com a pergunta “Qual dos códigos de valor existentes eu devo aceitar-” – Ela começou com a pergunta, “O que são valores e por que o homem necessita deles”- Essa pergunta lhe apontou para longe das visões estabelecidas – e em direção aos fatos da realidade.

Olhando para a realidade, Rand observou que um valor é aquilo pelo qual alguém age a fim de obter ou manter. Você pode ver a verdade disso em sua própria vida: Você age para obter e manter dinheiro; você o valoriza. Você age para obter e manter boas notas; você as valoriza. Você age para escolher e desenvolver uma carreira gratificante. Você busca encontrar o cara ou a garota ideal e construir um maravilhoso relacionamento. E assim por diante.

Olhando para a realidade, Rand também viu que apenas organismos desempenham ações autogeradas, direcionadas a objetivos. Árvores, tigres e pessoas desempenham ações em direção a objetivos. Rochas, rios e martelos não. Árvores, por exemplo, estendem suas raízes para dentro do solo e seus ramos e folhas para o céu; elas valorizam nutrientes e luz solar. Tigres caçam antílopes, e dormem sob as árvores; eles valorizam alimentos e sombra. E pessoas agem para obter seus valores, tais como nutrição, educação, carreira, romance, etc.

Além disso, Rand observou que a razão final pela qual os organismos vivos desempenham tais ações é a sustentação das suas vidas. Ela descobriu que a vida de um organismo é o seu objetivo maior e padrão de valor – e que a vida do homem é o padrão de valor moral: o padrão pelo qual julgamos o que é bom e o que é ruim. A vida do homem – significando aquilo que é necessário para sustentar e promover a vida de um ser humano – constitui o padrão de valor moral.

Agora, a validação do princípio de que a vida é o padrão de valor tem um série de aspectos, e nós não temos tempo de considerar todos eles esta noite. Para os nossos propósitos aqui, eu quero focar brevemente em apenas alguns deles.

Ao perseguir a questão “Por que o homem necessita de valores-” – Ayn Rand manteve seu pensamento orientado aos fatos. Se o homem necessita de valores, então a razão pela qual ele necessita deles seguirá um longo caminho para a determinação de quais valores são legítimos e quais não são. Se o homem não necessitasse de valores, bem, então, ele não necessitaria deles – e não haveria qualquer razão para perseguir o problema. O que Rand descobriu é que o homem realmente necessita de valores – e a razão pela qual necessita deles é a fim de viver. A vida, ela descobriu, é o objetivo final de nossas ações; a vida é o fim último para o qual todos os outros valores são devidamente os meios.

De fato, porque temos livre arbítrio, nós podemos tomar atitudes contrárias à vida – e, como nós vimos, o altruísmo insensatamente nos clama a fazer exatamente isso. Mas o ponto é que nós não necessitamos tomar atitudes contrárias à vida, a menos que queiramos morrer – nesse caso, não precisamos realmente tomar qualquer atitude. Nós não precisamos fazer qualquer coisa para morrer; se isso é o que queremos, devemos apenas parar completamente de agir e em breve iremos definhar.

Se queremos viver, entretanto, devemos perseguir valores que servem à nossa vida –e devemos agir assim por escolha.

O livre-arbítrio nos habilita a escolher nossos valores. Isso é o que dá origem ao campo da moralidade. A moralidade é o reino dos valores escolhidos. Mas quaisquer que sejam as nossas escolhas, estes fatos permanecem: A única razão pela qual nós podemos perseguir valores é porque estamos vivos, e a única razão pela qual necessitamos perseguir valores é a fim de viver.

Este princípio bilateral da filosofia de Rand é essencial para o entendimento de como a moralidade Objetivista está fundamentada nos fatos imutáveis –da realidade: (1) Só a vida torna valores possíveis – pois coisas não vivas não podem perseguir valores; e (2) só a vida torna valores necessários – pois apenas coisas vivas necessitam perseguir valores.

Observando a realidade, podemos ver que isso é verdade: Uma rocha não tem valores. Ela não pode agir para obter ou manter coisas; ela apenas permanece imóvel – a menos que alguma força externa, tal como uma onda marítima ou um martelo, consiga atinjá-la e a movê-la. E ela não necessita obter ou manter coisas, pois a sua existência contínua é incondicional. Uma rocha pode mudar de forma – por exemplo, ela pode ser esmagada e virar areia, ou derretida e se tornar líquida, mas não pode sair da existência. A existência contínua de um organismo vivo, no entanto, é condicional – e isto é o que dá origem à possibilidade e necessidade de valores. Uma árvore deve realizar certos objetivos – ou senão ela morrerá. Seus elementos químicos permanecerão, mas a sua vida sairá da existência. Um tigre deve realizar certos objetivos também, ou ele terá o mesmo destino. E uma pessoa – se deve permanecer viva – deve igualmente realizar certos objetivos.

A ética Objetivista – reconhecendo tudo isso – mantém a vida humana como o padrão de valor moral. Ela sustenta que agir de acordo com os requerimentos da vida humana é moral, e agir em contradição a esses requerimentos é imoral. É uma ética baseada em fatos, preta e branca.

Agora, combinando o princípio de que a vida humana é o padrão de valor moral com o fato observável de que as pessoas são indivíduos – cada uma com o seu próprio corpo, sua própria mente, sua própria vida – nós chegamos a outro princípio da ética Objetivista: a própria vida de cada indivíduo é o seu próprio valor maior. Isso significa que cada indivíduo é moralmente um fim em si mesmo – não um meio para os fins dos outros. Assim, ele não tem o “dever” moral de se sacrificar para o proveito dos outros. Nem ele tem o “direito” moral de sacrificar os outros para o seu próprio proveito. Por princípio, nem o autossacrifício, nem o sacrifício dos outros é moral, porque, por princípio, o sacrifício humano enquanto tal é imoral.

A vida humana não requer que as pessoas se sacrifiquem para o proveito das outras; nem requer que as pessoas sacrifiquem outras para o seu próprio proveito. A vida humana simplesmente não requer sacrifício humano; as pessoas podem viver sem abrir mão de suas mentes, seus valores, suas vidas; as pessoas podem viver sem matar, espancar, roubar ou enganar umas às outras.

Além disso, o sacrifício humano não pode promover a vida e a felicidade humanas; ele só pode levar ao sofrimento e à morte. Se as pessoas querem viver e ser felizes, elas nem devem se sacrificar e nem sacrificar os outros; em vez disso, eles devem perseguir valores que servem às suas vidas e respeitar os direitos das outras de fazer o mesmo. E, dado o papel da moralidade na vida humana, a fim de agir dessa forma, elas devem aceitar a moralidade que defende agir dessa forma.

Em uma frase, a ética Objetivista sustenta que o sacrifício humano é imoral – e que cada pessoa deve perseguir os valores que servirão às suas vidas e respeitar os direitos das outras de fazer o mesmo. Esse é o princípio básico do egoísmo racional. E a razão pela qual ela soa tão bem é porque ele é o bem; ele é correto; ele é verdadeiro. Esse princípio é derivado dos fatos observáveis –da realidade e dos requerimentos demonstráveis –da vida humana. De onde mais princípios morais válidos poderiam vir- E a qual outra finalidade eles poderiam servir-

Agora nós podemos entender por que Ayn Rand disse que “O propósito da moralidade é lhe ensinar, não a sofrer e a morrer, mas a apreciar a si mesmo e a viver”. A moralidade, corretamente concebida, não é um empecilho a uma vida de felicidade; ao invés disso, ela é o meio para tal vida.

Assim, vamos nos voltar à questão de como apreciar a si mesmo e viver. Se essa é a coisa certa a fazer, então qual – de acordo com a ética Objetivista – é o meio para esse fim-

Em primeiro lugar e mais importante, a fim de viver e alcançar a felicidade, nós temos que usar a razão. Daí a palavra tecnicamente redundante “racional” em “egoísmo racional”. A razão é o nosso meio de entender o mundo, a nós mesmos, e as nossas necessidades. É a faculdade que opera por meio da observação perceptiva e da abstração conceitual – por meios dos nossos cinco sentidos e de nossa capacidade de pensar logicamente, de fazer conexões causais e de formar princípios.

É por meio da razão que nós identificamos o que as coisas são, quais propriedades elas têm, e como nós podemos utilizá-las para os propósitos que servirão à nossa vida. Por exemplo, é pelo uso da razão que nós aprendemos sobre as plantas, o solo, os princípios da agricultura e sobre como produzir alimentos. É por meio da razão que nós aprendemos sobre a lã, a seda e a tecer e produzir roupas. É por meio da razão que nós aprendemos os princípios da química e da biologia e a produzir remédios e realizar cirurgias; os princípios da engenharia e como construir casas e arranha-céus; os princípios da aerodinâmica e como construir e fazer voar jatos jumbo; os princípios da física e como produzir e controlar energia nuclear. Assim por diante.

Em um nível mais pessoal, é por meio da razão que somos capazes de desenvolver carreiras realizadoras, de nos engajar em hobbies gratificantes e de estabelecer e manter boas amizades. E é por meio da razão que somos capazes de alcançar o sucesso no romance.

Desde que esse último é talvez menos óbvio do que os outros, vamos nos focar nele isso por um minuto.

Para estabelecer e manter um bom relacionamento romântico, você tem que levar em conta todos os fatos relevantes pertinentes a esse objetivo. Para começar, você tem que saber que tipo de relacionamento será realmente bom para a sua vida; você não nasceu com esse conhecimento, nem você o obtém automaticamente. Para adquiri-lo, você tem que observar a realidade e pensar logicamente. Além disso, você tem que encontrar alguém que se ajuste às suas necessidades e viva de acordo como os seus padrões. Para fazer isso, você tem que julgar com precisão os caracteres e qualidades das pessoas – o que exige a razão. Uma vez encontrada, você tem que tratar a pessoa de forma justa – como ele ou ela merece ser tratado. Para fazer isso, você tem que entender e aplicar o princípio da justiça (que discutiremos em breve). O seu meio de entendimento e aplicação disso é a razão.

Para ter sucesso no romance, você tem que descobrir e agir de acordo com muitos fatos e princípios. Você deve pensar e agir racionalmente. Se você escolher uma parceria amorosa irracionalmente, ou tratá-la irracionalmente, então sua vida amorosa estará condenada. Tenho certeza que todos vocês conhecem pessoas que abordaram seus relacionamentos irracionalmente – e quais foram os resultados.

A ética Objetivista reconhece que a razão é o nosso meio de viver e de e alcançar a felicidade. Assim, ela defende a razão como nosso guia em todas as áreas da vida: material, espiritual, pessoal, social, sexual, profissional, recreacional – você diz.

Agora, e quanto às emoções- Onde elas se encaixam no quadro-

A ética Objetivista reconhece e defende o papel crucial das emoções na vida e felicidade humanas. As emoções são os nossos meios psicológicos de desfrutar a vida – que é o propósito de viver. Mas, para esse fim, é importante tratar as emoções pelo que elas são e não esperar que elas sejam o que não são.

O que são exatamente emoções- Elas são consequências automáticas dos nossos juízos de valor. Elas surgem a partir das nossas avaliações das coisas, pessoas e eventos em nossas vidas. Por exemplo, se você se candidatar a um emprego que você considera ideal para o seu plano de carreira, e você for contratado, você experimentará emoções alegres e positivas. Se você não for, você experimentará sentimentos de frustração ou decepção. Similarmente, se você não vê seu bom amigo há muito tempo e você se encontra com ele em um restaurante, você ficará contente em vê-lo. Se, no entanto, ele lhe informa que entrou para a Igreja da Cientologia, você ficará muito chateado. Se em seguida ele lhe diz que estava brincando, você sentirá um certo alívio. Da mesma forma, se seu time predileto vencer um grande jogo, você reagirá de uma forma. Se o seu time perder, você reagirá de outra forma – especialmente se você apostou muito dinheiro no jogo.

Suas emoções refletem o que é importante para você; elas são, como Rand dizia, “estimativas altamente velozes das coisas ao seu redor, calculadas de acordo com os seus valores”. Enquanto tais, elas são cruciais à sua vida. Se você não experimentou a emoção do desejo, você não teria motivação para desempenhar qualquer ação – e você em breve morreria. Se você nunca experimentou alegria, você não teria qualquer razão para permanecer vivo; uma vida desprovida de alegria não é uma vida que vale à pena ser vivida. Nós precisamos de emoções.

Mas as emoções não são a nossa forma de conhecimento. Elas não podem nos dizer quais frutos são comestíveis ou como construir uma cabana, como realizar uma cirurgia cardíaca ou como fabricar um iPod, quem é honesto ou quem tem o direito de fazer o quê, o que fazer quanto ao terrorismo ou o que vai nos tornar felizes. Só a razão pode nos dizer tais coisas.

Assim, o egoísmo racional defende que devemos respeitar cada uma das nossas faculdades mentais pelo que ela é. Ao contrário das moralidades emocionalistas – que tratam as emoções como se eles pudessem nos dizer o que é verdadeiro e o que é bom e o que é correto – a moralidade Objetivista reconhece as emoções pelo que elas são exatamente e as trata de acordo. Esperar que as emoções sejam o que elas não são – ou façam o que elas não podem fazer – é fazer mau uso delas. Assim como nós não chamamos aqueles que abusam de crianças de “defensores das crianças”, nós não devemos chamar aqueles que abusam das emoções de “defensores das emoções”. Eles não são.

A ética Objetivista é pró-emoção – e é o único código moral assim. Ela é tanto 100 por cento pró-razão – quanto 100 por cento pró-emoção. Ele defende o uso adequado de cada faculdade mental em todos os momentos considerando que a vida e a felicidade humanas dependem do seu uso adequado.

A razão é o nosso único meio de conhecimento – e assim o nosso mecanismo básico para viver. As emoções são as consequências automáticas dos nossos juízos de valor – e assim o nosso mecanismo psicológico de desfrutar a vida. Devidamente compreendidos, a razão e as emoções não são aspectos conflitantes da natureza humana; ao invés disso, elas são uma equipe harmoniosa a serviço da vida.

A ética Objetivista afirma que você deve perseguir os valores que servirão à sua vida com o todo da sua vida em mente, incluindo todas as suas necessidades – físicas, intelectuais e emocionais – ao longo do seu inteiro ciclo de vida. Seu instrumento básico para fazer isso é a razão.

Assim, o egoísmo não ensina a “fazer aquilo que se gosta”ou “fazer aquilo que se sente vontade de fazer” ou “esfaquear os outros pelas costas para conseguir o que se quer”. Essas são caricaturas do egoísmo perpetradas pelos defensores do altruísmo que buscam igualar egoísmo com hedonismo, subjetivismo e predação. Novamente, não seja enganado! O egoísmo não é o hedonismo; ele não diz: “Faça o que quer que lhe der prazer independente dos efeitos sobre a sua vida”. O egoísmo não é o subjetivismo; ele não diz: “Faça o que quer que você sinta vontade de fazer independente das consequências”. E o egoísmo não é a predação; ele não apenas afirma que você não deve conquistar valores pelo abuso dos outros; ele fundamentalmente afirma que você nem mesmo conseguiria conquistar valores que servirão à sua vida através da desonestidade, da injustiça ou da coerção.

O egoísmo não defende o prazer ou os sentimentos ou a conquista como o padrão de valor. Ele defende a vida como o padrão de valor – e a razão como o seu instrumento básico para viver. Assim, um egoísta sempre se esforça para agir de acordo com o seu máximo interesse no longo prazo – como julgado pelo seu uso da razão. Em outras palavras, um egoísta é racionalmente orientado por objetivos, o que nos leva a outro aspecto chave da moralidade de Rand: o valor do propósito.

Um propósito é um objetivo consciente, intencional. Uma pessoa que age propositadamente está em busca de algo – ao contrário de errar ou vagar sem rumo. A busca racional de objetivos que servem à vida é a essência de viver bem; o propósito é a marca registrada do autointeresse.

Se nós quisermos fazer o máximo dos nossos dias e anos – se quisermos ser completamente egoístas – nós temos de ser conscientemente orientados por objetivos em todas as áreas da nossa vida onde se aplica a escolha. Por exemplo, nós temos que escolher uma carreira que nós amaremos. Temos que pensar racionalmente sobre como ter sucesso nela. Nós precisamos planejar a longo prazo e trabalhar duro para realizar excelência e felicidade em nosso campo escolhido. Nós também temos que escolher e perseguir hobbies interessantes e atividades recreativas que nos trarão grande alegria – seja compor músicas ou andar a cavalo ou surfar ou blogar, etc. E, como mencionado anteriormente, nós temos que buscar amizades e romance. Tais propósitos são essenciais para uma vida de felicidade.

Nossos propósitos na vida, de acordo com a ética Objetivista, são o que tornam a vida significante. São eles que enchem nossas vidas com intensidade e refinamento e alegria. Eles são o material da boa vida. E se nossos propósitos devem servir a esse propósito, eles devem ser escolhidos e buscados racionalmente. Razão e propósito andam de mãos dadas. Ter propósitos racionais é essencial para a nossa vida e felicidade.

Outro valor identificado por Rand como crucial à vida e à felicidade humanas é a autoestima – a convicção de que se é capaz de viver e se é digno de felicidade. Eu não vou falar muito sobre isso, pois é um requerimento relativamente óbvio da vida e da felicidade. Aqui basta dizer que nós não nascemos com autoestima; nós temos de merecê-la. E a única maneira de merecê-la é pensar racionalmente e agir propositadamente.

Estes três valores – razão, propósito e autoestima – são, como Rand afirmava, “os três valores que, juntos, são os meios e a realização do nosso valor maior, a nossa própria vida”. 2 Para viver como seres humanos temos de pensar (razão); temos de escolher e perseguir objetivos que promovem a vida (propósito); e temos de alcançar e manter a convicção de que nós somos capazes de viver e dignos de felicidade (autoestima). Todos os três são necessários para o sucesso em todas as áreas da nossa vida.

Fundamentados nesses valores básicos, vamos nos voltar a alguns princípios sociais fundamentais identificados por Ayn Rand. Vamos examinar primeiro o princípio Objetivista da justiça.

“Justiça”, escreve Rand, “é o reconhecimento do fato de que você não pode falsificar o caráter dos homens, assim como você não pode falsificar o caráter da natureza…” 3. Porque as pessoas têm livre arbítrio, o caráter de uma pessoa é o que ela escolhe fazer dele. Nós podemos reconhecer esse fato ou não – mas, de qualquer maneira, o fato permanece. Uma pessoa tem o caráter que ela tem; ela é responsável por ele; e o seu caráter, seja bom ou ruim, pode afetar a nossa vida de acordo com o que ele é. Uma pessoa de bom caráter pode gerar boas ideias, criar produtos que servem à vida, prover amizade ou romance, tornar-se um político honesto, ou de alguma forma ter um impacto positivo na nossa vida. Uma pessoa de mau caráter pode gerar más ideias, destruir valores que servem à vida, nos enganar, nos atacar, roubar nossa propriedade, defender leis que prejudicam a vida, ou até mesmo nos matar.

Justiça é a virtude de julgar as pessoas racionalmente – de acordo com os fatos disponíveis e relevantes – e tratá-las de acordo – como elas merecem ser tratadas. Esse é o princípio básico da interação humana egoísta. A fim de viver, de proteger nossos direitos e de alcançar a felicidade, nós temos que julgar as pessoas. “O preceito: “Não julgue, para não ser julgado”, escreve Ayn Rand, “é uma abdicação da responsabilidade moral.. O princípio moral a ser adotado nesta questão é: “Julgue e esteja preparado para ser julgado”. Ainda citando Rand:

“Nada pode corromper e desintegrar uma cultura ou o caráter de um homem tão completamente quanto o preceito do agnosticismo moral, a ideia de que nunca devemos fazer julgamento moral sobre os outros, que precisamos ser moralmente tolerantes com qualquer coisa, que o bem consiste em não distinguir entre o bem e o mal.

É óbvio quem lucra e quem perde com tal preceito. Não é justiça ou igualdade de tratamento o que você concede aos homens quando igualmente se abstém de elogiar as suas virtudes e de condenar os seus vícios. Quando sua atitude imparcial declara efetivamente que nem o bem e nem o mal podem esperar qualquer coisa de você – a quem você trai e a quem você encoraja-” 4

Apenas um tipo de pessoa tem algo a temer de um julgamento moral; o resto de nós apenas pode se beneficiar com isso. Ser justo consiste em reconhecer esse fato e agir de acordo com ele.

Para viver com de forma próspera, feliz e livre, temos que julgar nossos amigos, nossos pais, nossos empregadores e empregados, nossos professores e nossos políticos. Temos que julgar todos aqueles que têm um impacto em nossa vida. Temos que julgá-los racionalmente – e tratá-los de acordo com isso.

Em certo sentido, isso é tão óbvio que parece tolice ter que dizê-lo. Mas dada as visões sobre moralidade comumente aceitas – do princípio bíblico: “Não julgue para não ser julgado” ao mantra relativista: “Quem é você para julgar-” – isso não apenas tem que ser mencionado; isso tem que ser ressaltado. Julgar as pessoas racionalmente e tratá-las de acordo com o julgamento é um requerimento da vida humana.

Enquanto aqueles que não se importam com a vida humana podem ser indiferentes a esse fato, aqueles de nós que queremos viver precisamos levá-lo muito a sério. Precisamos sustentar e defender o princípio da justiça, e não apenas quando se trata de condenar aqueles que são maus, mas também, e mais importante, quando se trata de elogiar, recompensar, e defender aqueles que são bons – aqueles que pensam racionalmente e produzem os valores dos quais a vida humana depende: cientistas que descobrem as leis da natureza, inventores que criam novos dispositivos e medicamentos que servem à nossa vida, empresários que produzem e comercializam bens e serviços que melhoram a nossa vida, artistas que criam valores espirituais que abastecem nossas almas e nos trazem alegria, assim por diante. A justiça exige que reconheçamos tais pessoas como boas – boas porque de forma autointeressada usam a razão e produzem valores que servem à vida.

Ao estudar a ética de Ayn Rand – além de aprender muito mais a respeito das suas ideias sobre razão, propósito, autoestima e justiça – você descobrirá o significado objetivo e a necessidade egoísta das virtudes da honestidade, integridade, produtividade e orgulho. Em cada caso, Rand aponta os fatos que dão margem à necessidade de tais virtudes; ela mostra por que sua vida e sua felicidade dependem delas; e ela fornece um sistema filosófico integrado para guiar suas ações adequadamente.

Eu meramente indiquei o tipo de orientação oferecida pelo egoísmo. Mas à luz do que vimos até aqui, considere por um momento como ela se compara à orientação fornecida pelo altruísmo. Dados os muitos valores dos quais a vida e felicidade humanas dependem – de valores materiais, tais como comida, abrigo, roupas, tratamentos médicos, automóveis e computadores; a valores espirituais, tais como conhecimento, autoestima, arte, amizade e amor romântico – nós precisamos de muita orientação ao fazer escolhas e tomar atitudes. Nós precisamos de princípios morais que conduzam à meta de viver de forma plena e feliz através da passagem de anos e décadas. Em resposta a essa necessidade, o egoísmo fornece um completo sistema de princípios integrados, não contraditórios, cujo único propósito é nos ensinar a viver e apreciar a vida. Em resposta a essa mesma necessidade, o altruísmo diz: Não seja egoísta; sacrifique seus valores; desista dos seus sonhos.

Se nós queremos viver e ser felizes, apenas uma dessas moralidades nos servirá.

E assim como o egoísmo é a única moralidade que fornece orientação adequada para as nossas vidas pessoais, ela também é a única moralidade que fornece uma fundação adequada para uma sociedade civilizada. Vamos nos voltar brevemente à política implicada pelo egoísmo.

Leia a Parte III.


Sobre o autor: Craig Biddle é editor de The Objective Standard e autor de Loving Life: The Morality of Self-Interest and the Facts that Support It, uma introdução sistemática e altamente concretizada à ética de Ayn Rand. Sua próxima obra, Thinking in Principles: The Science of Selfishness, é sobre como utilizar a mente da forma mais efetiva a serviço da própria vida, liberdade e felicidade. Além de escrever, ele é palestrante e apresenta seminários sobre questões éticas e epistemológicas a partir de uma perspectiva Objetivista. Biddle apresentou seminários em universidades pelos Estados Unidos , incluindo Stanford, Duke, Tufts, UVA, UCLA, e NYU. O seu website é www.CraigBiddle.com.

Link para o original: https://www.theobjectivestandard.com/issues/2012-summer/atlas-shrugged-ayn-rand-morality-egoism/

Obs: O texto original está protegido por direitos autorais. A sua tradução e publicação nesta página foi expressamente permitida pelo autor.


  1. Rand, Philosophy: Who Needs It, pp. 61–62. ?
  2. Rand, Virtue of Selfishness, p. 27. ?
  3. Ayn Rand, For the New Intellectual (Nova York: Signet, 1963), p. 129. ?
  4. Rand, Virtue of Selfishness, pp. 82–83. ?