Como o Altruísmo Prejudica a Saúde Mental e a Felicidade -- Parte II

Edwin A. Locke Ph.D., Ellen Kenner, Ph.D.

2016/10/17

O que é egoísmo racional. Egoísmo, literalmente, significa preocupação com os seus próprios interesses (Rand, 1964); o termo em si não especifica quais são os seus interesses ou como descobri-los. Mas por que afinal você deveria estar preocupado com os seus próprios interesses- A resposta básica é: pelo objetivo de viver. Enquanto ser humano, você é mortal e deixar de fazer as escolhas corretas é uma ameaça à sua sobrevivência e bem-estar. Você precisa fazer as escolhas corretas para manter-se vivo e progredindo fisicamente (por exemplo, alimentar-se, abrigar-se, vestir-se, procurar assistência médica, trabalhar para ganhar a vida) – e, psicologicamente, para conquistar autoestima e felicidade. “Felicidade”, escreve Ayn Rand, “é o estado de vida bem-sucedido”. (Rand, 1992, p. 932):

“Felicidade é aquele estado de consciência que surge da conquista dos nossos valores. Uma moralidade que ousa mandá-lo encontrar felicidade na renúncia da sua felicidade – a valorizar a ausência dos seus valores – é uma insolente negação da moralidade”. (Idem)

Enquanto humanos, nós não possuímos qualquer código moral inato. Nós observamos muitas pessoas que escolhem ações que prejudicam a si mesmas porque elas não sabem fazer escolhas racionais. Nós observamos isso em diversas situações tais como ingerir alimentos não saudáveis, abusar do álcool e das drogas, jogar imprudentemente, permitir cônjuges abusivos, tolerar amigos e parentes que causam infortúnios, mal administrar as finanças, não buscar educação, aceitar empregos e carreiras que nos tornam infelizes, sofrer exploração financeira, etc.

Enquanto seres possuidores de livre arbítrio (Peikoff, 1991) nós constantemente enfrentamos alternativas e temos a capacidade de fazer escolhas – mais do que isso, nós precisamos fazer escolhas:

Observe que o egoísmo e o altruísmo dão respostas opostas a essas questões e têm efeito opostos sobre o seu sentimento de ego, autoestima e felicidade. Se Amy seguir o altruísmo, quando ela começar a pensar sobre o seu próprio bem-estar e desejos, ela se sentirá imoral. Ela lida com isso encobrindo (reprimindo) tais pensamentos egoístas, dizendo a si mesma: “Não pense nisso”. Ela deve manter tais pensamentos fora da atenção consciente. Amy se encontra em uma situação onde a vitória não é possível: para ser moral, ela sente que deve se sacrificar – mas isso a faz se sentir amargurada, deprimida e infeliz. Para ser feliz, ela deve pensar no que ela quer – mas isso violaria o seu código moral e a faria sentir que está fazendo algo errado. Essa é a armadilha psicológica estabelecida pelo altruísmo. Ele contradiz o próprio propósito da moralidade. O altruísmo, ao invés de promover a vida, é contrário à vida. Ele insulta a razão.

Rand (1964; consulte também Peikoff, 1991) mostrou que a identificação e a busca dos nossos próprios interesses requerem o exercício da razão, não revelações místicas, nem caprichos, nem obediência cega, mas o pensamento fundamentado na realidade. Sentimentos não analisados, emoções, não são fontes de conhecimento, e agir unicamente baseado em sentimentos simplesmente levará à autodestruição. Sua mente é o seu meio básico de sobrevivência. Assim, a racionalidade, de acordo com Rand (1964), é a maior virtude. Ser racional requer que você não retire sua mente de foco e dê saltos de fé, nem que tome o rumo “fácil” de seguir os seus sentimentos, mas que se orgulhe em ter uma mente pensante e ativa. Você precisa entender e ver o sentido do mundo a fim de viver e apreciar a vida. Em The Objectivist Ethics (A Ética Objetivista), Rand (1964, p.26) elabora o seguinte sobre a virtude da racionalidade:

“Ela significa um comprometimento ao princípio de que todas as convicções, valores, objetivos, desejos e ações devem ser baseados, derivados, escolhidos e validados a partir de um processo de pensamento – um processo de pensamento tão preciso e escrupuloso, dirigido por uma aplicação tão implacavelmente estrita da lógica, quanto a máxima capacidade individual o permite.”

Usar sua mente de forma racional requer esforço – e tal esforço lhe traz uma sensação de competência e autoestima.

Outras virtudes implicadas pela racionalidade são:

Honestidade (a recusa de falsear a realidade). Integridade (agir de acordo com o próprio julgamento racional). Independência (pensar por si mesmo e trabalhar para o sustento da própria vida). Produtividade (trabalhar para produzir, diretamente ou indiretamente, os bens que a vida requer). Justiça (racionalidade aplicada aos outros homens – julgá-los e agir para com eles de acordo com o seus caracteres e ações). Orgulho (esforçar-se para atingir a perfeição moral). (Ver Peikoff, 1991, e Smith, 2006, para uma discussão detalhada dessas virtudes.)

Agir de acordo com essas virtudes nos ajuda a prosperar. (Nota: estamos preocupados com a vida nesta terra, não com a “vida” em outra dimensão – não existem outras dimensões). Para dar um exemplo, desonestidade envolve a negação do próprio julgamento racional – ver a realidade como ela não é em vez de como ela é. A tentativa de Amy de “mostrar um rosto feliz” para sua família e amigos, quando ela está sofrendo terrivelmente por dentro, não fará o sofrimento desaparecer. Falsear a realidade não funciona – a realidade sempre vence no final. Uma pessoa não se beneficiará – e em última instância se prejudicará ao negar problemas reais, incluindo problemas psicológicos. Contudo, ao reconhecer tais problemas, a pessoa está em posição de melhorar.

O egoísmo racional sustenta que o indivíduo é a unidade de valor, um fim em si mesmo, não um meio para outros fins (Rand, 1992). De acordo com esse código, Amy teria o direito moral de perseguir uma carreira da sua escolha – e de ganhar o dinheiro necessário para eventualmente comprar a sua “casa com belos jardins floridos”.

Politicamente, o conceito de direitos individuais (liberdade de coerção do governo) sobre o qual o governo americano foi fundado, é fundamentado no egoísmo (o direito à busca da felicidade). Sob o código do autossacrifício, o altruísmo, não surgiria um conceito tal como o de direito, porque não haveria direitos individuais, apenas deveres. (Não pode haver algo como direitos do “grupo”, pois grupos não são entidades, apenas conjuntos de indivíduos).

Ao falhar em distinguir atitudes com características essencialmente diferentes, observe o que altruísmo oferece: você pode ser “moral”, um bom altruísta, ou você pode ser uma pessoa imoral, egoísta. Assim, pela falha do altruísmo de não distinguir características essencialmente diferentes, o termo “egoísta” reúne sob uma mesma categoria:

Hedonistas amorais, criminosos, e diversas pessoas corruptas (que, na verdade, são autodestrutivas, não autovalorizadoras). Pessoas morais, racionais, que buscam sua própria felicidade sem prejudicar alguém (que são indivíduos racionalmente egoístas). Os últimos não podem ser considerados em conjunto com os primeiros. Essa falsa conceituação deve ser rejeitada completamente.

Uma pessoa racionalmente egoísta pode valorizar ou se importar com outras pessoas-

Como os egoístas racionais veriam as outras pessoas- Primeiro, eles respeitariam seus direitos. Ninguém poderia reivindicar a proteção do princípio dos direitos individuais a menos que aplicado igualmente a todos. Segundo, eles lidariam com os outros através da troca voluntária, cedendo valor por valor (ver Smith, 2006, par detalhes). Isso é óbvio no caso de transações comerciais, mas também se aplica ao reino do amor romântico.

Vamos examinar o amor romântico mais atentamente. Amar outra pessoa significa que você a valoriza de forma egoísta, que o bem estar e a felicidade dessa pessoa são de extrema importância para você. Um “amor abnegado” é uma contradição em termos. Significaria que você é indiferente ou não aprecia a pessoa que você ama. Mas nós ouvimos que o verdadeiro amor é altruísta. Imagine pôr o altruísmo em prática na sua própria vida – casando com alguém de forma altruísta, isto é, de forma autossacrificial, por piedade ou dever. Tal amor abnegado pode ser qualquer coisa menos amor.

Aqui segue uma “carta de amor” escrita por um homem decente influenciado pelo altruísmo, que casou com a sua esposa, não pela alegria que ela traz à sua vida, mas, por piedade e dever:

Querida Noreen,

Eu casei com você, não porque de forma egoísta eu te amava ou te admirava ou te respeitava, mas porque você precisava de mim e disse que não poderia ser feliz sem mim. Eu não admiro seu caráter, pois você nem sempre é honesta. Eu não admiro sua independência, pois você depende de mim para tudo e não pode nem mesmo tomar a menor decisão por si mesma. Você não tem o desejo de crescer e nenhuma ambição; você fica contente em sentar e assistir novelas que debilitam a mente. Eu percebo que você nunca diz a alguém o que realmente sente, mas o que você acha que a pessoa quer ouvir. Você não parece ter um ego de verdade. Você sempre parece nervosa e deprimida e, contudo, não deseja buscar ajuda profissional. Embora eu não obtenha qualquer prazer egoísta em ser casado com você, eu me sentiria muito culpado se lhe abandonasse. Eu permaneço com você e sirvo às suas necessidades por piedade e dever.

Sinceramente,

David

Você pode ver a óbvia contradição aí. O amor altruísta não é de forma alguma amor. Você não pode amar alguém que nada significa para você. O amor romântico não é abnegado, mas sim, egoísta. Embora o verdadeiro amor não seja altruísta, tampouco é narcisista – um relacionamento “somente eu”, de mão única. Narcisistas não podem amar realmente; eles usam os outros para aliviar seu próprio sentido de inadequação. O amor verdadeiro é uma troca mutuamente benéfica na qual a moeda não é o dinheiro, mas o ego da outra pessoa, de corpo e alma.

Você pode perguntar: Mas não é possível sentir prazer pessoal em ajudar os outros- Obviamente sim, se a pessoa (tal como seu filho ou cônjuge) fosse alguém que você ama de forma egoísta e que estivesse, digamos, recuperando-se de uma enfermidade. Você poderia da mesma maneira ajudar um amigo. Você pode querer fazer muitas coisas pelas pessoas a quem você ama (por exemplo, levar flores para a sua esposa, ajudar um filho adulto a se mudar para um novo apartamento, fazer refeições para um amigo que perdeu um ente querido) e tais auxílios são racionais e genuínos quando vêm de respeito e valorização mútua, não do dever e da culpa. Em tais casos, você experimenta prazer em ajudar, não ressentimento. Mesmo com estranhos, às vezes é adequado e prazeroso ajudar, porque você ama sua vida e valoriza pessoas potencialmente boas. Você tem uma perspectiva geral de que, a não ser por evidências ao contrário, um completo desconhecido é uma pessoa potencialmente boa e possivelmente interessante. Assim, enquanto pessoa racional, você pode gentilmente e generosamente ajudar um casal idoso a pôr sua bagagem no comportamento superior de um avião ou deixar que um casal, sem poder seguir caminho e congelando em uma tempestade de neve, entre na sua casa para se aquecer e telefonar pedindo auxílio.

É adequado ajudar alguém quando não sai ao custo dos seus maiores valores, quando a pessoa que você ajuda está em uma dificuldade da qual ela não tem culpa (por exemplo, quando não é um parente alcoólatra e pedinte), quando a dificuldade é temporária, quando a pessoa é apropriadamente grata – e quando não é um risco para a sua vida (algo que deve ser reservado para aqueles a quem você ama de tal forma que não gostaria de viver sem eles).

Uma nota sobre seus filhos em relação ao egoísmo: Você não deve escolher ter filhos a menos que você os queira de maneira egoísta, isto é, pelo prazer do prospecto de formar crianças adoráveis que se tornarão adultos moralmente virtuosos, independentes, prósperos e felizes. Pelo fato de que crianças nascem dependentes, se você escolheu a responsabilidade de tê-las, então a integridade exige que você cumpra sua responsabilidade, mesmo que isso possa lhe causar fadiga ou estresse às vezes. Você também terá que abandonar alguns valores (por exemplo, tempo livre, gastar dinheiro com outras coisas), mas isso porque você valoriza seus filhos mais do que esses outros valores. (A permuta de valores está envolvida em toda ação humana. Permutas não são sacrifícios a menos que você abandone um valor maior por um menor pelo dever). Similarmente, você se casa com a pessoa amada porque você valoriza essa pessoa acima de todas as outras; assim, em sua hierarquia de pessoas por valor, seu cônjuge apropriadamente está em primeiro lugar. Só se torna um sacrifício se você tem filhos ou se casa por dever ou conformismo.

Mas e quanto a ajudar alguém a quem você não valoriza ou efetivamente não gosta- Obrigar a si mesmo a passar seu tempo ajudando aqueles que você não gosta é um dever, um sacrifício. É contra o ego. E quanto às instituições de caridade- Você pode contribuir com a caridade de forma não sacrifical, se você pode se permitir a doar e se é uma organização cujo trabalho ou causa você valoriza e respeita. Mas, sob o altruísmo, não funcionaria dessa maneira. O ato de dar não seria baseado em valores egoístas, mas no dever – num sacrifício não escolhido em proveito dos outros.


Publicado originalmente em Handbook of Managerial Behavior and Occupational Health, editado por A. G. Antoniou, C. L. Cooper, G. P. Chrousos, C. D. Spielberger, & M. W. Eysenck, (Edward Elgar, Northampton, MA, 2009). A publicação deste artigo no Objetivista.com foi autorizada expressamente pelos autores.

Drº Edwin A. Locke é Professor Emérito de Motivação e Liderança da Universidade de Maryland, College Park. É internacionalmente conhecido pela Teoria do Estabelecimento de Metas que ajudou a desenvolver. Ele praticou psicoterapia em tempo parcial durante quinze anos. http://www.edwinlocke.com/

Drª Ellen Kenner é psicóloga clínica particular e lecionou os cursos Introdução à Psicologia, Transtornos Psicológicos e Teorias da Personalidade em nível universitário. Ela apresenta o programa de rádio “The Rational Basis of Happiness” (A Base Racional da Felicidade) – http://drkenner.com.

Eles são autores de The Selfish Path to Romance – How To Love With Passion and Reason (A Trilha Egoísta Para O Romance – Como Amar Com Paixão e Emoção) inspirado nas ideias de Ayn Rand.

Referências

Binswanger, H. (1991). Volition as cognitive self-regulation. Organizational behavior and human decision processes, 50: 154-178.

Locke, E. A. (2006-7) The educational, psychological and philosophical assault on selfesteem. The Objective Standard, 1, (4), 65-82.

Peikoff, L. (1982) The ominous parallels. New York: Stein & Day.

Peikoff, L. (1991) Objectivism: The philosophy of Ayn Rand. New York: Dutton.

Rand, A. (1961) For the new intellectual. New York: Signet.

Rand, A. (1964) The virtue of selfishness. New York: Signet.

Rand A. (1970) Causality vs. duty, The Objectivist. July, 1970 (reimpresso em The Intellectual Activist, New York, 1986, pp. 865-870).

Rand, A. (1990) Introduction to Objectivist epistemology, 2ª edição. New York: NAL books.

Rand. A. (1992) Atlas shrugged. New York: Signet.

Smith, T. (2006) Ayn Rand”s normative ethics: The virtuous egoist. Cambridge, UK: Oxford.