O Que é Filosofia e Como Estudá-la

Leonard Peikoff

2016/10/17

A filosofia não é uma mera distração do intelecto, mas um poder do qual nenhum homem pode se abster. Qualquer um pode dizer que não necessita de uma visão da realidade, do conhecimento, do bem, mas ninguém pode por em prática esse credo. A razão é que o homem, pela sua natureza de ser conceitual, não pode de maneira alguma funcionar sem algum tipo de filosofia para servir como seu guia.

Ayn Rand discute o papel da filosofia em sua apresentação em West Point “Philosophy: Who Needs It”. Sem ideias abstratas, ela afirma,

“você não seria capaz de lidar com os problemas concretos, particulares, da vida real. Você estaria na posição de um bebê recém-nascido, para quem todo objeto é um fenômeno único, sem precedentes. A diferença entre o estado mental dele e o seu está no número de integrações conceituais que sua mente realizou. Você não tem escolha quanto à necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em ideias abstratas, isto é, em princípios.” [1]

Sua única escolha, ela continua, é se os seus princípios são verdadeiros ou falsos, racionais ou irracionais, consistentes ou contraditórios. O único meio de verificar de que tipo eles são é integrando seus princípios.

“O que os integra- A filosofia. Um sistema filosófico é uma visão integrada da existência. Como um ser humano, você não tem escolha quanto ao fato de que você precisa de uma filosofia. Sua única escolha é se você definirá sua filosofia por um processo consciente, racional e disciplinado de pensamento e por deliberação escrupulosamente lógica – ou se permitirá seu subconsciente acumular um amontoado de conclusões não justificadas, falsas generalizações, contradições indefinidas, slogans mal-digeridos, caprichos não identificados, dúvidas e medos, tudo isso reunido ao acaso, mas integrado pelo seu subconsciente em um tipo indefinido de filosofia e fundido em um único peso sólido: a autodúvida, tal como uma bola de ferro e uma corrente no lugar onde as asas da sua mente deveriam ter crescido.” [2]

A filosofia, na visão de Ayn Rand, é a força fundamental que molda cada homem e cada cultura. É a ciência que guia a faculdade conceitual dos homens e, assim, todos os campos de empreendimento que contam com essa faculdade. As questões mais profundas da filosofia são as raízes mais profundas do pensamento dos homens (ver capítulo 4), da sua ação (ver capítulo 12), da sua história (veja o Epílogo) – e, portanto, dos seus triunfos, dos seus desastres, do seu futuro.

A filosofia é uma necessidade humana tão real quanto a necessidade de alimentos. É uma necessidade da mente, sem a qual o homem não pode obter alimentos ou algo mais que a sua vida exige.

Para satisfazer essa necessidade, deve-se reconhecer que a filosofia é um sistema de ideias. Por sua natureza de ciência integradora, ela não pode ser um depósito de questões isoladas. Todas as questões filosóficas estão interrelacionadas. Não se pode, portanto, levantar tais questões de forma aleatória, sem o contexto necessário. Se alguém tentar a abordagem aleatória, então as questões (para as quais não teremos um meio de responder) simplesmente proliferarão em todas as direções.

Suponha, por exemplo, que você leu um artigo de Ayn Rand e apreendeu a partir dele apenas uma ideia geral, com a qual, você decide, está de acordo: o homem deve ser egoísta. Como, você logo irá questionar, esta generalização deve ser aplicada às situações concretas- O que é o egoísmo- Significa fazer o que quer que você sinta vontade de fazer- E se seus sentimentos forem irracionais- Mas quem pode dizer o que é racional ou irracional- E seja como for quem é Ayn Rand para dizer o que alguém deve fazer- Talvez o que seja verdade para ela não seja verdade para você, ou o que é verdadeiro na teoria não é verdadeiro na prática. O que é a verdade- Ela pode variar de uma pessoa para outra ou de uma área para outra- E, pensando nisso, nós não estamos todos ligados uns aos outros- É possível a alguém realmente atingir metas pessoais neste mundo- Se não for possível, então não faz sentido ser egoísta. Que tipo de mundo é este- E se as pessoas seguissem Ayn Rand, isso não levaria a monopólios ou à concorrência selvagem, como os socialistas afirmam- E como alguém sabe as respostas para todas estas (e muitas) perguntas similares- Qual método de conhecimento devemos utilizar- E como sabemos disso-

Para que uma ideia filosófica funcione adequadamente como guia, é preciso conhecer o completo sistema ao qual ela pertence. Uma ideia arrancada do seu meio não tem valor, não pode ser validada, e não funcionará. É preciso conhecer o relacionamento da ideia com todas as outras ideias que lhe dão contexto, definição, aplicação e prova. É preciso conhecer tudo isso não como um fim teórico em si mesmo, mas com propósitos práticos; é preciso conhecê-la para ser capaz de contar com uma ideia, fazer uso racional dela e, em última instância, viver de acordo com ela.


A fim de se abordar a filosofia sistematicamente; devemos começar como os seus braços básicos. A filosofia, de acordo com o Objetivismo, consiste de cinco braços. Os dois básicos são a metafísica e a epistemologia. A metafísica é o braço da filosofia que estuda a natureza do universo como um todo. (A metafísica Objetivista é coberta no presente capítulo “Realidade”). A epistemologia é o braço que estuda a natureza e os meios do conhecimento humano (capítulos 2-5). Esses dois braços tornam possíveis uma visão da natureza do homem (capítulo 6).

Seguindo do que está acima estão os três braços avaliativos da filosofia. A ética, o mais amplo deles, fornece um código de valores para guiar as escolhas e ações humanas (capítulos 7-9). A política estuda a natureza de um sistema social e define as funções corretas do governo (capítulos 10 e 11). A estética estuda a natureza da arte e define os padrões pelos quais uma obra de arte deve ser julgada (capítulo 12).

Ao apresentar o Objetivismo, eu cobrirei os cinco braços em termos essenciais, desenvolvendo cada um deles em ordem hierárquica, e oferecendo a validação de cada princípio ou teoria assim que explicá-lo pela primeira vez.

O Verdadeiro, disse Hegel, é o Todo. Ao fim de nossa discussão, tomando esses termos de empréstimo, você verá um Todo único, o Todo que é a realização filosófica de Ayn Rand. Você poderá então julgar se é uma realização importante – e se ela é a Verdadeira.

Link para o Original: http://www.peikoff.com/essays_and_articles/what-philosophy-is-and-how-to-study-it/

[Trecho do capítulo 1 de Objectivism: The Philosophy of Ayn Rand. Esta obra foi publicada no Brasil e pode ser adquirida através do Instituto Liberdade.]