127 Horas

Caloni, February 23, 2011

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Com uma introdução em tela cortada em três partes, mostrando diversos cenários que evocam o dia-a-dia das pessoas e, principalmente, a correria dessas pessoas para quem o tempo é um bem cada vez mais escasso, o novo longa de Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) nos apresenta Aaron, sem muita distinção do resto da multidão. Na verdade, ele não é muito diferente de nenhum de nós.

Nos fins de semana, Aaron se diverte indo para ambientes desérticos para fazer “canyon biking” e escaladas. Em sua viagem que vemos no filme, ele conhece duas garotas pelo caminho, e juntos se divertem caindo em um lago subterrâneo. Logo depois ele prossegue sua caminhada sozinho por um tempo, escorrega em uma rocha e… acaba tendo seu braço esmagado por essa mesma rocha, ficando preso em um lugar isolado de tudo e de todos.

Nessa hora, e somente nessa hora, vemos o título do filme. O que não é pouca informação. De cara podemos concluir que 1) Aaron passará um tempo já fixado nessa situação de isolamento e 2) ele sairá de lá de qualquer maneira.

Através da segunda conclusão já sabemos que o filme é inteligente o suficiente para supor que nós, o público, não seremos facilmente enganados por falsas ameaças de morte. O roteiro prefere, então, focar nas sensações de uma pessoa, qualquer pessoa, que se encontre nessa situação.

E o que mais impressiona, de fato, é que essas sensações são muito semelhantes ao que sentimos em cada infortúnio que nosso herói passa. Para conseguir essa aproximação, o roteiro se utiliza de um artifício inteligentíssimo que consiste em nos transportar para as lembranças de Aaron que são devidamente imprecisas para nos dar a sensação dos pensamentos que nós mesmos temos inconscientemente, e que geralmente não passa pelos filtros mais rígidos do raciocínio consciente.

Para nos dar essa sensação um tanto subjetiva e distorcida da realidade, a direção usa um mecanismo igualmente inteligentes, como sequências giratórias gigantescas que navegam de onde nosso herói está preso até onde havia deixado sua bike (algumas milhas de distância) e ângulos inusitados, com a troca constante da inclinação e do zoom com que a câmera se aproxima (e se distancia) do personagem.

As oscilações de zoom, aliás, se adequam perfeitamente à troca constante de fotografia, que oscila entre a lente convencional e a câmera usada por ele para registrar os breves momentos em que ele resolve se filmar. Em uma dessas cenas, aliás, existe um monólogo que lembrará a muitos a criatura Gollum, do Senhor dos Anéis.

Por fim, com o uso das habilidosas expressões de James Franco, que consegue traçar mudanças de humor facilmente em Aaron, conseguimos acompanhar com exatidão (e se você for uma pessoa atenta e não tiver visto o filme, é melhor parar por aqui) a dor e o sofrimento de alguns momentos cruciais no filme que poderiam se tornar simplesmente escatológicos, mas que com a ajuda de Franco se tornam sinceramente dramáticos, além de não perder a sintonia com a lógica da história.

É nessa hora que a sensibilidade de direção consegue tornar um final que poderia ser enfadonho, mas necessário, em um desabado silencioso, deflagrado pela mudança de tom na trilha sonora e planos mais abertos, que acompanha os últimos passos do herói de uma maneira mais que adequada: simbólica.

Ponto forte: direção mantém um bom ritmo entre os pensamentos de Aaron e a própria ação acontecendo em um mesmo cenário.

127 Horas ● 127 Horas. 127 Hours (USA, 2010). Dirigido por Danny Boyle. Escrito por Danny Boyle, Simon Beaufoy, Aron Ralston. Com James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Sean Bott, Koleman Stinger, Treat Williams, John Lawrence, Kate Burton, Bailee Michelle Johnson. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-02-23. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?