A Árvore da Vida

Caloni, August 17, 2011

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O início de O Filme: Um Estudo Psicológico (1916), de Hugo Münsterberg, primeiro livro sobre crítica da história do cinema, coloca o fenômeno da percepção do movimento nos olhos de quem vê. A interpretação que fazemos das imagens estáticas em sequência é subjetiva, de forma que, mesmo que o autor da obra tenha escolhido o que filmar, é o espectador que irá extrair da imagem o significado. Dessa forma, um filme, como toda obra de arte, apenas se comunica quando houver um espectador, que irá se relacionar diretamente com a obra e a filtrar pelas nossas experiências de vida e como enxergamos a realidade à nossa volta.

Esse é um dos motivos pelos quais o cinema de A Árvore da Vida merece ser degustado com todo o carinho: quase completamente se comunicando com o espectador através das imagens e sons, a criação de Terrence Malick faz uma exploração profunda sobre o que é a vida e como ela se relaciona com nós mesmos.

Oscilando graciosamente entre o trivial e o solene, o filme se inicia com uma morte, mas logo em seguida busca explicar o seu significado através de uma viagem para uma época em que a própria vida não existia, pincelando uma irretocável sequência que representa o seu surgimento. E essa história tão poética quanto científica irá servir de fio condutor para todos os acontecimentos que iremos presenciar em torno de uma família com três filhos na década de 50.

Através da religião e dos princípios morais que esta prega, o Sr. O’Brien (Pitt) educa os filhos nos moldes em que foi ensinado. Mesmo procurando demonstrar um cuidado e afeto especial por todos eles, não hesita em castigá-los sempre que estiverem dispostos a contestar sua autoridade.

Sem maiores rodeios, o filme logo faz uma comparação inconsciente entre o pai de família e o próprio Deus bíblico, já que ambos oscilam entre o amor incondicional e o castigo mortal. Da mesma forma, o filme demonstra de maneira impecável como essa figura paternal, do ponto de vista dos meninos, parece tão contraditório quanto imprevisível. Apenas para citar um exemplo, em um dado momento ouvimos o pensamento de Jack, o filho mais velho, dizendo que “ele nos proíbe de colocar os cotovelos sobre a mesa, sendo que ele mesmo faz isso”. Mais para a frente, quando um garoto da vizinhança morre, temos uma belíssima rima, quando conclui, em uma de suas orações para Deus: “se o Senhor não é bom, por que eu devo ser?”.

A evolução moral dos filhos é a parte mais interessante da trama, principalmente do mais velho, interpretado por um homem amargurado quando adulto (Penn), que tenta resgatar as lembranças que havia perdido do irmão, em um flashback que se transforma na razão de todo o filme.

Por outro lado, se o pai é a antropomorfização de Deus, a mãe é vista como a própria natureza, pois encoraja os filhos a viver, independente das regras morais impostas pelo pai. Note como não a vemos julgando em nenhum momento o comportamento dos filhos, e como eles mesmos entendem-na como o lado a ser desafiado. O próprio crescimento de Jack, que coincide com sua busca do conhecimento e perda da inocência, vai aos poucos minando os antigos conceitos da mitologia religiosa e o aproxima de uma visão mais natural da vida: ela é o que temos de mais valioso, pois inevitavelmente irá terminar.

Porém, não é a morte o fim de tudo. A vida está sempre fluindo e se transformando, como demonstrada na sequência inicial, e durante todo o filme através da câmera, que está sempre em um movimento que se assemelha a uma dança. E não é à toa que a música, mais um símbolo da vida, está presente em diversos momentos do filme.

Enfim, existe muito para se refletir e aproveitar em A Árvore da Vida. Se você pretende se aventurar em uma sessão, recomendo abrir sua mente, seus olhos e sua imaginação. Fique atento, pois muitas coisas podem ser comunicadas através de imagens estáticas exibidas em sequência.

Dica cultural: curiosamente, o Cine Cultura da Paulista está exibindo tanto Melancolia quanto A Árvore da Vida, que eu considero uma dobradinha mais que apropriada (nessa mesma ordem).

A Árvore da Vida ● A Árvore da Vida. The Tree of Life (USA, 2011). Dirigido por Terrence Malick. Escrito por Terrence Malick. Com Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Fiona Shaw, Jessica Fuselier, Nicolas Gonda. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-08-17. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?