La muerte de Pinochet

Caloni, October 24, 2011

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O superzoom inicial das rugas (passado) e dos lábios (testemunho) das pessoas entrevistadas no documentário sobre o ditador sanguinário possuem dois motivos igualmente inteligentes e controversos: primeiro, impede que olhemos diretamente para os que dizem ter um profundo sentimento de admiração e orgulho por um ser responsável por uma das ditaduras mais cruéis que já se ouviu falar, o que evita nossa repulsa imediata por essa gente; segundo, admite que o testemunho dessas pessoas é fiel e honesto, dito diretamente de suas bocas, que muitas vezes sofreram inconscientemente os infortúnios de um regime que, para elas, não tem qualquer relação com o amado general.

Já, ao enfocar os cidadãos que festejam alegremente em Santiago, a capital do país, após a declaração de morte do ex-ditador, há uma inversão na estrutura, e agora, sim, fazemos parte daquele grupo que festeja e se revoltados ele nunca ter sido julgado pelos crimes que cometeu. É o segundo lado humano retratado no longa.

A forma de conciliar ambas as visões do regime ditatorial do Chile é o segredo para que entendamos como é possível que um governo como aquele conseguiu ficar tanto tempo no poder. Oras, se há parte significativa do povo que o apóia, independente de seus brutais métodos, e que até o compara (de maneira orgulhosa) ao próprio Hitler, então não há dúvida que Pinochet pode ser o ícone desse regime, mas nunca esteve sozinho.

Para os brasileiros que venham a assistir o depoimento dos fãs de Pinochet, vale a fala de uma jovem, tão repetida em nossa própria terra, defendendo de forma completamente alheia à realidade que “na época da ditadura as coisas eram melhores”. Sim, é capaz, também, que seja um depoimento sincero. E exatamente por causa disso é que o filme carrega um peso moral imensurável ao estabelecer como pessoas obviamente idôneas e sinceras venham a apoiar algo completamente errado sob a ótica humanista.

O momento mais icônico, onde o filme se encontra, é quando uma das fãs do ditador se revolta após descobrir que após a sua morte sua licença para trabalhar como comerciante fora cassada. Alegando ser esse o sustento de sua família, brada em frente à camera, exigindo seus direitos e se perguntando onde estão os direitos humanos.

Pois é. A realidade, de fato, muitas vezes está nos olhos do que apenas queremos ver.

La muerte de Pinochet ● La muerte de Pinochet. La muerte de Pinochet (Chile, 2011). Dirigido por Iván Osnovikoff, Bettina Perut. Escrito por Iván Osnovikoff, Bettina Perut. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-10-24. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?