A Pé Ele Não Vai Longe

Caloni, January 3, 2019

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Com a estreia desse filme talvez o politicamente correto anuncie os seus finalmente em 2019. Ou talvez não. A polêmica por trás do cartunista John Callahan existiu simplesmente porque ele escrevia em uma cidadezinha que levava a sério demais tudo que dizia respeito aos incapacitados, religiosos, etc. Bom, não se pode culpá-los, pois essa tendência em exagerar os dramas da vida moderna se espalhou para praticamente todo o Ocidente.

O filme de Gus Van Sant vem transformar em Cinema a biografia de Callahan, de mesmo nome (assim como a piada de um de seus desenhos), em uma narrativa que tenta unir o reconhecimento, a superação e a reflexão de nosso herói através dos anos em que ele esteve em uma cadeira de rodas, se recuperando do seu baque ao se tornar tetraplégico quando jovem em um acidente, e entendendo o processo que o levou ao fundo do poço.

É uma abordagem interessante, pois não se torna enfadonho acompanhar sua história quando ela é contada através de múltiplos “Callahan’s” tentando entender o que houve. O vemos fazendo discurso ao receber um prêmio, sendo ajudado por garotos de skate ao cair na rua, em suas sessões de terapia em uma reunião privada dos Alcoólicos Anônimos com problemas ainda maiores. O filme inteiro parece um momento de reflexão que atravessa o tempo.

(Um parênteses: há uma curiosidade interessante sobre o grupo de pessoas do AA à beira do fim; as duas mulheres que fazem parte são Beth Ditto e Kim Gordon, ambas cantoras, mas que vez ou outra fazem pontas no cinema; Gordon mais que Ditto; mas é Ditto que realiza uma curta mas impactante cena.)

Bom, todo elenco praticamente realiza pontas no filme, pois este é o filme em que Joaquin Phoenix vai monopolizar atenções (não contente em no ano anterior ter protagonizado o espetacular novo filme de Lynne Ramsay, Você Nunca Esteve Realmente Aqui). Mesmo Jonah Hill, que consegue soar autêntico mesmo fazendo um herdeiro rico gay que tenta se redimir por ter estragado a vida de seu grande amor, só o faz porque é um ator econômico, que precisa de pouquíssimas cenas para causar um impacto (e sem roubar a atenção do protagonista). Já Rooney Mara é uma coadjuvante de luxo, que serve mais como um contraponto romântico para uma vida ausente de significado.

Phoenix é um John Callahan em uma versão mista de idades. A versão real entrou na vida do álcool aos 12 e se acidentou aos 21, se tornando um cartunista de sucesso ao começar a esboçar desenhos e espalhar a palavra. Ele constantemente procurava a opinião das pessoas comuns sobre seus desenhos vistos como polêmicos, e eram essas pessoas as verdadeiras avaliadoras do tom de suas piadas, que envolviam principalmente incapacitados e religião (Callahan foi abusado quando criança por uma professora de uma escola cristã). É perigoso exprimir opiniões que possam soar ofensivas a um grupo de “desprivilegiados”? Bom, tenho uma “novidade” para você: o mundo inteiro faz isso e a mídia finge que não existe.

A direção de Gus Van Sant (Milk, Inquietos, Psicose de 98) parece procurar um estilo onde não há. A edição, também de Van Sant, é muito mais prolífica, conseguindo ritmar as idas e vindas no tempo e torná-las uma só. O filme não quer mostrar a diferença das épocas, mas entender o processo da cura do alcoolismo e sua nova profissão como um ser humano completo, onde não há causalidade simples que explique. O resultado é uma narrativa natural, onde as coisas acontecem porque… acontecem. Por mais trágica que seja a situação de alguém que perdeu os movimentos e tendo como cuidador um rapaz relapso, brilhantemente retratado por Van Sant como um Tony Greenhand indo e vindo rapidamente, quase invisível e ausente na casa (escura), este não é um drama pesado, mas um relato vívido de uma vida que foi simplesmente vivida, apesar dos percalços.

A Pé Ele Não Vai Longe é a síntese de tudo o que a vida verdadeiramente é sem os filtros dramáticos do povo do politicamente correto que enxerga desgraça em qualquer traço da vida. Se você olhar para John Callahan fazendo piadas sobre sua própria situação e a de outros, e entender que o humor do absurdo é uma forma de nos expressarmos a respeito dessa locomotiva de emoções chamada vida, e que não faz sentido se lapidada em leis de causalidade, parabéns! Terá aproveitado essa breve e adorável viagem em cadeira de rodas, em uma velocidade acima do permitido.

A Pé Ele Não Vai Longe ● Don't Worry, He Won't Get Far on Foot. França, EUA, 2018. Escrito por John Callahan (a partir do seu livro), Gus Van Sant, Jack Gibson e William Andrew Eatman. Dirigido por Van Sant. Com Joaquin Phoenix como John Callahan, Johah Hill, Rooney Mara, Jack Black. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-01-03. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?