A Suprema Felicidade

Caloni, October 29, 2010

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Baarìa - A Porta do Vento, trabalho mais pessoal de Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso), é uma superprodução que tem como característica marcante não definir um foco específico ao contar sua história. Disposto a tornar a Baarìa do título, um vilarejo no interior da Itália, protagonista de tudo que aconteceu no país ao longo de décadas de história, Tornatore sacrifica a clareza narrativa em prol de um bem maior: a absurdamente estonteante rima final, que torna o seu filme, como um todo, uma experiência única e inesperada.

Mesmo sem essa clareza narrativa, no entanto, Baarìa une as pontas usando o elemento mais aprimorado da obra: a própria cidade-título. Dessa forma, a rua principal e seus frequentadores de sempre são ferramentas úteis nas mãos do diretor para criar a passagem do tempo.

Aparentemente traçando um objetivo similar, pelo menos na intenção, o trabalho de Arnaldo Jabor, depois de mais de vinte anos sem dirigir um filme, emociona mais do que o exemplo italiano. Traz em sua frágil estrutura elementos de filmagem que poderiam enriquecer qualquer outra experiência cinematográfica. Porém, aqui, em específico, por mais que tenhamos a emoção presente na maioria das cenas e a beleza estética do seu figurino e trabalho de arte, falta o grude que dá junta à toda a história e que permitiria que o espectador não apenas se emocionasse, mas que conseguisse concluir as aberturas narrativas tão bem introduzidas em seu início.

E se faço uma relação entre Jabor e Tornatore, não é por acaso. Nascido em 1940 no Rio de Janeiro (cenário do filme), ouso estabelecer que aí, assim como foi com o diretor italiano, temos o filme mais autobiográfico de sua carreira. Com uma história salpicada de conflitos familiares, a vida sob o olhar de uma criança e do seu avô realizam uma dança no melhor estilo da reflexão que fazemos quando estamos mais velhos e lembramos das besteiras que pensávamos antigamente; tudo regado com cenas nostálgicas de um Rio de Janeiro ainda muito jovem, mas carregado de vida.

Porém, mesmo que a direção de arte e o figurino sirvam para aguçar esse tom nostálgico, é inevitável perceber que figuras como o comprador de jornais e o pipoqueiro ajudam a ilustrar parte da sociedade da época, mas nunca a defini-la. O que vemos, no fundo, são os mesmos tipos da nossa sociedade atual travestidos de pessoas da época com o uso de palavras e referências datadas. Apesar de soar autêntico, o resultado final sempre sai meio falso, como nas conversas sobre futebol ou o uso de gírias contemporâneas; tudo isso serve unicamente como curiosidade histórica.

Aliás, no filme temos diversas curiosidades que possuem apenas este único fim. Um flashback dos mais empolgantes ocorre logo no início, em um salto para 39, quando o casal principal se conhece em um baile e, no meio da dança, se envolve em uma conversa acalorada sobre uma cena de um filme da época, hoje um clássico, sendo a animação dos personagens extremamente contagiante (ainda mais para os cinéfilos).

Igualmente interessante é perceber como na época pouco existia a noção do politicamente correto ou da censura para as crianças, tão divertidamente demonstrado na cena do teatro de anões, quando um dos atores apunhala a mocinha, retirando seu coração. Adotando a mesma postura para abordar o tema da prostituição e do homossexualismo (ainda que de uma forma velada), as incursões nunca se aprofundam o suficiente, servindo apenas de mera distração do núcleo da história.

Porém, mesmo a história principal, do casal apaixonado que forma uma família e se deixa aprisionar com o passar dos anos na armadilha da rotina, não vendo nunca seus sonhos serem realizados, é charmosa até um certo ponto. Porém, logo decai para a repetição e o clichê, sem nunca vermos uma conclusão do pensamento, apenas pretensiosamente sendo transferida essa responsabilidade para o filho do casal.

Mesmo com todos seus defeitos narrativos, A Suprema Felicidade poderia muito bem ter sido uma Baarìa nacional, representando no Rio de Janeiro o coração de todos os habitantes do Brasil. Infelizmente, para Jabor, nada restou para unir suas pontas, e a rima final de Tornatore faz a falta merecida em uma conclusão que desmerece em muito todas as belíssimas construções artísticas que vimos durante a projeção.

A Suprema Felicidade ● A Suprema Felicidade. A Suprema Felicidade (Brazil, 2010). Dirigido por Arnaldo Jabor. Escrito por Arnaldo Jabor, Ananda Rubinstein. Com Fernanda Avellar, César Cardadeiro, Tammy Di Calafiori, Maria Flor, Ary Fontoura, Michel Joelsas, Mariana Lima, Jorge Loredo, Caio Manhente. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-10-29. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?