Amadeus (versão do diretor)

Caloni, March 13, 2019

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A grande sacada de Amadeus não é fazer uma biografia sobre Mozart estabelecendo o óbvio: ele foi um músico genial. Isso todos sabemos. O grande trunfo do filme de Milos Forman foi mostrar isso do ponto de vista de uma pessoa que desejaria mais que tudo em ser um Mozart, mas, como a maioria de nós, pobres mortais, teve que conviver com um fato amargo da vida: somos todos medíocres. Aliás, essa é a própria definição de medíocre. A média é o povão. O excepcional acontece de vez em quando.

A sequência inicial do filme é uma pequena obra de arte. Ela mostra Antonio Salieri (F. Murray Abraham), ex-músico da corte de Viena, enlouquecido em um sanatório. Próximo do fim da vida, recebe um padre para se confessar. Ele afirma ter matado Amadeus Wolfgang Mozart. Na conversa com o padre ele toca algumas de suas músicas, das quais o padre não se recorda. Então ele toca a melodia mais conhecida de Mozart, e o padre imediatamente começa a cantarolar. E o rosto de Salieri na tela é todo o resumo desse filme de duas horas e pouca que você precisa saber.

Mas fique para o resto. Mozart (Tom Hulce) ainda não apareceu. Essa é uma cena fabulosa também. Salieri está em uma recepção da realeza e tenta descobrir quem entre todos deve ser o músico genial que compõs peças de respeito entre os seis e os doze anos de idade. Reverente e temente a Deus sobre todas as coisas (ele recebeu o “milagre” da morte do pai e pode se dedicar à música), sua supresa é descobrir que o jovem Amadeus é uma criatura sob os olhos do divino absolutamente abominável. Um mulherengo com uma risada espalhafatosa. Mozart hoje seria um luxo nos programas da tarde da TV.

Essas duas criações de personagens é tudo o que você precisa saber em como fazer uma biografia decente em vez de ficar homenageando os mortos com reverências que ninguém está interessado em saber. Quem sabe na próxima reencarnação de Freddie Mercury nos cinemas em vez do evento família que é assistir Bohemian Rhapsody não venha no lugar uma versão mais… Mozartiana.

Este é um filme um pouco longo, mas nunca enfadonho. A versão do diretor, que recentemente assisti, ainda estende mais 20 minutos, provavelmente as exibições das óperas. Todas as externas foram filmadas em Praga nos anos 80 em pleno comunismo, pois como diz Forman no making off, o comunismo é tão ineficiente que conseguiu manter a cidade intacta, como se fosse do século passado. Isso gerou também alguns problemas, como falta de recursos e paranoia da equipe que tinha certeza estar sendo espionada e grampeada onde se hospedavam. Mas todos adoram biografias de personalidades musicais. Incluindo os sisudos comunistas.

A história aqui não é exatamente História. Do contrário se chamaria documentário. Há um pouco de floreio e poesia e o exagero típico das óperas. Mas toda a música é original. Como pedido pelo compositor da trilha, nenhuma nota de Mozart foi mexida. E o filme aos poucos vai se transformando em uma nova ópera de Mozart: sua história de vida, terminada enquanto compunha seu hino de morte. É um filme sobre símbolos, mas também é um filme sobre uma época e sobre os mistérios do brilhantismo. O que faz alguém ser tão bom no que é?

Nunca saberemos. É igualmente um milagre. Um milagre injusto, se fosse perguntado a Salieri. É também um milagre o casting dessa produção, que encontrou os músicos perfeitos. Quase 1500 pessoas foram testadas, e de todos eles Salieri acabou sendo descoberto sem querer. Uma das pérolas que você descobre assistindo ao making of. E “Amadeus” é tão bom que depois de suas quase três horas você ainda vai querer ver uma hora de making of.

Amadeus (versão do diretor) ● Amadeus. EUA, França, Tchecoslováquia. Dirigido por Milos Forman, escrito por Peter Shaffer. Com F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-13. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?