Bicho de Sete Cabeças

Caloni, May 11, 2019

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Para comemorar o dia anti-maniconial (que nominho desgraçado) nada como assistir Bicho de Sete Cabeças, que é baseado em um caso real de um jovem internado em um sanatório porque dava uns tapinhas na pantera.

O filme tem cenas de sobra demonstrando o caos da sociedade brasileira conservadora da época. Othon Bastos faz o papel do pai gente direita que quer colocar o filho no eixo. O filho, interpretado por Rodrigo Santoro, é um vida boa, jovenzinho que está aí só curtindo com os amigos. E a mãe, Cássia Kis, é essa submissa padrão que sofre em silêncio.

A falta de comunicação em família é o estopim para uma internação despropositada, junto com a ignorância sobre as drogas, ou pior, a confiança cega no governo para ditar quais as substâncias recreativas que podem ser ingeridas, como calmantes, nicotina e o álcool do dia-a-dia. O sanatório é uma parceria pública e quanto mais loucos para eles melhor. Logo o exame do “doutor” é só ver se o paciente está com o coração batendo.

Este é um filme com atuações ímpares, tanto no casting principal quanto no dos loucos. Mas vendo o making of fica claro de quem é a competência na história. Dirigida por Laís Bodanzky, ela acompanha cada cena com os atores em seus personagens. Ela é a diretora ao mesmo tempo que a câmera. Ela determina o tom de cada cena e seu enquadramento com precisão cirúrgica. Ela teve depois em seu currículo filmes acima da média nacional, como As Melhores Coisas do Mundo e Chega de Saudade.

Não à toa o resultado é um filme tenso que nos dá uma boa noção das consequências nefastas de internar alguém 100% saudável em uma “escola de malucos” como essa. A montagem e a trilha sonora fazem o resto, com seleções de batidas rock pauleira. A fotografia ajuda também, sempre nublada e azulada. A tristeza de um ser humano é não ser compreendido.

A relação entre pai e filho pode ter falhas de comunicação, mas o filme não vilaniza a geração passada, que tem seus motivos de preocupação. A história segue uma pegada biográfica, então alguns detalhes como um romance casual ficam soltos, apenas ilustrando a perda da vida que este jovem poderia ter.

Bicho de Sete Cabeças é uma viagem tão eficiente quanto Um Estranho no Ninho no sentido de olharmos para a natureza da definição do nosso normal. E além disso é um ótimo exemplo de como a impressão de que nossa sociedade está sob ordem e controle é um mero joguete publicitário de quinta categoria. Como as pessoas acreditam ainda nisso?

Bicho de Sete Cabeças ● Bicho de Sete Cabeças. Brasil, 2000. Direção de Laís Bodanzky, escrito por Bodanzky a partir do livro de Austregésilo Carrano, com Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kis. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-11. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?