Capitã Marvel

Caloni, March 12, 2019

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“Eu não tenho nada pra provar pra você”, diz Capitã Marvel para um homem. Fora a história em si há pelo menos mais dois significados para essa frase no filme. Primeiro ela se refere ao constante “desafio” feito às mulheres, como se por pertencer a outro gênero elas precisassem provar algo além do que se espera de um ser humano. E segundo, e mais importante, ela se refere à própria Marvel. Não à Capitã, mas à produtora. Durante mais de uma década em sua louca trajetória na criação do MCU, o Marvel Cinematic Universe, ela precisava demonstrar todo tempo que era possível fazer histórias que conectassem todos seus super-heróis no mesmo mundo e este mundo ainda fazer sentido. Capitã Marvel é o primeiro após Vingadores: Guerra Infinita, que encerra um gigante capítulo dessa saga ao juntar todos os supers que ela apresentou e desenvolveu em uma série de filmes. E nesse capítulo ela pode enfim respirar aliviada e dizer: “não preciso mais provar nada a você, caro espectador, que foi fisgado nesse universo e dele não deverá mais retornar nunca mais”.

Este é talvez o trabalho mais maduro até então do MCU, que dá uma volta completa em toda sua mega-história. Se desde o primeiro Homem de Ferro as histórias individuais dos heróis nunca arriscavam expandir demais esse universo, sempre tentando manter os investimentos narrativos coesos até terem certeza do próximo passo, agora esse filme não tem mais medo de usar o universo construído em seu favor, se consolidando como mais uma aventura em uma galáxia distante que acaba tendo sua origem (coincidentemente) no planeta Terra.

Se observarmos do ponto de vista de uma saga nós podemos hoje enxergar nas entrelinhas desse universo o que o torna funcionando. Pedras mágicas, alienígenas com inteligência/tecnologia superior, vôos intergalácticos. Tudo isso faz parte do MCU e já não é mais novidade. Se antes qualquer novo filme de super-herói precisávamos ficar pensando nos possíveis conflitos com outros heróis, agora não tememos mais as possíveis incoerências entre os mundos, pois aprendemos que é um só. (Estou descrevendo a sensação de como é ser um espectador sem ser um leitor das HQs, pois é claro que o leitor experiente já sabe tudo isso e aguarda sempre ansiosamente pelo próximo capítulo.)

Capitã Marvel já começa em outra galáxia e soa como apenas mais um capítulo dessa Saga Infinita, mas como tudo feito até agora com muita qualidade estética construída em gráficos de computador que condizem com o conceito artístico desse universo, que consegue unir os mais diferentes estilos sob uma paleta de cores semelhante com diferenças quase imperceptíveis. Aqui há um tom que mescla Guardiões da Galáxia com Thor, que flerta uma mistura trekker e flash gordon, com luzes coloridas como lasers e quase um pouquinho de senso de humor. Se trata de uma personagem de outra galáxia que possui um pé terráqueo.

E nós até já sabemos o pano de fundo por causa dessa continuidade dos filmes. Essa apresentação de uma nova heroína irá se ligar à segunda parte do Guerra Infinita. Essa é também a primeira heroína a ter um filme solo da Marvel, o que alimenta o próprio marketing da produção (feminismo, etc), tornando um sucesso comercial desde a pré-produção. A grande massa dos fãs da Marvel é um pessoal jovem e semi-jovem que pede por diversidade e tolerância. As sessões lotadas que participei com marveletes sempre foram cheias dessa energia positiva desde o primeiro Vingadores, e a sensação tem apenas melhorado com o tempo.

Brie Larson constrói aqui talvez uma das melhores personas do universo, mas como se trata de uma apresentação de personagem ela tem pouco tempo para demonstrar. Seu aspecto é de uma pessoa em auto-descoberta e que foi criada sob o controle de uma raça que prioriza o intelecto acima de tudo, o que justifica seu olhar direto e suas expressões simples no rosto, mas que estão sempre protegidas por uma blindagem de objetividade que apenas aos poucos vai revelando que há um ser humano por trás de suas feições duras. Ela se sai muitíssimo melhor, por exemplo, que Gal Gadot como Mulher-Maravilha, pois enquanto Gal apenas se limita a usar o mesmo olhar Larson tem uma postura que nos informa algo. No entanto, se trata de um roteiro que a limita em apenas seguir passos superficiais em direção à velha ação de sempre, e nesse sentido ela não está muito melhor que a dona do avião invisível.

Este é o filme da Marvel que homenageia os anos 90. Músicas, a locadora Blockbuster, internet discada e um Nick Fury digitalmente rejuvenecido que convence ainda mais que Kurt Russel no início de Guardiões da Galáxia Vol. 2. Aliás, Samuel L. Jackson está repetindo sua performance como o agente especial com uma leveza e bom humor cativantes do começo ao fim. É dele nosso convencimento a respeito de um gato que ronda seus movimentos ao mesmo tempo que ele nos arranca algumas risadas quase que sem querer.

E por falar em efeitos e atuações, Ben Mendelsohn é o que mais se aproxima de uma atuação com uma certa profundidade que falta aos trabalhos da Marvel, talvez por fazer arco semelhante com a história de Hawkeye em Avengers (Jeremy Renner). Ele em determinado momento do filme ameaça se tornar o protagonista, mas como bom coadjuvante apenas alimenta mais um pouco o drama da protagonista. Todos colaboram a serviço de uma mulher dona de seu próprio destino.

Por fim, Capitã Marvel precisa de alguém para salvar; do contrário não seria uma heroína. Ah, e de preferência refugiados alienígenas, para dar um contexto contemporâneo. Uma reviravolta interessante (e previsível) se configura, e a personagem está completa. Para mais poderes e reviravoltas favor seguir o caminho para o próximo capítulo, Vingadores: Ultimato, na sala ao lado. Obrigado por seu ingresso.

Capitã Marvel ● Captain Marvel. Dirigido por Anna Boden (mulheres primeiro) e Ryan Fleck. Escrito por Anna Boden, Geneva Robertson-Dworet, Geneva Robertson-Dworet , Meg LeFauve, Nicole Perlman, Ryan Fleck. Com Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-12. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?