Cargo

Caloni, November 1, 2010

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Se fosse resumir essa ficção-científica, diria que ela começa como Aliens - O Resgate e termina como Matrix. De fato, muitas características do longa nos lembra esses dois filmes. Porém, longe de se igualar em qualidade narrativa, este cai no lugar comum de passeios contemplativos pelo cenário com trilhas sonoras igualmente batidas.

Pautado em um grande mistério envolvendo o destino de seus passageiros, o roteiro escrito a 8 mãos flerta perigosamente com seus segredos usando uma fotografia nitidamente surreal ao mostrar no início uma bela mulher passeando por um campo de trigo com uma trilha sonora feliz, representando exatamente o oposto do que vemos a seguir: uma fria e gigantesca nave no espaço vazio. Há um esmero acima da média com a direção de arte que se preocupa com detalhes como o desenho dos equipamentos utilizando kanjis orientais e denunciando a origem de sua fabricação, o que cria uma âncora com a realidade de uma China em evolução crescente.

O fato da fotografia na primeira tomada ser tão bela contrapõe-se de maneira gritante com a fotografia do resto do filme, submergida em um escuro deprimente, arrastado por um figurino de roupas desgastadas, comprovando mais uma vez os tempos difíceis que vive a humanidade. Não só isso: o tédio impera no espaço. Quando não estão congelados para economizar tempo de vida, os passageiros nitidamente passam muito tempo sem fazer absolutamente nada de construtivo, como o cubo mágico resolvido na mesa da médica da equipe denuncia. Ao mesmo tempo, a direção previsível de Ivan Engler e Ralph Etter cria um suspense tipicamente forçado com o uso de uma trilha sonora sugestiva e cortes mais rápidos de cena, um lugar comum que não oferece mais escape de boas produções: o espectador já sabe o que o espera e se entedia disso.

No início desse texto dizia que o filme lembrava Aliens. A própria autópsia do comandante morto pela queda já remete ao oitavo passageiro, e a criança encontrada remete à sua continuação. E é interessante que ao mesmo tempo em que a médica corre perigo ainda estamos mais preocupados com o mistério na nave que com a vida dela, o que demonstra como a artificialidade do roteiro faz par com uma direção morna que não se preocupa, por exemplo, com a empatia da protagonista para o espectador.

A despeito dos cortes incessantes que repetem a fórmula do suspense durante toda a narrativa, não há na história um senso simples de continuidade, deixando o espectador mais perdido que interessado nos cortes ríspidos de câmera. Cada sub-conclusão é fechada pelo mesmo fade-out, outro recurso repetido à exaustão até à revelação da verdade, onde há uma mudança radical que poderia ser o trampolim para um pouco de ação intelectual.

Infelizmente o final se importa mais em muitas delongas e o batidíssimo artifício do tempo se esgotando. Ainda bem que eventualmente acaba.

Cargo ● Cargo. Cargo (Switzerland, 2009). Dirigido por Ivan Engler, Ralph Etter. Escrito por Arnold Bucher, Ivan Engler, Arnold Bucher, Ivan Engler, Patrik Steinmann, Thilo Röscheisen, Johnny Hartmann. Com Anna Katharina Schwabroh, Martin Rapold, Regula Grauwiller, Yangzom Brauen, Pierre Semmler, Claude-Oliver Rudolph, Michael Finger, Gilles Tschudi, Maria Boettner. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-11-01. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?