Clímax

Caloni, February 6, 2019

External image

Eu me mantenho em forma o suficiente para subir escadas sem cansar e não ser um total vexame na cama. E posso dizer para família e amigos que cuido de minha saúde, em corpo e espírito. Como costumam dizer, eu me preocupo com meu bem estar. Mas quem são esses jovens de corpos sarados, e por que há tanta mágoa em seus corações? A mente e o corpo são uma unidade. Um templo. Assim como a escola é um templo do conhecimento. E quando se profana esse templo tudo é permitido. Mas nada nos convém.

O diretor Gaspar Noé nos prepara um delírio em forma de filme. Ele usa alguns truques técnicos que sabe usar com maestria, como movimentos de câmera suaves que mudam o ângulo enquanto filmam, com pouquíssimos cortes para manter a tensão do realismo pulsando. Somos avisados no começo que o que veremos foi baseado em eventos reais, e isso ajuda a manter um equilíbrio doentio em muitos momentos entre prazer estético e mal estar.

A música psicodélica é um chamado desde o começo para uma viagem sensorial, que aos poucos vai se tornando extra-sensorial. Esses jovens se entregam à dança como o único refúgio que possuem de uma vida miserável. Ouvimos de seus próprios testemunhos que estão dispostos a tudo para vencer em um torneio de dança e que não houvesse ela em suas vidas o suicídio seria uma alternativa. Nós conhecemos rapidamente o histórico e a relação de alguns desses jovens e por intuição sabemos que a vida que eles levam não vale a pena viver. Ou são jovens franceses mimados que cresceram ouvindo que possuem direito à felicidade. Há uma tênue diferença entre ter direitos e conquistá-los.

Por que falo sobre isso? Há uma bandeira da França como palco onde ensaiam e Deus é citado no final. Algo me diz que a base onde eles foram criados não presta. Apenas intuição. Mas quando eles descobrem estar sob efeito de um alucinógeno, passa a ser certeza. O corpo é sarado e a mente é uma bomba relógio. Você pode dizer que estou sendo moralista, mas o reflexo do próprio filme e seus personagens me diz isso. Aborto, incesto, baixa estima, sexo de escape e rancores entre todos. Acompanhamos as desavenças entre eles através de diálogos. E apenas se passaram três dias de ensaio.

Há uma falha grave, contudo, em toda essa história de desastre. Essas pessoas são extremamente desagradáveis. Egocêntricas. Falsas. Isso explica por que os desentendimentos passam a ficar mais extremos, mas ao mesmo tempo essas pessoas não servem para o espectador depositar nelas sua empatia. Ele pensa no meio de tudo isso: que se matem.

O que resta de “Clímax”, então, é seu efeito estético, a experimentação, a técnica. Essa é intensa, nos puxa para dentro do filme e não nos deixa mais sair. Andamos junto da câmera entre idas e vindas de corredores intermináveis e ficamos imaginando o que deve estar acontecendo onde não estamos olhando. Os gritos e gemidos de fora da cena serve para isso. Mas nunca é algo que estamos verdadeiramente interessados em saber. E por isso o filme precisa nos exibir dizeres sobre a vida e a morte para se tornar relevante.

E voltamos para a França, essa grande ficção, onde os cidadãos se ajudam, todos juntos, em uma grande comunidade diversa e tolerante. Essa imagem é o que vemos no palco. E a realidade é o que acontece quando colocam ácido de realidade na bebida. E nem isso é novidade, na arte e na vida. “In vino veritas”. Saúde.

Clímax ● Climax. França, Bélgica, EUA, 2018. Escrito e dirigido por Gaspar Noé. Com vários dançarinos e Sofia Boutella. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-02-06. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?