Corra, Lola, Corra

Caloni, April 27, 2019

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Esse filme é o prêmio que todo cinéfilo espera depois de assistir a vários filmes medíocres que seguem a mesma fórmula. “Corra, Lola, Corra” não é um deles. Ele quebra barreiras linguísticas (sobre a linguagem do cinema). Ele explora a mescla entre realismo e fantasia. Ele permite que o espectador acompanhe três versões de roteiro e as compare. E ele tem uma das trilhas sonoras mais perfeitas do cinema.

A heroína é Lola (Franka Potente), que se veste como personagem de vídeo game e com seu cabelo vermelho a destaca do mundo que a cerca. Ela precisa correr. Seu namorado, Manni (Moritz Bleibtreu), precisa de 100 mil em 20 minutos ou está morto. Ele perdeu o dinheiro para um mendigo, que aliás é uma pessoa de carne e osso e não esses estereótipos de mendigo de filmes nova-iorquinos zumbificados.

Este é um filme que foi infeccionado pelo vírus do vídeo-clipe. Ele inteiro parece um. E isso não é uma coisa ruim, pois é exatamente isso que essa história precisa para ganhar dinamismo. Lola sai correndo pelo corredor e ao descer as escadas vemos na tela da TV de sua vizinha o desenho dela própria correndo uma escadaria infinita. Aparece um obstáculo: um garoto e seu cachorro raivoso. Você não os vê em detalhes no filme, apenas no desenho. E isso instiga nossa mente a trabalhar com uma versão da realidade levemente fantasiada, onde alguém gritando pode estourar vidros.

A direção desse filme está obcecada em perfeccionismo. Há muitas cenas que você sequer percebe o virtuosismo técnico, mas ele está lá. Está nos ângulos que a câmera se coloca dentro da cabine telefônica onde Manni espera por Lola. Está em Lola correndo vista de cima e sem cortes vista de frente. Está em um cassino onde a bola caindo na roleta possui uma física impossível. (Tenho quase certeza que eles tiveram que fazer um modelo aumentado para esse efeito, e ao tentar pensar nos efeitos é revelado o quão intrincado é fazer um filme desse.)

Ele é rico em linguagem também. Usa o som de uma câmera fotográfica e fotos de possíveis futuros das pessoas que Lola encontra pelo caminho (o que também nos faz pensar constantemente em quando será o destino de Lola e Manni). Este filme também está infectado com o vírus do efeito borboleta. E por falar em fotos, ao final de cada versão da história de Lola e Manni os vemos em um lugar coberto da luz vermelha, como se eles fossem negativos a ser ainda revelados, seu destino ainda incerto. Isso é poesia em sétima arte.

Nunca um filme foi tão conciso, ritmado, ambicioso como esse. Ele confia completamente em sua premissa e nunca a larga, investindo cada segundo em deixar o espectador grudado na tela contando os segundos. Há filmes que deixam um gosto ruim na boca porque prestamos atenção demais para algo que não merece o nosso respeito. “Corra, Lola, Corra” não é um deles. Pode mergulhar fundo, a recompensa estará espalhada pelo percurso. Por três voltas.

Corra, Lola, Corra ● Lola rennt. Alemanha, 1998. Dirigido e escrito por Tom Tykwer. Com Franka Potente, Moritz Bleibtreu, Herbert Knaup. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-04-27. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?