Despedida em Las Vegas

Caloni, October 22, 2011

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Talvez eu seja vítima da regra dos 15 anos – a que reza que qualquer filme visto antes dos 15 anos continua em nossa memória como bom – mas Ben e Sera foram dois dos personagens mais queridos da minha juventude de cinéfilo. Adorava a entrega completa de Nicholas Cage e de Elizabech Shue em seus papéis que ainda considero os melhores de ambos, em um filme deprimente do começo ao fim. Essa minha revisita continua a confirmar o fato de que, se Cage costuma ser criticado por overacting, aqui praticamente esquecemos que existe algum ator por trás do divertido, patético e trágico Ben Sanderson.

Mas, agora, lembrando, vejo que talvez não tivesse sido uma boa ideia ver um filme desses antes dos 15 anos.

A história não poderia ser mais simples: Ben (Cage) é um roteirista que, vítima da bebida, se torna um alcoólatra inveterado e acaba perdendo o emprego. Decide então, largar tudo e se embebedar em Las Vegas até a morte. O passado de Ben é mencionado brevemente através de uma foto com mulher e filho, foto essa que queima em uma pilha de pertences que ele deixa para trás rumo ao seu suicídio etílico. Tudo o que temos é a impressão do próprio Ben: que em algum momento desconhecido de seu passado ele tinha uma vida feliz e normal.

Sera (Shue), por sua vez, é uma prostituta que veio com seu cafetão de um país do Leste Europeu e que mantém com ele uma relação doentia, ao ponto de sofrer humilhações e agressões. Exatamente pela única pessoa com quem poderia ter um contato afetivo ser um anormal é com que faz com que Sera sinta-se cada vez mais só e desamparada, e é admirável constatar que Elizabeth Shue desempenhe tão bem as funções de prostituta em Las Vegas e companheira de Ben/Cage em seus últimos dias.

Aliás, para o bom funcionamento do filme, foi vital que o encontro entre os dois fornecesse essa química que percebemos desde o primeiro diálogo próximo entre eles, para entendermos quais as razões de ambos para estarem juntos. Mais importante ainda, é constatar que este não é um conto de fadas, e ambos têm consciência de seus atos. Às vezes imagino o filme sem as participações de Sera em uma espécie de analista, em que ela abre seus sentimentos em relação a Ben, mas considero hoje uma função não-descartável da narrativa pelo fato dela, apesar de prostituta, ser extremamente tímida (mais uma complexidade digna de aplausos na constituição do personagem de Shue, que não se entregou ao estereótipo fácil e tão comum no Cinema e na vida).

Ben, ao contrário, é um ser totalmente exposto, exposição essa que por conta da bebida chega a torná-lo até patético em muitos momentos, mas em nenhum deles ele perde a empatia do espectador, fazendo algo desagradável ou repugnante (o que demonstra não só a entrega de Cage ao papel, como o total controle que este tem em seu personagem). Seu andar cambaleante e sua cabeça cabisbaixa pode até soar estereotipado, mas a forma de fazer graça e adicção de sua fala são tão expressivas que sequer notamos estar diante de um bêbado típico.

O clima depressivo do filme é ajustado (leia-se aumentado) através de uma seleção inspiradíssima de músicas que evocam ritmos mais lentos e reflexivos (aliás o próprio diretor e Cage participam na confecção de algumas trilhas). Os ângulos da câmera e a fotografia distorcida gera tanto a sensação que a bebida causa em Ben quanto a concepção artística de Las Vegas como uma cidade que vive de dejetos humanos e de falsidades. A relação de ambos com as outras pessoas também é sempre baseada nessas assumpções, o que reforça mais ainda o sentimento de excluídos e às margens da sociedade).

É trivial falar que ambos os atores fizeram sua lição de casa para viveram personagens tão marcantes, chegando Cage a frequentar o “AA” e Shue a ter conversas de campo com garotas de programa. Porém, ainda sou levado a acreditar naqueles casos de filmes que são feitos no lugar certo pelas pessoas certas. O resultado nesse caso não poderia ter sido melhor.

Despedida em Las Vegas ● Despedida em Las Vegas. Leaving Las Vegas (USA, 1995). Dirigido por Mike Figgis. Escrito por John O'Brien, Mike Figgis. Com Nicolas Cage, Elisabeth Shue, Julian Sands, Richard Lewis, Steven Weber, Kim Adams, Emily Procter, Stuart Regen, Valeria Golino. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-10-22. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?