Dolls

Caloni, March 26, 2019

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Dolls é um filme lento, mas suas três histórias de amor são arrebatadoras. Não são convencionais, e muitos não chamariam de amor, mas não se pode dizer que não são histórias fortes, que mexem com nossos instintos de preservação. Essas pessoas entregaram suas vidas ao destino. Nenhuma é recompensada. E ainda é um filme lindo.

A analogia é óbvia e martelada desde o começo até o final. Bonecos de teatro japonês são personagens manipulados por pessoas que fazem o papel do destino, movendo-os além de si próprios. Eles lamentam, choram, mas não desistem. Os bonecos não possuem alternativa exceto seguir seus donos. Se esses bonecos fossem seres humanos poderíamos dizer que por mais doloroso que possa ser sua única razão de ser é seguir as forças invisíveis do destino.

Quando surge em cena um casal unido por uma corda, andando a esmo, de maneira melancólica, em meio às famosas e lindas cerejeiras japonesas, a mensagem se torna clara. Para a comunidade eles são os “mendigos amarrados”. Nenhum dos dois parece ligar para o apelido. O peso que eles carregam é muito maior que o motivo de piada de desconhecidos. E quando descobrimos esse motivo o drama do filme passa a nos controlar como bonecos.

Este é um filme que não consegue evitar nos deixar compenetrados por suas três histórias, porque elas são muito boas. Elas carregam ensinamentos que ultrapassam eras e convenções sociais. Ainda assim, o diretor Takeshi Kitano e sua equipe possuem em um esmero admirável, seja na montagem (também de Kitano) ou na econômica mas pensativa trilha sonora. E suas lindas paisagens naturais, fotografadas com uma luz sobrenatural, evocam o poder da luz e cores acima dos desejos humanos. Este filme ganhou vários prêmios técnicos pelo mundo, e assistindo ele torna-se compreensível.

O elenco, por sua vez, é levado pela direção completamente. As interpretações são esquemáticas. Isso economiza atuações, além de aqui funcionar maravilhosamente bem. Há pouquíssimo diálogo e a narrativa é construída praticamente na montagem, na direção de arte, no figurino. Há uma mulher que aguarda a vida inteira pelo seu namorado, todo sábado esperando por ele com seu almoço no parque. Ela usa sempre o mesmo vestido. É o mesmo vestido por décadas? Ela fez mais vestidos com o mesmo tecido? O filme te dá brecha para pensar em tudo isso. Seu ritmo é contemplativo justamente para isso.

Conforme a história migra do caos urbano para a natureza sólida, vamos nos acostumando com a não-passagem do tempo. Existe apenas o passado a se lamentar, mas o presente continua sempre o mesmo. A meia-hora final, belíssima e poética, diz coisas sem verbalizar sobre destino, persistência, paixão, ironia. Seus personagens se tornam finalmente meros bonecos movidos pelas mãos habilidosas e invisíveis da natureza. Não há como fugir. E quem faria isso? A própria razão de ser é seguir, amarrados, a quem nos dá o único consolo na existência.

Isso só me faz lembrar da profunda e libertadora frase de Francis Bacon: “a natureza para ser comandada deve ser obedecida”. A natureza do filmaker Takeshi Kitano é fazer uma obra de arte. E graças aos céus que ele não lutou contra seu destino.

Dolls ● Dolls. Japão, 2002. Dirigido e escrito por Takeshi Kitano. Com Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Tatsuya Mihashi, Chieko Matsubara, Kyoko Fukada, Tsutomu Takeshige. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-26. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?