Donnie Darko

Caloni, May 10, 2019

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Quase 20 anos depois, Donnie Darko é um pequeno milagre dos filmes lado B de baixo orçamento. Com um elenco misteriosamente relevante – vários atores se tornaram revelações – e a profunda ideia de chacoalhar a sociedade americana com sua crítica às soluções imediatistas baseadas em pílulas, terapia e auto-ajuda, sua viagem no tempo é a cereja no bolo de uma história que não permite que coloquemos ou tiremos nada, mas que ao mesmo tempo permita tantas interpretações diferentes.

Esta é uma versão dark e distorcida que mistura elementos de De Volta Para o Futuro com Efeito Borboleta, além de ser uma clara inspiração a Beleza Americana, que ganhou o Oscar por ser mais “adulto”. Porém, o filme de Kevin Spacey possui em seu pano de fundo a mesma sociedade e a mesma crítica (e, ponto seja dado, foi precursor a Darko). Por ser baixo orçamento, este é um trabalho bem mais solto, e nos leva a de fato questionar o que é está realidade que vivemos, em vez de simplesmente condená-la.

Analise a questão comigo, e veja o que é melhor: um jovem morrer tragicamente em um acidente inexplicável ou seus 28 dias tortuosos e incômodos que se seguem se ele não tivesse morrido? Donnie Darko só nos permite saber dessa pergunta em sua revisita, mas da primeira vez o impacto é sentido de forma inconsciente pela sua música-tema, Mad World (mundo insano), tocada nos momentos finais do filme. Faz refletir ao mesmo tempo que consola. Agora é a hora que você vai no Spotify e dá play nessa música.

O que torna este um trabalho exemplar de Cinema é seu protagonista-título (Jake Gyllenhaal), pelo que ele representa na história. Ele é a peça do quebra-cabeça que não deveria existir, mas que existe mesmo assim, e recebe recados de um agente do futuro que usa uma máscara bizarra de coelho. Esses recados se misturam com ordens de inundar a escola ou queimar uma casa. Ele não sabe por que isso é importante, mas não tem escolha.

Qual a diferença disso para os jovens suicidas que entram armados nas escolas para cometer assassinatos em massa? Não seria Darko uma versão mais palatável dessa vontade ao mesmo tempo insuportável e incontrolável de alguns jovens de por um fim em tudo isso? O filósofo/psicólogo Jordan Peterson descreve em seu livro 12 Rules uma base racional pelo qual eles têm seus motivos para cometer essas atrocidades, como um sentimento auto-destrutivo, mas note que apenas em uma sociedade como a americana se cria ambiente tão propício para um comportamento como esse.

Dada a complexidade alcançada por um filme dirigido de maneira tão despretensiosa e mais focado em seu lado sci-fi, é provável que nem o diretor/roteirista Richard Kelly tenha pensado seriamente no assunto, e como ele nunca mais se destacou no cinema novamente é até plausível (seu último trabalho, o péssimo A Caixa, já tem dez anos). Mas como eu falei no início, se trata de um pequeno milagre ele ter capturado a essência desse tema em detalhes de uma família e comunidade disfuncional que aos poucos se tornarão relevantes para o acontecimento principal.

Porém, o que torna Donnie Darko um trabalho complexo é o seu lado sci-fi. Constituído com um equilíbrio insano mantido durante todo o filme entre pelo menos duas versões da história, ao final podemos concluir com peso igual de probabilidade que esta é 1) a história de uma viagem no tempo que cria um loop temporal incompreensível ou que esta é 2) a narrativa de um garoto esquizofrênico com sérios problemas de auto-controle, e a única cena que nos diz em qual devemos acreditar é a que segue logo depois da música Mad World.

Qualquer adolescente maníaco o suficiente para criar teorias sobre os Smurfs aplaudiria de pé Donnie Darko. O filme ou a pessoa responsável pelos únicos momentos sanos daquela história.

Donnie Darko ● Donnie Darko. (USA, 2001). Dirigido e escrito por Richard Kelly. Com Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, James Duval, Arthur Taxier, Patrick Swayze, Mark Hoffman. Texto original de 2010-12-20. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-10. Revisto em 2019. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?