Família Rodante

Caloni, April 29, 2019

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Pablo Trapero nos entrega a experiência completa do que era uma família no tempo de nossos pais/avós. (Era, porque a família foi destroçada pelos marxistas culturais.) Todos os elementos estão no filme. As fotos inapropriadas que servirão para os mais velhos alimentarem suas memórias. O amor juvenil entre primos e as traições, que fazem rima com as declarações de amor eterno dos noivos. A matriarca e suas opiniões antiquadas, que soam familiares e por isso não conseguimos simplesmente dizer que ela está errada. Quem diria isso para a própria mãe ou avó?

Este é um road movie do começo ao fim. Depois de muito tempo sem se verem, em uma reunião a vovó recebe a notícia que sua sobrinha irá se casar e que ela foi escolhida como madrinha. Ela emocionada declara que todos irão para a festa, e ninguém consegue dizer não para a anciã próxima do fim da vida com felicidade nos olhos. Ao mesmo tempo ela sabe que não será uma viagem fácil, o que faz sua pressão subir.

A viagem feita em um trailer parte de Buenos Aires para o extremo norte do país, na província de Misiones, quase em Foz do Iguaçu, o rio à frente demarcando o limite com o território brasileiro. A paisagem inicia desértica com avestruzes em volta da estrada e vai ficando um verde vivo e ao mesmo tempo saudosista, daquelas fotos de anos 70 ou 80 de passeios pelo campo. O motorista é o orgulhoso e mal-humorado Tio Gordo (e toda família tem um tio gordo… eu tinha), que não deixa ninguém mexer em seu trailer e que olha para o cunhado com um misto entre desconfiança e desprezo.

Há a bordo um casal de primos e uma amiga. A tensão sexual vista pelos olhos de Trapero sempre é sensual ao mesmo tempo que natural. E lindo. O contraste entre as gerações é um assunto recorrente, que o filme consegue abordar simplesmente mostrando as interações entre essas pessoas e como cada uma reage aos acontecimentos da viagem.

O garoto mais novo da família acha um cachorro em um posto e o adota. Vemos a mãe dele lavando o pobre coitado dentro do vaso sanitário do trailer. A vovó, sempre com calor, reclama a viagem inteira. Quem tem pessoas mais velhas na família irá se identificar muito. Aliás, toda a viagem é a vida inteira em família resumida em um fim-de-semana.

Este é um filme que usa o naturalismo de suas situações e tem a vantagem de um diretor obcecado pelo controle da câmera, entregando o melhor de dois mundos: uma história que evoca a vida real com um filtro estilizado que torna aquela pobreza das situações de uma beleza bucólica. Nunca se torna enfadonho, sempre está preocupado em mostrar a evolução das histórias paralelas e de seus personagens. Acompanhamos oito, nove pessoas e depois de dois dias as conhecemos como se fizesse parte da família.

Família Rodante ● Familia rodante. Argentina, Brasil, França, Alemanha, Espanha, Reino Unido, 2004. De Pablo Trapero, com Graciana Chironi, Nicolás López, Liliana Capurro. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-04-29. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?