Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2

Caloni, July 22, 2011

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Prólogo Um filme que carrega o peso de uma saga que dura quase dez anos merece um final, no mínimo, apropriado. Felizmente, nas mãos do visualmente habilidoso David Yates, essa premissa é cumprida com louvor.

Iniciando em 2001 com um longa feito praticamente para o público infantil, a história do menino bruxo que sobreviveu à morte dos seus pais ganhou contornos nunca antes vistos. O crescimento dos atores e dos personagens que estes interpretavam coincidiu com o crescimento do seu próprio público - muitos leitores dos livros originais, outros não - e, de uma certa maneira, com o crescimento e amadurecimento da própria saga. Posso confessar, sem vergonha nenhuma, que o primeiro filme me desanimou muito, a ponto de me fazer pular as sessões de cinema do segundo e terceiro. No entanto, ao dar uma olhada mais de perto pude perceber esse detalhe fascinante do crescimento da história e dos seus personagens, o que me fez voltar ao cinema, ato este do qual nunca mais me arrependi.

A evolução da saga fez coincidência com a minha própria evolução como cinéfilo. A cada novo filme enxergava mais coisas e encontrava mais significados. Não havia repetição. Cada novo filme era uma possibilidade nova de enxergar outros aspectos do universo fascinante criado por J. K. Rowling. Porém, como todo universo criativo, um dia ele deve chegar, não ao seu fim, mas à sua eventual conclusão. Para muitas séries defasadas, o fim chega a ser até um alívio. Nesse caso, contudo, pode-se dizer que foi uma triste, mas necessária, despedida.

Início O último filme é a segunda parte da divisão cinematográfica que foi feita do sétimo livro, que continua na busca do trio Harry, Ron e Hermione, pelas últimas três Horcruxes de Voldemort que, se destruídas, conseguiriam evitar a imortalidade que este persegue desde a sua infância como Tom Riddle. Ainda que com uma fotografia igualmente sombria, o tom psicológico muda de figura. Diferente do isolamento físico do trio principal presenciado na primeira parte, temos a reunião dos bruxos contrários à ditadura do Lorde das Trevas, e tentam, portanto, resistir bravamente até o último momento.

Com um início mais do que emocionante, o roteiro de Steve Kloves mais uma vez impressiona por inserir no meio da trama as razões que levaram um certo personagem-chave às suas ações, incluindo aí uma reviravolta nada menos do que espetacular, pois nos faz passear por todos os detalhes de todos os livros da saga. A mágica, nesse caso, sai da própria história, e nos faz pensar sobre a ambiguidade em vários momentos da trama. Mais do que isso: consegue resumir uma lição muito importante sobre a vida e sobre a nossa própria geração, que se acostumou com uma figura do mal não necessariamente má em sua maneira de ver a vida. Se o próprio Magneto dos X-Men consegue argumentar com motivos válidos porque ele não confia na humanidade, e portanto, realiza ações condenáveis pelos humanos, aqui navegamos pelo consciente do próprio personagem-chave, onde conseguimos capturar a essência dos seus atos e, por fim, entendê-lo por completo. Se os livros de Rowling conseguiram esse efeito, não sei dizer. Porém, a mágica do cinema é construída exatamente com essa expressão visual, e da mesma maneira essa passagem demonstra que o próprio bem, às vezes, fica estereotipado por tantas vezes que acaba nos enganando quando toma vestes de uma realidade intangível até então.

Aliás, como não-leitor dos livros de Rowling, é preciso dizer que o maior mérito da saga como filme é funcionar bem unicamente para o cinema, sem depender de muletas que muitas vezes são necessárias para que uma história adaptada literária funcione de forma coerente. Nas últimas produções da saga, então, é preciso dizer mais: a direção de Yates praticamente recria Hogwarts e seus personagens e os desprendem de sua visão romantizada, inserindo-os, por exemplo, no contexto político do quinto e sexto filmes.

Um ótimo exemplo dessa adaptação é quando vemos Voldemort empunhar a sua poderosa varinha. Note como a câmera realiza um magnífico travelling em torno dela, denunciando suas rachaduras e mostrando visualmente, portanto, que algo o está debilitando. Da mesma forma, em outro exemplo que foge ao livro são os momentos que Harry e Voldemort são atingidos ao mesmo tempo por uma força invisível, capacitando o espectador unicamente cinematográfico a entender a ligação essencial entre os artefatos (as relíquias da morte) e a dupla herói e anti-herói.

Ainda sobre as adaptações para o filme, as devidas homenagens aos tantos personagens que, às vezes por breves momentos, outras vezes por vários filmes, fizeram parte desse universo, é feita de maneira orgânica na narrativa. Confiante na memória e carinho do espectador pela trama, o diretor e sua equipe chegam a nos apresentar elementos episódicos de “anos” atrás, como o pomo de ouro, em uma demonstração exemplar de respeito ao espectador inteligente e atento, ao mesmo tempo que evita supérfluas explicações que tornariam a história desnecessariamente longa.

Mais importante do que trazer os antigos personagens à tona, porém, é permitir que a batalha de Hogwarts traga todos os atuais em sua final e emocionante participação. Dividindo a batalha em momentos mais episódicos, o roteiro se aproveita dos múltiplos cenários e situações para manter o equilíbrio entre ação e diálogos que vão preenchendo a conclusão final da história maior. E apenas o fato de não percebermos a complexidade em orquestrar tudo isso de maneira harmoniosa já é digno de aplausos.

Decorrente dessa união visual que se estabelece de uma maneira progressiva, tanto em tensão como em emoção, o conflito final consegue passar o devido recado de jornada que se termina. E é como se tivéssemos percorrido, assim como Harry, essa longa jornada de proporções épicas, e estivéssemos ali, em puro êxtase, vislumbrando cada pedacinho de cena e cada movimentozinho de câmera. Um deleite cinematográfico como poucos que hoje se consegue provar em uma sala de exibição. O sentimento que fica, felizmente, é de missão cumprida.

Epílogo Não é fácil se separar de personagens que acompanhamos de longa data. Para os mais jovens, então, o impacto do desprendimento deve ser tão grande quanto a perda real de um ente querido. Não acredito que o universo de Harry Potter fique esquecido por muito tempo. Porém, até aqui, foi muito frutífero para o cinema.

A ideia de um epílogo já existia no livro original, e no filme ficou com a impressão não muito discreta da possibilidade de novas histórias baseadas em uma suposta segunda geração. Mesmo não sendo uma promessa, há o apelo comercial, e se vier, não terá sido uma má ideia. Quando se cria um universo tão rico como esse, a sensação que fica é a de que a mágica desse mundo nunca pode acabar.

Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 ● Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2. Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2 (USA, 2011). Dirigido por David Yates. Escrito por Steve Kloves, J.K. Rowling. Com Ralph Fiennes, Michael Gambon, Alan Rickman, Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Evanna Lynch, Domhnall Gleeson, Clémence Poésy. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-07-22. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?