José e Pilar

Caloni, November 5, 2010

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Este é um documentário que conta, com imagens caseiras e inusitadas em eventos públicos, os últimos anos do escritor português ganhador do prêmio Nobel José Saramago e sua esposa, Pilar. Por meio de uma semi-intrusão na vida alheia do casal, acompanhamos as viagens que ambos fizeram pelo mundo afora após ele ter ganho o prêmio.

Com esse filme percebemos a dedicação de sua esposa para com a carreira do marido, além do reconhecimento deste que, sem Pilar, não seria nem a metade do que era. Dentro desse ponto de vista é tocante perceber que o filme retrata exatamente esses dois personagens dessa maneira distinta. Se de um lado vemos Pilar ir de um canto ao outro, com uma câmera que denota movimento constante (e como por vezes é percebido ela falando enquanto está dentro de um ônibus ou algo que o valha), do outro lado temos a reflexão e serenidade de Saramago, sempre recheado com seus pensamentos originais e inusitados, ou muitas vezes com uma cena um tanto parada sendo banhada de sabedoria com a narração em off do próprio Saramago e alguma passagem de um de seus livros.

Para os fãs, temos momentos que são especialmente emocionantes, pois acompanhamos também a escrita de um novo livro, do início ao fim, além da recaída na saúde que teve no meio dessa nova obra.

De acordo com o próprio Saramago, tudo é autobiográfico, pois tudo o que fazemos é o que nos define e que faz marcas no mundo, como esse belo documentário demonstra, aparentemente criado de maneira informal e amadora, e que acaba, por isso mesmo, dando uma espontaneidade na história que pouco se vê em documentários mais bem formatados.

É revoltante e chocante a leitura de cartas agredindo o escritor por este ser ateu ou comunista. Muitas, em sua ignorância, desconhecem a própria existência do escritor e sequer sabem se trata-se de um homem ou mulher (como uma carta que o tratava como Sara Mago).

O monólogo sobre sua crença em Deus, logo no início, dentro do carro, é breve e resume completamente tudo que se diz respeito às suas descrenças. Porém, voltamos ao tema uma vez ou outra, pois é uma das pedras no sapato de muita gente.

Os “moinhos de vento” que vemos ao fundo, em uma das imagens iniciais, são os mesmos nas imagens finais, como se o filme quisesse realmente criar um pequeno arco em torno de si, como é testemunhado na cena inicial (dedicatória a Pilar) que é repetido no final (“nos encontramos em outro sítio”). Ou o fato de José se reencontrar com os ossos da pata do elefante que é tema de seu último livro.

Ao mesmo tempo, vemos a opinião do celestial igualmente renegado por sua esposa, de uma forma diferente, mais baseada na ação, característica da personagem: ela explica como a necessidade de estar sempre em movimento na vida, pois a eternidade é algo impossível de cabar em nossa cabeça, e será o que teremos após a morte.

As memória de seu diário, como uma pequena nota a cada dia, são narradas igualmente em off, como passagens de seus livros, e ganham um significado a mais por estarmos vendo cenas exatamente do dia em que ele fez a nota.

O pós-casamento, além de naturalmente emocionante, possui muito mais significado, pois aquele casal já vivera seus 20 anos juntos, e a dedicação de ambos um pelo outro já foi provada diversas vezes; o casamento ganha o significado muito mais enriquecedor de prêmio final do que uma promessa inicial. E o fato de acompanharmos a vida do casal já há mais de uma hora torna essa cena enriquecedora da relação de ambos.

Combinando palavras e imagens de maneira a um complementar o outro, José e Pilar nunca ganha falta de interesse, pois são enriquecido hora pelos textos e pensamentos de Saramago, outras pela agenda lotada que sua esposa insistentemente tenta organizar.

Com uma fotografia pálida, amarelada, talvez prenunciando o fim dos dias do escritos, ou talvez a nostalgia de ter vivido esses últimos momentos. Não se sabe ao certo, mas possui uma certa uniformidade.

Mais uma cena igualmente emocionante, Meirelles e ele vendo o filme juntos.

José e Pilar ● José e Pilar. José e Pilar (Portugal, 2010). Dirigido por Miguel Gonçalves Mendes. Com Joao Afonso, Àngels Barceló, Pilar del Río, Juan Echanove, Gael García Bernal, Gabriel García Márquez, Tarja Halonen, Paco Ibáñez, Tomás Eloy Martínez. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-11-05. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?