Medianeras Buenos Aires da Era do Amor Virtual

Caloni, September 11, 2011

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Estreia de Gustavo Taretto na direção de longas, Medianeras inicia já com uma proposta criativa e que funciona muito bem: com dois narradores em off, temos a impressão de assistir a dois filmes interlaçados que aos poucos se aproximam, o que por si só já revela muito sobre as ideias por trás da história.

Há uma quantidade relativamente grande de metáforas sobre a cidade grande, o espaço urbano onde vivemos e o que isso reflete em nós mesmos, nas nossas relações, chegando a combater em criatividade com o Fabuloso Destino de Amélie Poulain. O uso de “apertamentos” e seus montes de tralhas espalhados ajudam a estabelecer a confusão mental/desorientação dos personagens pela própria bagunça do local. Além disso, o uso de sombra e penumbra revela o quanto nos escondemos por trás de tudo isso.

A escolha de músicas a dedo torna o filme e trilha sonora elementos indissociáveis, e até os momentos de silêncio, ou a pausa do vizinho pianista são milimetricamente sincronizados para gerar esse efeito (e a mudança de tom na segunda música de certa cena é sutil o suficiente para não soar caricato, mas sim ajudar-nos na aproximação de Mariana e seus sentimentos depressivos).

E ainda que a história gire em torno do casal interesse romântico, em muitos momentos o filme revela traços de nossa loucura em morar em complexos de cidade grande. A piscina lotada, por exemplo, denota a vida amontoada de pessoas desconhecidas, o que faz da vida na cidade ao mesmo tempo solitária, super-populosa e barulhenta (e a briga que ocorre demonstra de maneira econômica o paradoxo da falácia da atividade saudável/relaxante).

É curioso que o filme consiga transmitir a empatia dos dois personagens, o que nos faz gostar deles como um casal antes mesmo que eles se encontrem (e a torcida para que isso ocorra parece aumentar a cada “encontro casual”). Também é significativo que, enquanto pouco falam, suas descrições soam quase sempre poéticas (como a visão romântica das medianeras como parte de nossa personalidade que preferimos esconder).

Revisita

Assistindo pela segunda vez (agora na Netflix) por esta estreia do diretor Gustavo Taretto duas coisas ficam mais claras: 1) é um filme fofo, casual e bem amarrado; 2) é um filme óbvio, descritivo à exaustão. Não me senti tão incomodado na primeira vez de ter que ouvir as descrições repetitivas de como a cidade é caótica, de como a internet nos tornou mais distantes, de como o planejamento das grandes cidades está cada vez mais nos espremendo em uma vida sem sentido, blá-blá-blá, etc.

No entanto, os personagens flutuam muito bem nessa áurea depressiva graficamente exposta por uma penumbra que nunca se ilumina. Há sempre um canto escuro em seus apartamentos, e é nesse canto que muitas vezes os nossos heróis da vida moderna insistem em sobreviver. No entanto, suas desventuras amorosas fazem rima com a martelada incessante a respeito de nós mesmos.

Talvez uma discussão necessária sobre o mundo cada vez mais virtual e paradoxalmente desconectado. Com certeza a insistência em dizer-nos isso é uma fala grave de narrativa que nos afasta cada vez mais.

Medianeras Buenos Aires da Era do Amor Virtual ● Medianeras Buenos Aires da Era do Amor Virtual. Medianeras (Argentina, 2011). Dirigido por Gustavo Taretto. Escrito por Gustavo Taretto. Com Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Inés Efron, Adrián Navarro, Rafael Ferro, Carla Peterson, Jorge Lanata, Alan Pauls, Romina Paula. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-09-11. Revisto em 2013. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?