Meia-Noite em Paris

Caloni, July 31, 2011

External image

Quando sabemos estar admirando o último enquadramento de meia-noite em Paris, é de doer o coração. O longa de Allen não só empolga, e muito, no início, como mantém suspenso o interesse pelos personagens (que não são poucos). Acredito que, se fosse possível, assistiríamos mais duas, três, ou até quatro horas de filmagem nesse universo criado por Allen.

Essa característica de tornar os diálogos e as situações sempre interessantes é uma das maiores marcas do cineasta. Diretor de cinema autoral, basta assistir os 15 primeiros minutos de qualquer filme de sua obra para percebermos diversas particularidades que só existem em seus filmes: a ironia, o medo da morte, a beleza da vida na cidade grande, os grandes temas da humanidade.

Dessa vez ele pega Owen Wilson como seu comparsa para que ele reproduza todos os trejeitos de quando Allen atua, fazendo-o se tornar um dos seus representantes mais fiéis. É nítido em sua forma de falar e até em seus gestos, mas mais sutil quando confessa possuir traços menos nobres em sua personalidade, como o sentimento de inferioridade ou o já citado medo da morte.

Mas não é só no roteiro que Meia-Noite empolga: a forma de filmar está aprimorada. A divisão que a fotografia faz, por exemplo, entre os dois mundos que Gil participa, o dia e a noite, é sutil o suficiente para não soar forçado, mas significativo o bastante para que percebamos sem esforço. Há todo um capricho com o mesmo cuidado nas transições criadas por Alisa Lepselter (montadora habitual de Allen), que consegue transitar entre os diversos momentos de uma forma econômica e orgânica. Note, por exemplo, quando Gil deixa Adriana partir e ao mesmo tempo já inicia uma conversa com o excêntrico Salvador Dalí (interpretado por Adrien Brody, que se diverte). Da mesma forma, a recriação da morada de Gertrude Stein (outra bela interpretação de Kathy Bates), historicamente o ponto de encontro dos gênios artistas do início do século, serve metaforicamente como o ponto de encontro de Gil e suas novas amizades.

Com uma conclusão talvez atabanada demais, Allen conclui um dos mais belos trabalhos dessa duas décadas, que já nos brindou com bons e ótimos filmes (O Sonho de Cassandra, Dirigindo no Escuro e Tudo Pode Dar Certo na primeira categoria, enquanto Vicky Cristina Barcelona e Match Point na segunda). No seu ritmo atual de um trabalho, é sempre agradável saber que, pelo menos uma vez ao ano, temos a chance de assistir mais uma obra de um dos mestres da ironia e da celebração da vida.

Meia-Noite em Paris ● Meia-Noite em Paris. Midnight in Paris (Spain, 2011). Dirigido por Woody Allen. Escrito por Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Maurice Sonnenberg, Thierry Hancisse. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-07-31. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?