O Artista

Caloni, February 16, 2012

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Logo no início do filme, me senti acompanhando uma digna e merecida reverência ao Cinema Mudo, presente nos primórdios da arte e que acabou durante a década de 30 (mesmo ainda com defensores ferrenhos e influentes, como Chaplin). Porém, mesmo que você não entenda nada de arte cinematográfica vale a pena acompanhar o arco dramático de George Valentin, que vivia seu auge no cinema ainda não-falado (apenas com músicas de fundo, geralmente tocadas ao vivo por uma orquestra), e que subitamente foi afastado pela novidade dos personagens que agora falavam diretamente, e não com a ajuda dos cartões de falas colocados após alguma declaração importante.

De ambas as formas é possível aproveitar o filme, pois ele contém em seu desenvolvimento detalhes de filmagem, direção e produção que, discretos mas ao mesmo tempo reveladores, dão uma ótima noção do que era fazer cinema naquela época (e até atualmente). Ao mesmo tempo, para quem já conhece um pouco mais de todo o processo, vai se divertir com as referências — óbvias e sutis — de várias obras da História do Cinema. Muitas dessas referências, aliás, são tão sutis que revelam sua fonte unicamente pela sua forma visual de contar a história. Dessa forma, é possível respirar um pouco de Cidadão Kane, por exemplo, mas sem apontamentos claros sobre o filme (com exceção da cena da mesa de jantar). Ou acompanhar uma trágica cena que remete diretamente a Cinema Paradiso (note o formato da casa onde isso ocorre), sem constituir plágio, mas uma elegante referência.

Brincando o tempo todo com o Cinema como metalinguagem — como, por exemplo, durante um hilário e angustiante sonho do protagonista — , a direção de Michel Hazanavicius — que também escreve o roteiro, ou melhor dizendo, os cenários e os diálogos — consegue inserir uma história sensível e ao mesmo tempo cômica, brincando com dois dos principais alicerces dessa arte: fazer rir e fazer chorar. E, assim como o Cinema com C maiúsculo, se aproveita do formato de filme mudo para caprichar nas técnicas visuais, tornando o resultado, se não totalmente universal (o maior ataque de Chaplin ao cinema falado) muito próximo disso.

Com uma muitas vezes tediosa peregrinação à decadência de nosso herói, o maior feito do filme é conseguir nos inserir na atmosfera daqueles tempos, cuja evolução visual tenha sido possível justamente pela ausência técnica de diálogos longos. Talvez devamos realmente essa evolução ao cinema mudo. Pelo sim, pelo não, O Artista faz uma homenagem mais do que apropriada ao nascimento de uma arte. Revendo mais uma vez O Artista (terceira vez em menos de um ano) é possível perceber duas coisas distintas e de certa forma paradoxais: 1) as pessoas não entendem mais por que assistir um filme com atores fazendo caretas, sem som algum e uma fotografia monocromática; 2) a academia não tinha como não dar o Oscar para um filme que abraça sem reservas a metalinguagem de todas as formas possíveis e imagináveis, uma declaração de amor sincera e profunda sobre o Cinema, não necessariamente apenas o mudo.

O Artista ● O Artista. The Artist (France, 2011). Dirigido por Michel Hazanavicius. Escrito por Michel Hazanavicius. Com Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2012-02-16. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?