O concerto

Caloni, December 24, 2010

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Trama principal: o próprio concerto; trama secundária: a relação de Andrey e sua solista, Anne-Marie.

Há uma introdução eficaz, pois já demonstra o jeito do maestro com a regência, e ao mesmo tempo, no corte inicial, já mostra que ele não faz parte da orquestra, mas está condicionado ao papel de faxineiro. Uma direção de arte que se preocupa com os detalhes em vermelho escuro (empoeirado?) do escritório do antigo partido. Domínio sobre a algumas sequências, como no jantar na casa de Andrey em que discutem o plano. Note como sua mulher aparece ao fundo e sussurra no ouvido de Andrey, ao passo que ao se dirigir à cozinha a câmera a acompanha, e ainda faz um círculo, voltando para a mesa de jantar.

A importância de Tchaikovsky na trama é logo declarada quando a orquestra escolhe o seu repertório, como pode ser notado na expressão de medo e incredulidade das pessoas que estão presentes quando é revelado. Os dedos tremendo do judeu ao tocar o trompete, e o foco na câmera nesse detalhe, é um exemplo dos pequenos detalhes da projeção que tentam criar o clima do desafio que o concerto representará para a maioria da orquestra.

Por trazer um conjunto de etnias tão diversificado como judeus e ciganos, o filme demonstra saber muito bem a atmosfera política em que ele se insere, até porque a subtrama do partido permanece até o final, na reunião do PCF (Partido Comunista Francês), que se revela um fracasso, com menos participantes que a própria orquestra.

Ao mesmo tempo, a orquestra como metáfora ou alegoria da própria sociedade comunista pela qual passaram seus participantes, onde as coisas simplesmente não funcionam se não houver a participação e o empenho de todos, é usada do começo ao fim, o que mais uma vez prova o engajamento político e ideológico do longa.

A cena do tiroteio no casamento pode ser engraçada, mas não se insere de forma tão orgânica, apesar de necessária para o financiamento da viagem (se bem que foi colocado para dar um tom mais dramático). A beleza da música na performance de Dmitry e do cigano principal, igualmente descartáveis, mas por dar um voto de confiança em Anne-Marie talvez se justifique.

O fato de Andrey (e, por tabela, Dmitry em alguns momentos) não saber muitas palavras em Francês também é uma jogada esperta que torna a comunicação com Anne-Marie mais deficiente, ou a mesmo tempo com palavras reveladoras (usar amar no lugar de gostar, no discurso de Dmitry).

Na descrição de Andrey durante o jantar com Anne-Marie no ocorrido, apenas ele ouve a música tocar (em que há um corte perfeito com a música no restaurante), e por isso Anne-Marie não entende completamente o que ele quer dizer. No momento do concerto, porém, Anne-Marie faz parte da orquestra, e tudo faz mais sentido para ela.

A comunicação então funciona plenamente, pois passa a ser baseada na música, que é universal. Existe uma transição entre a batuta quebrada do maestro e sua batuta (remendada) e a transição mais profunda, entre Lea e Anne-Marie na mesma posição, passado e presente.

Como se não bastasse, há ainda uma transição entre o futuro e presente, já mostrando a conclusão da trama durante o concerto e respeitando a inteligência do espectador.

O concerto ● O concerto. Le concert (France, 2009). Dirigido por Radu Mihaileanu. Escrito por Radu Mihaileanu, Alain-Michel Blanc, Matthew Robbins, Radu Mihaileanu, Héctor Cabello Reyes, Thierry Degrandi. Com Aleksey Guskov, Dmitriy Nazarov, Mélanie Laurent, François Berléand, Miou-Miou, Valeriy Barinov, Lionel Abelanski, Laurent Bateau, Vlad Ivanov. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-12-24. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?