El gato desaparece

Caloni, October 24, 2011

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Diferente da ótica tão comum nos filmes de encarar a loucura como uma doença trágica, Carlos Sorín dedica seus esforços em sua nova película para entreter o espectador e deixá-lo ver com seus próprios olhos que a loucura, de uma maneira geral, pode estar em todos nós, da maneira mais corriqueira e cotidiana que for. De maneira brilhante, O Desaparecimento do Gato consegue transmitir essa sensação através de inúmeras facetas.

A história começa com o relatório médico de três especialistas que decidem que um de seus pacientes está curado, e que portanto está livre para voltar à sua vida normal do lado da esposa. No entanto, esta, por ter vivenciado seu ataque de loucura, não está tão certa ainda da sanidade de seu marido, e embora tente de tudo para voltar à normalidade, acaba sempre voltando para a mesma questão que a remoe por dentro: estará seu marido verdadeiramente curado de uma doença mental?

De forma quase que metafórica, o gato da família é usado como estopim para suas suspeitas, pois assim que seu marido chega ele some de casa e nunca mais aparece. Aliás, a piada recorrente da mulher colocando comida à noite para ele é eficiente em todas as vezes, pois Sorin entende que o próprio espectador aguarda com certa ansiedade a resolução do “caso”.

Mais interessante, no entanto, é que aos poucos somos levados a crer que tudo o que acontece na vida do casal é, de certa forma, normal na vida de qualquer pessoa, e muitas das esquisitices de Luis (Luque) nós mesmos muitas vezes já nos pegamos na mesma situação. Aliás, Luis Luque é eficiente ao máximo ao deixar essa faceta de sua personalidade oscilando, de forma que sempre nos acalmamos com sua face inocente (mas sempre com um pé atrás). Norma Argentina, como sua esposa Ángela, dá um banho nas expressões e no modo de agir preocupada, criando um equilíbrio quase imperceptível entre os dois personagens.

Porém, e aí entra a genialidade de Sorín, essa “vida normal” que vemos é exposta através de uma lente que insiste em olhar as coisas de ângulos diferentes, onde até ouvir uma pessoa cantando pode despertar um sintoma preocupante (e a transição de uma trilha sonora de suspense para o sinal de um telefone é surpreendentemente funcional). Outro ponto são os closes um pouco acima do normal das faces dos personagens, o que evoca o ponto de vista de cada um sobre o que vai acontecendo (ao mesmo tempo que deixa todo o resto meio desfocado, em uma alusão ao mundinho privado em que os loucos vivem).

E diferente de um filme recente que vi (o péssimo Roubando Vidas), onde o óbvio chega a ser uma ofensa ao espectador, nesse caso sabemos que muitos elementos do longa são previsíveis, mas entramos de tal forma na atmosfera paranoica da esposa que um simples saco de lixo pode se transformar de uma hora pra outra em algo mais. Isso funciona tão bem porque, assim como ela, nós também temos nossas dúvidas sobre a sanidade de Luis.

Mantendo o controle absoluto da história, a conclusão tensa enriquece novamente toda a experiência, pois detalhes menos importantes passam a corresponder ao nosso entendimento (como as férias para o Brasil). E isso faz toda a diferença em uma história de qualidade.

El gato desaparece ● El gato desaparece. El gato desaparece (Argentina, 2011). Dirigido por Carlos Sorin. Escrito por Carlos Sorin. Com Luis Luque, Beatriz Spelzini, Maria Abadi, Norma Argentina, Gisela Aringoli, Alejandro Javier Bures, Emma Jayne Carlton, Kiko Cerone, Tristán Colombo. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-10-24. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?