O Homem Que Copiava

Caloni, April 20, 2019

External image

A sinopse do IMDB diz assim: “André, relatively poor, falls in love with Silvia, a neighbor whom he spies with a telescope.” Relatively poor é o que me chamou a atenção, pois isso diz muito sobre o filme. Que é relativamente excelente.

É relativo porque enquanto sua primeira metade esbanja técnica narrativa visual o seu final vai se desenrolando por caminhos que ultrapassam o absurdo fácil demais para continuarmos no mesmo espírito de seu começo, que é ingênuo, mas ao mesmo tempo profundo. Caminhamos pela mente de André, este operador de máquina de fotocópia, e observamos o seu mundo através de seu ponto de vista, que é simples, humilde, e com conhecimento recortado dos vários relances que faz de todo o material que copia de outras pessoas todos os dias.

Para isso repare como o diretor e roteirista Jorge Furtado realiza sua decupagem de maneira cirúrgica. Enquanto André revive uma passagem de uma estrofe de Shakespeare que leu por acaso vamos observando corte a corte as cópias que saem da máquina que opera, acompanhando cada palavra ressaltada pelo enquadramento ligeiramente diferente a cada momento. E um momento de poesia visual e ao mesmo tempo dinâmica, em um filme que explica as coisas como resultados parciais do Google (e isso em 2003).

Da mesma forma, a rotina de André, como toda rotina, se repete, e isso vira mais uma rima sobre as inúmeras cópias que André realizou em seu trabalho, além de se juntar com sua verdadeira paixão: desenho. Em particular quadrinhos. Dessa forma, acompanhamos em formato de gibi os movimentos detalhados de sua mãe momentos antes de ir dormir. A sua frase “boa noite, filho, estou indo dormir; televisão me dá um sono…” é repetida vezes suficientes para entendermos que a rotina no universo do filme é mais uma cópia, e André nada mais é que a cópia de um dos inúmeros garotos que tiveram seu destino selado com o abandono do pai.

Mas nada disso fica verbalmente claro em O Homem que Copiava, que respeita a inteligência do espectador e espera que ele mesmo analise o filme, ainda que de forma inconsciente, e descubra sobre as diferentes camadas que ele deseja falar. Enquanto isso acompanhamos um romance fofo e puro entre ele e a menina que mora ao lado, Sílvia. É isso que move o filme por caminhos tão imprevisíveis que nos faz lembrar das desventuras de outra heroína no mundo dos tímidos chamada Amélie Poulain.

Porém, este também é um mundo mais natural, ainda que fantasioso em várias partes. Os amigos que André conhece são todos gente boa, incluindo sua colega de trabalho que só pensa em casar com um homem bem-sucedido, a voluptuosa, ao mesmo tempo que ingênua de sua forma, Marinês (Luana Piovani). E podemos dizer isso também de seu namorado mais velho, Cardoso, que soa mais patético ainda nesse trio (que se tornará quatrilho) por ser o mais velho de todos. Cardoso é interpretado por Pedro Cardoso, da série A Grande Família, com um humor mais dramático, e chegamos até a devanear um pouco sobre como o sujeito foi parar na loja de velharias que trabalha.

Mas esta não é uma qualidade apenas de Cardoso, já que Lázaro Ramos e Leandra Leal formam a verdadeira alma do filme, com caras e trejeitos meticulosamente planejados para criar um romance daqueles imortalizados pela pureza que emana, que faz lembrar inclusive um soneto de Shakespeare, ou um Romeu e Julieta inteiro. Ambos estão interessados um no outro, mas a cadência com que as coisas acontecem é o que faz a diferença de um simples relacionamento que inicia no primeiro contato. Ambos são “relativamente pobres”, e ser pobre é também um dos motores do filme.

Esta é uma produção brasileira na época que a indústria ainda engatinhava com programas de apoio do governo e tecnologia de som porca. Mas Pedro Furtado é um cineasta de talento e sua equipe é competente, e por isso este filme soa como um trabalho sisudo do começo ao fim. Não sentimos as limitações técnicas porque este é um filme feito por pessoas que tiram água de pedra na hora de cada um fazer a sua parte.

Eu não acho que O Homem Que Copiava termina muito bem. Depois que um evento extraordinário acontece, logo em seguida a outro mais extraordinário, e duas coincidências incríveis acontecem, o pano de fundo fantasioso de nosso protagonista não é suficiente para manter a suspensão de descrença. Mas, ainda assim, é capaz que você goste muito mais do que eu. Há trabalhos que envolvem uma estética particular, um gosto de gênero que tornam nosso julgamento míope. Esse pode ser, sim, um filme relativamente excelente.

O Homem Que Copiava ● O Homem Que Copiava (aka The Man Who Copied). Brasil, 2003. Dirigido e escrito por Jorge Furtado. Com Lázaro Ramos e Leandra Leal, além de Luana Piovani, Pedro Cardoso. E até Paulo José. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-04-20. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?