O Preço do Amanhã

Caloni, November 17, 2011

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A grande sacada do gênero de ficção-científica, tanto no cinema quanto na literatura, é conseguir discutir alguma questão da sociedade atual sob a ótica de um mundo fantasioso. Para isso, as pessoas são colocadas em situações em que normalmente não existiriam, mas que lembram ou simbolizam uma questão do mundo real, ainda que encoberto de uma aura futurista.

Este é um mundo onde as pessoas são geneticamente modificadas para não envelhecerem a partir dos 25 anos. Porém, como tudo tem um preço, este passa a ser o próprio tempo de vida que essas pessoas possuem, pois do contrário viveriam para sempre. Dessa forma, o próprio filme entrega a conclusão (óbvia) da trama antes mesmo de seu protagonista ser informado, o que já revela um problema eminente na argumentação do filme como um todo: estaremos nós, espectadores, sendo subestimados, ou existe algo mais inteligente por vir?

A forma didática, repetitiva e até irritante com que o diretor nos mostra como são feitas as transferência de recursos entre as pessoas desse mundo demonstram não só certa indulgência com a “fabulosa” ideia que o roteirista-diretor supostamente teve como a incrível insegurança em seu espectador, com medo de que este não entenda algo que todos estamos acostumadíssimos a compreender, tanto que até existe um ditado que traduz isso diretamente: “tempo é dinheiro”.

Algumas ideias interessantes: New Greenwich (divisão em fusos horários) e a pressa dos pobres em realizar as tarefas comuns. Como tudo tem um preço, estipular uma taxa abusiva entre os fusos é o mesmo motivo pelo qual algumas pessoas viajam de ônibus e outras de avião em nosso mundo (ou moram em uma determinada região menos favorecida, em detrimento à região mais rica, porém com um custo de vida muito maior).

Com um arsenal enorme de piadas prontas, já que dinheiro e tempo sempre estiveram relacionados até em nossa própria sociedade (embora eu confesse ter gostado da reinvenção da frase “Don’t waste my time”).

Pessoas não precisam morrer, pois há tempo para todos (mas não há espaço) se revela ingênuo, pois é fácil fazer a transição entre as expressões tempo e espaço para dinheiro e recursos em nosso mundo real. Logo, não há de fato nada de novo nessa abordagem.

Chega a repetir duas vezes que o custo de uma ligação de um minuto custa… um minuto. Além do som da transferência de tempo ser tão repetitiva quanto a câmera insistentemente mostrando os braços juntos.

Depois que as cenas de ação são exauridas, o filme perde o fôlego, o que acaba denunciando a falta de ideias além de seu argumento inicial. Os personagens ficam patinando em suas posições, à espera de mais cenas de ação, pois não há, de fato, mais filosofia a ser aplicada (nem trocadilhos com relação a dinheiro).

Depois da sessão, confesso que não consegui pensar em como desenvolver o argumento do filme de uma forma mais… produtiva. Isso explicaria, em partes, porque o diretor do filme é o roteirista e o próprio produtor. Ninguém mais compraria uma ideia como essa para produzir um filme de milhões… nem que tivesse tempo sobrando.

O Preço do Amanhã ● O Preço do Amanhã. In Time (USA, 2011). Dirigido por Andrew Niccol. Escrito por Andrew Niccol. Com Justin Timberlake, Olivia Wilde, Shyloh Oostwald, Johnny Galecki, Colin McGurk, Will Harris, Michael William Freeman, Jesse Lee Soffer, Aaron Perilo. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-11-17. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?