O Rei Leão

Caloni, September 5, 2011

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O Rei Leão visto como deve ser visto — ou seja, em 2D — consegue impressionar pela síntese dramática que escolhe para não tornar o programa demasiadamente infantil para o seu principal público-alvo (as crianças) mas consegue se manter íntegro e representar de maneira irretocável a contribuição Disney para manter viva a lenda e uma das peças mais conhecidas de Shakespeare: Hamlet.

Quando eu digo íntegro quero dizer que até mesmo temas que hoje em dia são covardemente evitados mesmo entre o público adulto como a morte e o sexo são inseridos na narrativa e com direito a uma trilha sonora excepcional, que consegue oscilar dinamicamente entre a comédia e o drama épico como ondas que se formam durante a história.

Criando personagens de maneira econômica, mas que se firmam na narrativa pelo que representam — o macaco sábio, os palhaços salvadores de Simba, a princesa como elo com o passado, o criado fiel —, a história se entrelaça de maneira simples o suficiente para que os espectadores infantis entendam o destino de Simba, mas de forma complexa o suficiente para que entendamos toda a filosofia por trás da alegoria com animais, como o reino decadente e o significado da nobreza.

Com uma conclusão que aspira por aplausos em pé, o uso da metáfora do círculo da vida nunca foi tão significativo e poderoso.

Voltando agora da sessão 3D (leia-se: mutilada) do clássico dos clássicos da Disney, mas ainda me custa a entender por que esse desenho, em detrimento de tantas produções mais criativas, é tão supervalorizado pelas plateias.

É óbvio que a trilha sonora é magnífica, e consegue oscilar perfeitamente entre as cenas dramáticas, de ação e de humor, como podemos ver pela leveza da música-lema de Timão e Pumba, em detrimento ao clima sombrio e ameaçador dos toques sufocantes da fuga para os espinheiros. Da mesma forma, a sequência do estouro dos antílopes consegue unir de maneira completamente orgânica o trotar das centenas de animais em disparada e o tema composto por Hans Zimmer para a cena, que evoca um misto de urgência e perigo, caindo no final, para um melancólico destoar.

Já a fotografia, marca registrada das produções 2D da Disney, consegue se expressar aqui com o uso de traços que lembram aquarela, ainda que mantenha sua precisão. E perceba como o humor de Simba e do reino de seu pai é determinante paraa palheta dominante, e perceba como o acizentado sombrio e desconfortante da morada das hienas toma o lugar que antes era cheio de cores vivas e em movimento.

Da mesma forma, o roteiro segue uma coerência inatacável, embora a força da história esteja justamente em sua simplicidade que deve conseguir tocar o coração de pessoas de todas as idades. Muitos dizem que O Rei Leão evoca um tema Shakesperiano, e muito provavelmente a alma de Shakespeare passeia pelo reino de Mufasa e seu ciclo da vida.

Porém, ainda que tenham passados meros 17 anos de sua estreia (pouco para se transformar realmente em um clássico), seu envelhecimento no que diz respeito ao timing cômico, ou mesmo algumas piadas (assisti à dublagem brasileira) cheiram levemente a datadas.

Mas quem sou eu para criticar um filme tão bem feito e tão amado por crianças e adultos de todas as idades.

O Rei Leão ● O Rei Leão. The Lion King (USA, 1994). Dirigido por Roger Allers, Rob Minkoff. Escrito por Irene Mecchi, Jonathan Roberts, Linda Woolverton, Brenda Chapman, Burny Mattinson, Barry Johnson, Lorna Cook, Thom Enriquez, Andy Gaskill. Com Jonathan Taylor Thomas, Matthew Broderick, James Earl Jones, Jeremy Irons, Moira Kelly, Niketa Calame, Ernie Sabella, Nathan Lane, Robert Guillaume. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-09-05. Revisto em 2012. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?