O Senhor das Armas

Caloni, April 7, 2011

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O roteirista-diretor Andrew Niccol, que esteve nessa função dupla nas produções Gattaca e S1mone, além de ter escrito O Show de Truman e O Terminal, dessa vez parte para uma imersão no real, tratando do submundo do comércio ilegal de armas.

Nicholas Cage faz Yuri Orlov, um negociante de armas ilegais, durante sua ascenção em uma carreira mais que controversa. Narrado em off, insere-se no papel por completo, e ao mesmo tempo que narra as atrocidades que seus clientes fazem com as armas e toda a podridão que existe por trás de sua profissão, parece nunca fazer parte disso, alheio aos problemas locais das várias partes do mundo que visita. Mesmo sua mulher, tão desejada em sua adolescência, não o preenche tanto quanto sua profissão, e nisso é relevador que o momento em que seu filho dá seus primeiros passos é o mesmo momento em que ele fica em êxtase, não pelo filho, mas sim pelo fim da Guerra Fria, significando mais possibilidades de comércio de armas para ele.

Há um motivo para a introdução do personagem ser tão corrida e artificial. Como veremos a partir do segundo ato, a única coisa que torna Yuri Olov vivo são as vendas de armas que negocial tão magistralmente. E vê-lo comparar suas vendas a sexo não é um ato gratuito.

Vindo de uma família que no passado fingiu ser judia para conseguir se repatriar, o que reforça sua crise existência em torno do seu mundo, Orlov admira sua própria importância no contexto em que se insere. A parte que melhor resume toda essa imersão é quando, conversando com sua mulher sobre seu trabalho, em certo momento diz que não é sobre o dinheiro, mas que ele faz aquilo realmente bem. Cada vez que ele visita seus clientes, aos poucos nos sentimos cada vez mais como ele: morto por dentro, onde a única excitação é negociar as armas.

Por outro lado, a insistência de manter seu irmão mais novo no negócio em momento nenhum é justificado. Talvez apenas um conforto tê-lo presente, pois não constitui nenhuma ajuda.

Mesmo com um tropeço aqui e ali, a direção consegue destacar as características de cada personagem em cada região e unificar Yuri como o elemento em comum, o facilitador de todos. Nicholas Cage, por sua (im)presença de espírito, prova mais uma vez ser um bom ator nos papeis certos, e aqui não é uma exceção.

Ao mesmo tempo, as narrações em off conseguem na maioria do tempo harmonizar com a ação, que não é pouca. O próprio uso dessas transições entre as regiões serve como continuidade da própria história, em um ótimo exemplo de economia narrativa.

Ao evitar computação, principalmente em cenas como o pouso do avião, ou até mesmo os tanques enfileirados na entrada da Ucrânia, torna toda a experiência mais realista. Houve um trabalho igualmente recompensado em escalar figurantes locais, que se adequam ao cenário como nunca, como a cena em que vemos uma velha senhora enfileirando os ladrilhos de uma rua. Ao mesmo tempo, nota-se a competência em tentar encaixar a melhor fotografia e trilha sonora com o momentum do personagem.

Mesmo com todas essas virtudes técnicas, a filosofia (ou a mensagem) por trás da história é o ponto forte do longa, que consegue, em seus momentos finais, causar o que todos esperamos ao assistir um bom filme: reflexão.

Trivia

É irônico o fato dos produtores do filme trabalharem realmente com gunrunners de armas ilegais para conseguir as armas, e ser mais barato as armas reais do que se falsificassem.

O filme foi financiado por instituições internacionais (nenhuma produtora dos Estados Unidos bancaram o filme).

O Senhor das Armas ● O Senhor das Armas. Lord of War (USA, 2005). Dirigido por Andrew Niccol. Escrito por Andrew Niccol. Com Nicolas Cage, Bridget Moynahan, Jared Leto, Shake Tukhmanyan, Jean-Pierre Nshanian, Jared Burke, Eric Uys, David Shumbris, Stewart Morgan. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-04-07. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?