Os Agentes do Destino

Caloni, May 19, 2011

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Em uma época em que religião e economia precisam ser reinventadas, a visão mesclada de ambas em uma organização fria e calculista não deixa de ser no mínimo curiosa. Porém, mais do que isso é constatarmos que os homens sisudos do filme têm por função coordenar algo que para nós, seres humanos, especialmente em tempos de crise, é sabidamente a única coisa de que realmente somos donos: o livre arbítrio.

Sabendo disso, e ainda de bônus o fato do personagem de Matt Damon ser um político popular, jovem e em ascenção, mas que ao mesmo tempo se questiona sobre suas prioridades, conseguimos, desde o início, um filme que aborda discussões pelo menos um passo adiante sobre algumas de nossas principais convicções sociais.

De forma que, quando vemos o discurso de David Norris (Damon), refeito na hora de improviso, que estigma desde já o nosso conceito de espontaneidade, explicando para um público completamente hipnotizado pelo seu poder de comunicação como os sapatos que ele calçou durante a campanha são desgastados meticulosamente para que ao mesmo tempo atraia o trabalhador comum e não afaste a elite do mundo financeiro, somos levados através de um pano de fundo realista para uma experiência no mínimo intrigante sobre o funcionamento da nossa própria realidade.

E, de fato, existe algo durante toda a projeção que nos incita a ficarmos permanentemente curiosos a respeito do futuro de David e Elise, pois, ao mesmo tempo que descobrimos como esse futuro é construído, não conseguimos concebê-lo desde o início, condicionados que estamos com a evolução de uma narrativa cinematográfica clássica, com seus imprevistos e percalços necessários ao arco dramático de nosso protagonista.

E é justamente nesse momento que percebemos a maior fraqueza do filme: não conseguir estimular os anseios dos dois personagens, fixando-se, no lugar, em descrever durante o trajeto a forma como os tais agentes trabalham e os problemas que precisam enfrentar para tornar tudo funcionando da maneira que foram instruídos para funcionar.

No entanto, essa é uma parte necessária ao tema do filme, e muito bem-vinda, pois assim como em A Origem, precisamos de explicações muitas vezes didáticas de como as coisas funcionam nesse universo. O problema, contudo, é que, no terceiro ato, ao tentar voltar-se completamente para David e Eloise, o filme perca toda a construção feita até então para dar foco ao casal do filme que sequer conseguiu se definir na narrativa. Dessa forma, a decisão de David de vê-la mais uma vez, e para isso montar uma estratégia de guerra, soa forçado demais.

Portanto, é de esfriar os ânimos que um filme que se entregue em seu início tão corajosamente a instigar o raciocínio de seus espectadores mais abertos à filosofia, em seu final se entregue justamente ao seu oposto, quase como se o próprio filme, vítima de um plano maior, precisasse reassumir o lado clichê das produções de Hollywood e voltasse à normalidade em seus últimos quinze minutos.

Porém, não seria essa a finalização metalinguística do seu próprio criador?

Os Agentes do Destino ● Os Agentes do Destino. The Adjustment Bureau (USA, 2011). Dirigido por George Nolfi. Escrito por George Nolfi, Philip K. Dick. Com Matt Damon, Emily Blunt, Lisa Thoreson, Florence Kastriner, Michael Kelly, Phyllis MacBryde, Natalie Carter, Chuck Scarborough, Jon Stewart. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-05-19. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?