Requiém Para Um Sonho

Caloni, April 29, 2019

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Eu nunca me decepciono (pelo menos por enquanto) com Darren Aronofsky. Em “Réquiem Para Um Sonho” há essa forte mensagem anti-drogas, realizada com propriedade, com uma textura pesada e indossociável da própria natureza de um ser humano que não se valoriza. É um filme depressivo, mas que ao mesmo tempo nos faz refletir sobre nossos próprios vícios no dia-a-dia. E se você acha que é apenas contra drogas ilegais, pense de novo e responda a si mesmo: o que você faz para fugir da sua realidade?

A televisão já foi massacrada algumas vezes pelo Cinema, já perdeu até a novidade, ela e seu caráter de lavagem cerebral. Mas aqui ela é uma vilã muito caricatural, uma mistura de tudo que fascina as pessoas, principalmente as que anseiam por atenção. É um programa de TV que recebe pessoas de sucesso (pela definição do apresentador) e tem uma plateia empolgada com a existência dessa pessoa fictícia.

E apesar de viciada nesse programa de TV, a mãe de um viciado o deixa vender sua TV, para logo depois pegá-la de volta, comprando em seguida. Ela é uma mãe que coloca seu filho em primeiro lugar, pois anseia pelo mínimo de atenção. Viúva e sem nada que a faça viver (suas amigas de banho de sol não contam), ao receber uma ligação de alguém que diz que ela aparecerá na TV a faz entrar em uma rígida dieta para voltar a entrar em um vestido que representa sua época áurea.

Por falar em época áurea, este filme está localizado no símbolo de sua decadência: Rhode Island, finalzinho de Nova York, que mantém seu aspecto histórico e ao mesmo tempo definha em torno do mundo se transformando. Aquelas mulheres tomando banho de sol a alguns metros da praia vira uma mistura entre saudosismo e melancolia. Este é o cenário perfeito para retratar os quatro personagens principais que sofrem disso. Seus estados de euforia são estágios temporários em busca de algo que nunca encontrarão, mas que tentam incessantemente achar através de substâncias que alteram sua percepção da realidade.

Todos sofrem, mas é na figura dessa mãe viúva que repousa todo o coração do filme. Isso porque, diferente dos outros três, essa mulher não é uma jovem que pode mudar seu destino; ela apenas aguarda pelo seu final, e entendemos sua angústia interna. Esta é uma atuação mestre de Ellen Burstyn em completo controle do descontrole de seu personagem. É a partir dela que não se torna difícil também nos colocarmos no lugar do seu filho (Jared Leto), porque por mais que estejamos presentes na vida de nossos pais (ou se você for muito jovem, seus avós) a verdade é que viver sem propósito é uma tortura constante para a existência de qualquer ser humano. Quando ela diz ao seu filho que emagrecer para aparecer na TV é o motivo dela arrumar a cama, lavar os pratos, e até sorrir, mais uma vez a ficção nos entrega a realidade dura da vida, realidade essa tão presente em nossos jovens, que não respeitam seus corpos e suas mentes.

Este é um filme que se entrega à obsessão perfeccionista de seu diretor, o que quer dizer que você pode reassisti-lo quantas vezes for e ainda encontrará detalhes novos. Note o uso gradual de lentes olho-de peixe para distorcer a vida dessa mãe, e aos poucos torná-la um programa triste e patético de TV (se não é de sua época, as TV antiga era um tubo atrás e uma lente distorcida na frente). Note o uso de cores e as luzes, que vão se escurecendo, seja no figurino, na maquiagem ou nos quartos onde essas pessoas se escondem (e o melhor exemplo é a personagem de Jennifer Connelly). Note os detalhes contidos nas casas dessas pessoas, e como podemos notar a passagem do tempo através desses detalhes. Uma caixa da Sony em um canto, e onde havia dois toca-fitas usados em festinhas repousam cinco empilhados, que aparentemente não são usados mais. É o consumismo pelo consumismo, outro vício recorrente na sociedade pela busca de um significado nas coisas que é inexistente.

(Sobre as cores, volto a observar a mãe. Note como seu cabelo pintado vai perdendo a força. Além da cor que desejava para ele, vermelho, ter começado laranja, as raízes brancas vão tomando conta da base conforme as estações passam e ela não é chamada para ir na TV.)

(O uso das câmeras subjetivas também é exemplar, pois conforme o drogado se fecha em seu mundo ele só consegue prestar atenção em si mesmo e em suas reações. O mundo se distorcer perante suas próprias distorções do que é ser feliz. Por isso as cenas com uma câmera presa na frente do ator fica mais frequente e representa uma pessoa fechada para o mundo, e ao mesmo tempo desesperada para sair.)

Aronofsky sempre escolhe o tema de personagens que buscam a perfeição. Dessa vez a perfeição em escapar da realidade dura da vida através das drogas é um caminho sem volta. Não deixa de ser coerente. E nesse caso, impactante e inesquecível.

Requiém Para Um Sonho ● Requiem for a Dream. EUA, 2000. Dirigido por Darren Aronofsky, escrito em uma parceria entre Aronofsky e Hubert Selby Jr., baseado em seu próprio livro. Com Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-04-29. Texto escrito por Caloni. Quer comentar?